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Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos na ...

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desmoronar, mas é também o que permite a sua reformulação, a partir de análises de suas crenças e atitudes. A memória pode ser também um instrumento de poder, de dominação. Governos ditatoriais, por exemplo, tentam imputar na memória do povo os acontecimentos que lhes convém e fazê-lo esquecer outros. A memória oficial serve para içar personagens históricas ou para camuflar acontecimentos. Atos do governo ditatorial no Brasil, por exemplo, costumam tornar-se conhecidos na Nova República, revelando facetas de políticos e atos até então ocultos. Trata-se da manipulação da memória coletiva: camuflar dados que poderiam mudar os rumos da história; escamotear para não se deixar julgar. Não se pode, portanto, esquecer o tempo da história política que surge, a todo o momento, como um sinal de alerta: "não se esqueça da violência que se instalou aqui", clama sempre uma voz. "A ditadura ajudou a fazer grandes fortunas", brada novamente. Mais contundente ainda é a imagem do estudante assassinado que, numa espécie de jogo de esconde-revela, emerge e submerge na narrativa, criando um círculo vicioso, já que retoma sempre sua força, seja qual for o assunto tratado. Dessa forma, a personagem não esquece e não deixa o leitor esquecer o episódio da morte e as conseqüências da repressão naquele período. Dulce é contraditória. Em um momento revela e justifica os negócios do marido e em outro parece querer denunciar atos de repressão e violência explícita. Ela deixa falar a voz da cidadã chocada pela forte imagem do assassinato, descrevendo uma. A música que ficou marcada como hino de protesto a domina, "uma canção jorra, a frase melódica, 'vem, vamos embora, esperar não é...' (...)" (p.131). A voz submersa tematiza um período específico da história social e política do Brasil, mas não é uma obra datada. Pode ser compreendida em qualquer meio, em qualquer época, não se atém a maneirismos ou jargões, não se escraviza em determinada maneira de pensar nem estereotipa personagens. Fala sobre um acontecimento que teve lugar duas décadas antes de sua publicação, “limpa o pó” e tenta lustrar o fato, não para embelezá-lo, mas para destacar fatos que não podem ficar esquecidos num canto do armário. A obra fala da memória social, política, mas também pessoal; relata “acidentes” de um governo militar ditatorial mas também as inquietações de uma personagem. É original em mesclar fatos reais e ficcionais de forma fluida, quase escorregadia, pois não se sabe ao certo onde se inicia o problema, se na esfera da narrativa ou no campo da política. Retira-se o assassinato do estudante e o romance permanece. Se ele é preservado, enriquece, ganha uma dimensão a mais, a da denúncia; sempre, contudo, contribuindo para a construção ficcional.

ESPAÇO E GÊNERO A Casa e a Rua A questão espacial é matéria relevante desde longes tempos. Na Antigüidade Clássica já havia distinção entre os espaços público e privado e sua maior ou menor diferenciação varia de época para época. No contexto da Roma Antiga, quando do surgimento da palavra público (que vem de populicus - de populus, povo), e da Grécia, cuja democracia da ágora simbolizava a presença do "povo" na atividade política, podemos inferir a aproximação dos termos social e político, em contraposição àquilo que é privado/íntimo. A contradição entre privado e público, no entanto, é característica dos estágios iniciais da era moderna, um fenômeno temporário que teria culminado na submersão de ambas as esferas na esfera do social Estado Nacional. É da extinção dessa diferença que surge, então, o lugar da intimidade como uma fuga do mundo exterior para a subjetividade interior do indivíduo vi . A personagem de A voz submersa inicia sua jornada – de desabafo, de autoconhecimento – na rua, espaço público onde se está sujeito às mais diversas situações. Neste caso, o perigo é real e imediato. No ano de 1968, tempo de linha dura da ditadura militar, deixar os limites da casa significa arriscar-se; é estar vulnerável a confrontos entre polícia e militantes, a seqüestros e toda sorte de arbitrariedades. Em tempos como esse, o espaço público é um lugar ainda mais antagônico ao espaço privado. Dulce passeia entre os dois, “ziguezaguea”, seus dias são marcados pela alternância entre a casa e a rua. Nesta, ela sofre violências, confronta-se com a realidade social; naquela, pensa, tagarela, tenta encontrar a si mesma, defender-se, tranqüilizar-se. Mas o momento não é de serenidade; tanto no aspecto político como no pessoal, é hora de turbulência. Quando se confronta com acontecimentos da rua, Dulce perde as bases que parecem sustentá-la e, então, ela transita entre os espaços, deixando a rua agressora em busca do lar acolhedor. A personagem se depara com a decrépita face da realidade social e é obrigada a admitir que faz parte desse cenário, que sua conduta legitima tais procedimentos, que ela é responsável pelo que presenciou e que nem tudo gira em torno de sua vida e do que acontece nas cercanias de seu apartamento. O que fica transparente é que Dulce precisa voltar, esconder-se no abrigo do lar. Estar em casa não significa, contudo, esquecer o acontecido. Ele (o acontecido) a acompanha, entra no táxi com ela, ingressa em seu lar e posiciona-se entre Dulce e a mãe, vibra no fio do telefone e permanece ali, por vezes adormecido e em outras admiravelmente desperto. Na casa ou na rua, a narrativa de A voz submersa é puro movimento. Assim, seguimos procurando imagens que nos remetam a esses dois espaços. Nelson Saldanha, numa análise sociológica, apresenta-nos as imagens da praça e do jardim como representantes da diferenciação dos espaços

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