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1 Articulando Gênero e Geração aos Estudos de ... - Fazendo Gênero

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4 omisso também, e um

4 omisso também, e um dia eu perguntei a esse menino – foi um caso lindíssimo – e eu sempre procurando fazer com que ele descobrisse nesse pai alguma coisa que, assim, vamos dizer, fascinasse esse menino pelo pai. (...) E ele sempre enchia a mãe de qualidades. Ele falava: 'minha mãe é corajosa, minha mãe é isso, minha mãe é inteligente, me defende...'. (...) E um dia eu perguntei: ‘mas me diga, hoje você falou todas essas coisas maravilhosas da sua mãe, e do seu pai, o que que você me diz?’ O menino respondeu: 'a única coisa positiva que eu vejo no meu pai é ele ser torcedor do sport!' Então imagina? Então, meu trabalho durante seis anos, de terapia pesada, semanal, foi resgatar esse laço com o pai, não consegui totalmente, mas pelo menos esse menino não partiu para o homossexualismo (grifos nossos). Se a expressão “pelo menos esse menino não partiu para o homossexualismo” já acena para um valor depreciativo para a homossexualidade, em outro momento de sua fala, ela explicita as crenças que respaldam tal valoração: Olhe, eles (homossexuais) sofrem muito. Por conta da recriminação, né? A sociedade recrimina, discrimina o homossexual, de uma maneira geral. Agora mesmo a gente teve um caso na novela, né? Um caso de um rapaz. E a gente via a sociedade toda recriminando, e é uma coisa que hoje em dia a gente vê tanto! É tão comum, né? Mas a sociedade não aceita, porque, vai, realmente contra as leis, vamo dizer, da natureza, né? Agora que ele sofrem, sofrem! (grifos nossos) No segundo tipo – onde explicitamente é dito que a homossexualidade é uma coisa natural, mas implicitamente vemos esta se configurar como um fenômeno não bom, na trajetória de uma pessoa – temos o relato de Juliana. Ela que inicialmente diz considerar a homossexualidade uma expressão normal da vida sexual humana, relata a situação aonde uma mãe chegou ao seu consultório desesperada porque havia encontrado o filho realizando “brincadeiras eróticas” (sic.) com outro menino, preocupada com a possibilidade do filho vir a ser “gay” (sic.). Ela diz que a sua atuação foi a de tentar conscientizar a mãe sobre a naturalidade do fenômeno. Sugeriu que ela não o amedrontasse ou o castigasse. No entanto, também a orienta pra que evitasse “estimular” o contato dele com crianças que ela soubesse também ter este comportamento. Que o mantivesse, numa espécie de, palavras dela: “liberdade assistida”. Ora, se, de fato, as práticas e orientações homossexuais são concebidas pela terapeuta como coisas naturais, por que orientar que se mantenha o cliente sobre constante vigilância? Por que proibir o seu contato com outras crianças que se saiba tenham comportamentos assemelhados? Finalmente, temos aquelas que, de fato, desetigmatizam a homossexualidade. É o caso de Juvita (24 anos, protestante): “E, pra mim, o mais importante é saber se isso está trazendo sofrimento pra ele, porque a partir do momento que não traz, é uma questão como outra. Agora,

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 que se está trazendo sofrimento pra ele, eu acho que tem de ser mais trabalhado”. O que, na prática vai se traduzir em um afastamento da questão das origens para uma atenção especial para o cuidado de si: [Ainda com relação aos adolescentes que chegavam pra ti (no trabalho institucional em abrigos), e te falavam, ou você percebia a questão da homossexualidade, como é que você interpretava? Qual era o tipo de orientação? (...) Caso eles viessem pedindo uma resposta, uma ajuda?] O meu retorno não era em relação a homossexualidade dele. Até porque nuca houve casos de o adolescente chegar e dizer que estava sofrendo porque “era”, e queria mudar. Os adolescentes, eles “eram” e não colocavam isso como problema em si. A orientação era mais sobre cuidados que eles deveriam ter. Então, ele ser homossexual, certo, mas o porquê de ele estar se comportando de determinada forma? Que não tem nada à ver a questão da sexualidade, então eu levava pra questão de fuga... Porque ele estava tendo práticas tão sem cuidados, tão banalizadas. O cuidado era mais com isso, com as atitudes dele, e não em relação à homossexualidade dele. Como se pode notar, se afinar ao novo – considerar “que a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”, ”contribuir (...) para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas”, não exercer “qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas”, nem adotar “ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados” (Conselho Federal de Psicologia, 1999) – tem sido, realmente, bastante difícil para algumas de nossas interlocutoras da psicanálise. Elas ora se aproximam e ora se afastam da patologia e o contra-ponto, das possibilidades de construção de projetos de felicidade. Na trilha de compreender os fatores que contribuem para isso, vale retornar um pouco na história e sublinhar com Valas (1990) que a concepção dominante na teoria sexual do ser humano no final do século XIX, época em que Freud começa a escrever sobre o assunto, repousa no postulado da atração recíproca natural de um sexo pelo outro, que encontra sua fonte individual nos órgãos sexuais. Conforme Valas (op. cit.: 9): “a noção moderna do instinto sexual vai oferecer à clínica nascente das perversões sexuais seus primeiros fundamentos teóricos”. Ainda sobre o contexto de surgimento da teoria Freudiana, Lacquer (2001) e Costa (1995) vão apontar que a medicina mental, responsável pela criação da sexologia e demais ramos do conhecimento da sexualidade humana, era uma medicina voltada para a moralização de condutas, a partir do que propunha a hegemonia. Costa (1995) sugere que a redefinição biológica dos indivíduos como seres originalmente divididos em dois sexos (“two sex model”) foi uma resposta a interesses sociais, políticos, jurídicos 5

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