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Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos na ...

Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos na ...

No decorrer do trabalho,

No decorrer do trabalho, veremos como esse romance, partindo da memória de uma personagem, consegue unir a discussão política à questão espacial, evidenciando uma diferenciação entre os espaços público e privado. Além disso, por ser uma figura feminina a personagem principal, culmina-se em uma breve análise do papel da mulher na sociedade. MEMÓRIA A voz submersa é um romance memorialista. A personagem recorre intermitentemente à memória. Memórias de uma dona-de-casa burguesa e de uma testemunha do terror. Lembrança da infância, do dia de "ontem" que entrou para a história e até do futuro. Memórias de fantasias e realidades. A memória pessoal de Dulce serve à memória coletiva/social. É em meio ao discurso de uma dona-de-casa, com seus afazeres domésticos e aos desentendimentos familiares, que aparecem assuntos caros à sociedade como feminismo, educação sexual, enriquecimentos ilícitos e, certamente, a violência da ditadura militar. Dulce não somente remonta ao passado como desnuda o presente e tenta deslindar o futuro; é uma mulher que reconstrói seu passado. A imagem do corpo do estudante assassinado, jogado sobre as escadas da Candelária, soou como um sino que a acordava para outra realidade, muito diferente daquela de dona-de-casa-pequeno-burguesa a que estava acostumada. A partir de então, seu passado vem à tona, numa confusão de sentimentos que ditam o tom da obra, numa duplicidade evidente. Suas memórias remontam à infância em Florianópolis e seu discurso confunde-se entre passado e presente, ficção e realidade e ficção dentro da ficção, já que narra sensações e não convicções. A personagem é perseguida pelo passado e por sua constante fusão com o presente. Em vários momentos da narrativa, a imagem do corpo do estudante invade o pensamento de Dulce e ela tenta fugir à realidade, relembrando o passado. Mas ela não consegue desvencilhar-se do presente e a barbárie do assassinato aparece também em suas memórias. A confusão é tal que Dulce chega a ver a si própria no lugar do estudante, tendo seu corpo carregado pelas ruas ou, de outra forma, imagina-o como seu filho. Procurando refúgio, telefona para a mãe e ao tentar contar-lhe o que aconteceu, vê-se imersa em uma série de indagações e questionamentos sobre sua própria vida. O futuro depende da memória, pois, de acordo com o que é recordado no presente, pode-se vislumbrar várias formas de futuro. Por isso é tão importante saber “como” recordar, para que a atualidade não traia a memória através de homenagens e monumentos vazios, descaracterizados, que não fazem jus ao realmente ocorrido.

Martin-Barbero afirma ainda que não há memória sem conflito, pois em cada memória ativada há outras reprimidas, desativadas, umedecidas, e em cada memória legitimada há muitas memórias excluídas ii . De forma similar nos fala Walter Benjamin a respeito de verdade e passado. Para ele, a verdade do passado reside no leque dos possíveis que ele encerra, tenham eles se realizado ou não. É preciso resgatar do esquecimento aquilo que poderia ter feito da nossa história uma outra história, isto é, não deixar cair no silêncio um passado que a história oficial não conta. O passado, para ele, possui um caráter inacabado, não está encerrado em uma interpretação definitiva iii . Talvez seja por isso a personagem Dulce pareça tão conturbada; por isso suas memórias são tão conflitantes com a realidade. A memória é uma tensão irresoluta entre lembrança e esquecimento; às vezes se quer lembrar, mas não consegue, em outras se quer esquecer, mas a recordação insiste em vir à tona. POLÍTICA A literatura é também política. Tecer uma obra com elementos ficcionais não significa desvencilhar-se do contexto, desnudar-se de conhecimentos adquiridos socialmente, tampouco abandonar conceitos e mentalidades. Escrever é distribuir cartas entre autor, leitor e instituições da sociedade. O ato de escrever (e de tornar pública uma obra) pressupõe finalidades preestabelecidas: há sempre um interesse específico, uma política a ser seguida, no sentido mais amplo da palavra. Terry Eagleton afirma que a teoria e a crítica literárias estão intimamente ligadas às crenças políticas e aos valores ideológicos iv , como um modo de ver a história e interferir nela. Esta opinião é corroborada por Hayden White, quando diz que a teoria contemporânea permite acreditar mais do que antigamente que "poetizar" não é uma atividade que transcende a realidade ou que se aliena dela, mas que representa uma praxis que serve de base para toda atividade cultural v . A voz submersa, ao mesmo tempo em que relembra um acontecimento histórico, traz à tona o discurso de alguém que se beneficia da situação do país – uma ditadura militar –, que se vê imbuída a refletir e acaba denunciado sua própria classe, para não dizer a si própria. A narrativa se constrói a partir de um acontecimento aparentemente externo ao mundo das personagens, mas que se revela o fator primordial para o desencadeamento de suas ações. Esse fator externo, no entanto, além de ser responsável pela desestruturação da personagem, está também em sua origem, destacando-se dois tempos – o do autor como homem social e o do autor como contador de uma história. Em seu momento de criação, o autor mune-se de um acontecimento que é a base de construção da personagem e, por conseguinte, de toda a narrativa. No caso de Dulce, o testemunho da violência da polícia é o que a faz

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