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Posturas Femininas em uma Escola Pública de ... - Fazendo Gênero

Posturas Femininas em uma Escola Pública de ... - Fazendo Gênero

Com espanto e surpresa

Com espanto e surpresa ouço as expressões utilizadas por essas meninas: “Homem é quem nem lata! Uma chuta a outra cata!”, ou ainda: “Viva a vida loucamente: fique com um guri diariamente”. Tais alunas envolvem-se em conflitos tão violentos como os que, outrora, observávamos somente entre meninos. Fatos e situações semelhantes a esses subsidiam minha afirmação: as meninas estão diferentes. Contudo, acredito não ser possível classificá-las como violentas ou como menos tranqüilas do que as meninas de antigamente. Não encontro formas para definir as atitudes de meninas capazes de utilizar as mais chulas palavras a fim de defender seus espaços, seus supostos direitos, mas que também escolhem os mais lindos versos para escreverem mensagens para seus amigos, para seus amores ou, ainda, para as suas professoras. Mãos capazes de ferir fisicamente uma colega, trançar o cabelo de outra, enxugar lágrimas de uma terceira e ainda trocar a música ouvida pelo celular. Todos esses acontecimentos em um único período de aula. Seria possível, frente a essa narrativa, classificá-las? Ela dá de soco, dá rasteira: meninas narrando conflitos A partir de observações e conversas com as alunas, percebi que um dos aspectos que mais destoava da concepção moderna de infância feminina eram os conflitos violentos nos quais elas se envolviam. Elas afirmavam que os motivos desencadeadores de uma briga poderiam ser diversos: um olhar mais demorado, um comentário maldoso, uma fofoca. No entanto, ofensas à família, principalmente à figura da mãe, pareciam constituir o estopim para desencadeamento de violência física. Segundo as meninas, aquelas que brigavam e, principalmente, aquelas que saiam menos machucadas dos conflitos, assumiriam um status superior frente às outras meninas e aos meninos também, tanto que as alunas afirmaram que os colegas admiravam uma menina com esse potencial. De acordo com as mesmas, o uso de utensílios como o bico de pato 5 , o qual poderia provocar cortes profundos durante uma briga, assustava, porém não intimidava as alunas: J: Eu morro de medo de guria que tem unha grande ou que vem [brigar] com “bico de pato”. Mas eu vou! T: Quem vem com “bico de pato” é covarde! J: Ela [a oponente] pega a ponta e começa a nos fincar. Daí é muita covardia. R: Mas eu quebro a cara dela! J: Eu parto de pedra e pau pra cima. T: As amigas me ensinam que às vezes [...] Primeira coisa que tem que fazer quando uma guria vier brigar contigo é [...] pega pelos cabelos e dá (com o rosto da oponente) aqui nos joelhos. Elas me ensinam: “Quando uma guria vem e te pega, já pega e dá aqui nos joelhos, dá de soco!” P: E uma guria que briga muito... Como é que ela é vista? T: Ela deixa a cara da pessoa sangrando. 4

R: Soco e chute na cara. J: Ela dá de soco, dá rasteira, senta em cima... P: O que os outros vão achar desta guria? J: Ótimo! T: Ótimo, porque todo mundo fica folgando se a pessoa apanha. As narrativas das meninas, o orgulho em demonstrar as marcas de conflito em seus braços e pernas e a preocupação em afirmar “Eu te quebro na esquina”, e fazê-lo realmente, são fatores que me permitiram compreender que tais conflitos não ocorriam ao acaso. Esses comportamentos pareciam estar articulados a fim de defender territórios, constituir identidades, estabelecer valores. Acredito que a forma de lidar com os conflitos, entre as alunas analisadas, poderia estar relacionada à necessidade de defesa de um sentimento de valoração e de reconhecimento na comunidade em que vivem. Penso que o cotidiano social no qual as alunas estão inseridas possivelmente interfira na organização de suas condutas. Muitas delas já presenciaram cenas violentas, dentro de suas casas ou nas adjacências: amigos e irmãos mortos ou feridos em assaltos, mães espancadas pelos companheiros, abordagens policiais “pouco sutis”. Sentimentos como calma e tolerância são menosprezados em uma realidade hostil. Como afirma Xavier (2002, p. 41): Para seguir pensando Em termos de enfrentamento e relações entre sujeitos da mesma classe ou de classes sociais diferenciadas, percebe-se um processo de incivilidade, de incapacidade de negociar e de exercer compaixão, empatia, tolerância. Isto é, de identificar-se e colocar-se no lugar do outro, desprezando o princípio da alteridade. É possível entender que posturas de meninas distintas daquelas imaginadas como típicas de um ideário moderno de infância feminina acabem relacionadas como inapropriadas. Entretanto, de acordo com pressupostos teóricos que utilizo pode-se entender esses comportamentos como variados “modos de ser” menina na atualidade. Desta forma, ao pensar em maneiras diversificadas de ser e agir na infância feminina é possível compreender que meninas não apresentem uma identidade única. Tal entendimento vem ao encontro das palavras de Louro (1997, p. 24): “Numa aproximação às formulações mais críticas dos Estudos Feministas e dos Estudos Culturais, compreendemos os sujeitos como tendo identidades plurais, múltiplas; identidades que se transformam, que não são fixas ou permanente.” Ao pensar em maneiras diversificadas de ser e agir na infância feminina, entendo que as alunas pesquisadas não apresentam uma identidade única, o que me leva a afirmar que suas identidades apresentam-se como flexíveis e abertas às dinâmicas de nossos tempos (ARFUCH, 2002). Essas idéias vêm ao encontro das palavras de Jesus Barbero 67 (2002): “Estamos frente a 5

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