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O corpo como instrumento de vingança em “Emma Zunz” de Borges ...

O corpo como instrumento de vingança em “Emma Zunz” de Borges ...

caso clínico, uma

caso clínico, uma mulher obcecada pela figura paterna, isso se deve aos índices fornecidos pelo texto, que pode ser interpretado sob diversas perspectivas. Umberto Eco, em “A poética da obra aberta”, faz uma análise de obras que, como “Emma Zunz”, se propõem a estimular o mundo pessoal do intérprete. Para ele, uma obra de arte, forma acabada e fechada em sua perfeição de organismo calibrado, é também aberta, isto é, passível de mil interpretações diferentes, sem que isso implique alteração de sua singularidade. Cabe ao fruidor compreendê-la e interpretá-la de acordo com sua perspectiva individual. Em As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino, ao descrever a Kublai Khan as incontáveis cidades do seu imenso império, e questionado a respeito da recepção de suas histórias, Marco Polo promove, por analogia, uma interessante definição de “leitor”. Diz o veneziano: “Eu falo, falo, mas quem me ouve retém somente as palavras que deseja. Uma é a descrição do mundo à qual você empresta a sua bondosa atenção, outra é a que correrá os campanários de descarregadores e gondoleiros às margens do canal diante da minha casa no dia do meu retorno [...]. Quem comanda a narração não é a voz: é o ouvido”. (CALVINO 1990:123). Da mesma forma, o leitor comanda o texto, construindo-o e reconstruindo-o, de acordo com suas vivências, sua bagagem literária, para além do que está escrito. Uma leitura linear provocaria, fatalmente, seu empobrecimento. Em “Emma Zunz” aparecem várias lacunas que têm que ser preenchidas pelo leitor. No momento em que Emma tem ciência da morte do pai, numerosas lembranças acorrem a sua memória. Depreende-se que desses antigos dias felizes a figura do pai está viva para Emma, mas a figura da mãe se faz presente somente com certo esforço. Tal fato poderia estar insinuando um possível relacionamento problemático entre mãe e filha, não esclarecido pelo texto? Outra lacuna que se instala na narrativa são os acontecimentos que ocorreram nos seis anos, desde que Emanuel Zunz foi acusado de desfalque e deixou o país (1916), até janeiro de 1922, quando morreu. Uma elipse suprime a história da relação que pai e filha mantiveram durante esse tempo. Se Emma amava o pai a ponto de vingar seu suicídio, matando a quem supunha responsável por ele e entregando-se sexualmente a um estranho, por que esteve separada dele por tanto tempo? Se ela estava informada a respeito do seu refúgio, por que, então, foi enganada, à primeira vista, pelo selo e pelo envelope da carta que chegou do Brasil? Na verdade, a carta assinada por um desconhecido afirma somente que seu pai havia ingerido por engano uma forte dose de veronal; não menciona o fato de ter havido suicídio. Ao receber a carta, Emma reage, chora e conclui pelo suicídio, sem vacilação. Novamente aqui ocorre uma elipse: não é dada ao leitor uma explicação que fundamente a certeza que Emma tem de que o pai se suicidara. O leitor é levado a inferir a responsabilidade de Loewenthal na morte de Emanuel Zunz, já que com o dinheiro do desfalque, ele passa de gerente a 2

dono da fábrica onde trabalhava o pai e onde trabalha a filha. Por outro lado, para Emma a certeza da culpa de Loewenthal advém da palavra do pai, precariamente sustentada, antes de fugir. O narrador nos diz que Emma sofre e chora o suicídio de seu pai. Vale registrar que o objeto do pranto está ligado aos sentimentos e às crenças de Emma, independentemente de corresponderem ou não aos fatos que verdadeiramente ocorreram. Note-se que o narrador não afirma que houve um suicídio. Novamente aqui o conto não se fecha a interpretações. Mais um aspecto não esclarecido refere-se à responsabilidade moral que Emma sente pelo suicídio do pai, e que a motiva tão fortemente à vingança. A sensação de culpa que Emma experimenta é tão intensa que se projeta na escolha do marinheiro ao qual se entregará sexualmente. Ela rejeita o primeiro homem que encontra, porque lhe parece muito jovem e opta por um “más bajo que ella y grosero, para que la pureza del horror no fuera mitigada” (BORGES 1996: 565 v.I). A expressão “pureza del horror” dá a dimensão do seu sacrifício, que ela não aceita ser aliviado; quer levar sua degradação moral e física até as últimas conseqüências, por uma “culpa ciega”, cujo motivo não é elucidado. Depois de receber a carta, Emma constrói cuidadosamente um monstruoso labirinto, com o propósito de vingar o pai. Observe-se que ela é operária em uma fábrica de tecidos; do mesmo modo, também é uma aranha, que tece cuidadosamente uma teia para apanhar sua vítima. Longe da cena do crime, seu corpo produzirá as provas que incriminarão Loewenthal e justificarão seu ato. Na cena do crime ela as exibirá, usando também o seu discurso. Note-se que Borges trabalha não só com a metáfora do labirinto mental, como também com a metáfora do labirinto espacial. Quando Emma vai ao prostíbulo, no Paseo de Julio, se vê mergulhada penosamente num verdadeiro labirinto de espelhos, luzes, saguões, escadas, portas, vestíbulos, corredores, vidraças. As expressões “infame Paseo de Julio”, “turbio zaguán”, “escalera tortuosa” dão uma dimensão do lugar odioso em que Emma penetra. Os fatos, no entanto, não se sucedem exatamente da forma como Emma havia planejado. No momento de entrega ao marinheiro, ela vacila em seu propósito de vingança porque descobre que seu pai, vinte anos antes, submetera sua mãe à mesma humilhação a que ela agora se vê submetida. E nesse instante Emma hesita e duvida que seu pai mereça aquele sacrifício. A lembrança da mãe, até então nebulosa nas recordações de Emma, se instala intensa, humilhada. Assim, no momento em que se deixa violentar, a jovem toma consciência de que o pai também fora um homem e, nessa condição, passa a inspirar nela o temor quase patológico que os homens em geral lhe inspiravam. Desse modo, o que era o principal motivo de sua vingança transforma-se em um motivo secundário: “Ante Aarón Loewenthal, más que la urgencia de vengar a su padre, Emma sintió la de castigar el ultraje padecido por ello. No podía no matarlo, después de esa minuciosa deshonra” (BORGES 1996: 567 v.I). 3

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