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Ol.via Candeia Lima Rocha - Fazendo Gênero

Ol.via Candeia Lima Rocha - Fazendo Gênero

passa a permitir que

passa a permitir que mulheres instruídas, pertencentes a um estrato social privilegiado e a uma elite cultural, pudessem defender o acesso feminino à instrução, como ilustra Alaíde Burlamaqui: A mulher, como todos sabem, deve ser instruída, não só porque a instrução lhe dá mais realce como também porque a habilita para todos os misteres da vida, para o bom desempenho dos deveres que lhe são inerentes. Muitos pensam que a mulher deve esmerar-se mais na educação doméstica, eu porém não penso assim, acho que ela não deve conquistar títulos que não estejam ao seu alcance mais deve estudar e trabalhar muito com o fim de ter certos conhecimentos seguindo assim o exemplo de Maria Amália Vaz de Carvalho, Julia Lopes de Almeida, Inês de Sabino e tantas outras têm sabido se impor pela sua vasta ilustração. A instrução é a base da vida, a mulher instruída tem entrada franca em toda parte, e finalmente a instrução e um tesouro que todos devem buscar 2 . Alaíde Burlamaqui observa que a instrução ampliava as possibilidades femininas, abrindo portas, pois “a mulher instruída tem entrada em toda parte”. Ela se opunha à restrição feminina ao espaço privado e às atividades domésticas, mencionando como exemplos a serem seguidos escritoras atuantes e reconhecidas intelectualmente, como, Maria Amália Vaz de Carvalho, Inês Sabino e Júlia Lopes de Almeida. O jornal Borboleta assegurava às mulheres teresinenses espaços para a publicação de seus textos, opiniões e reivindicações. E dessa forma, atuava no deslocamento das fronteiras que delimitavam os territórios prescritos para a vida feminina, ampliando-os lentamente pela constituição de alternativas na construção de lugares próprios, que lhes permitissem protagonizar no cenário literário e questionar os papéis sociais que as mulheres vinham ocupando, de forma a traçar novas cartografias. As décadas de 1910 e 1920 marcam a emergência da segunda onda feminista que tendo como cerne o estabelecimento de igualdade de direitos entre homens e mulheres, trazia questões como, o acesso feminino à instrução, a crítica ao casamento enquanto instituição de opressão das mulheres, a ampliação das possibilidades femininas no mercado de trabalho, e dava maior ênfase à reivindicação do sufrágio feminino 3 . A repercussão das questões levantadas pelas feministas nesse período pode ser observada por meio de crônicas no jornal O Piauí e Correio do Piauí. A criação de uma associação feminina no Piauí com a finalidade de defender interesses específicos das mulheres era cogitada. Nessa perspectiva o feminismo passa a ser debatido por vozes femininas que se ocultavam sob máscaras, tais como, “Acácia”, “Bonina”, “Camélia”, “Dolores”, “Eglantine”, “Magnólia”, “Martha”, “Sonia” e “Violeta”. Os posicionamentos expressos nas crônicas eram multifacetados expressando desejos diferenciados, que faziam aflorar nas páginas dos jornais discordâncias que compunham o leque da pluralidade dos anseios femininos. Nesse debate, saltam opiniões como a de “Magnólia” que era contra a restrição das mulheres às atividades domésticas e ao casamento como único

destino feminino, mas para ela o ponto principal do feminismo não devia ser o sufrágio, mas a instrução feminina: [...] demais, deixe que lhe diga a verdade. Acompanho com interesse o que as sulistas vêm fazendo em prol da nossa emancipação. Sou, porém contraria ao ponto essencial por elas defendido: o sufrágio feminino. Condeno, entretanto, a tendência que temos de nos restringir (com raras exceções) aos labores domésticos. Cultivemos as letras, as ciências, e as artes, e procuremos tornar independente nosso futuro, extinguindo, desta forma, o velho preconceito de que a mulher não pode prescindir do casamento 4 . Esse discurso evidencia que os anseios femininos não se restringiam ao casamento e aos papéis de mãe e esposa, as mulheres ansiavam por uma igualdade entre os gêneros e por reconhecimento intelectual. Elas percebem a instrução como um caminho a ser trilhado para atingir seus objetivos, libertando-se da relação de dependência financeira em relação ao amparo masculino, do pai, do irmão ou do marido, da mesma forma que ganhariam autonomia social para realizar escolhas e empreendê-las conforme seu interesse e vontade. Nas décadas seguintes a ampliação do acesso feminino à instrução e sua atuação nos diversos setores do espaço público resultou no surgimento de novas questões e reivindicações que marcam a terceira onda feminista. Segundo Ana Alice Alcântara Costa essa fase do feminismo, surge como conseqüência da resistência das mulheres à ditadura militar, por conseguinte, intrinsecamente ligado aos movimentos de oposição que lhe deram uma especificidade determinante, sob o impacto do movimento feminista internacional e como conseqüência do processo de modernização que implicou em uma maior incorporação das mulheres no mercado de trabalho e a ampliação do sistema educacional 5 . Essas conquistas, reivindicadas na primeira metade do século XX, contribuíram para o surgimento de novas questões que marcam a terceira onda feminista, entre elas, a politização do ambiente privado, tangenciando tabus como, a sexualidade, a violência contra a mulher e o questionamento das desigualdades entre os sexos, aspectos que podem ser sintetizados como uma crítica à cultura e à moral patriarcal. Nas décadas de 1960 e 1970 a castidade e a virgindade são desmistificadas pela reivindicação de liberação do corpo feminino para a vivência do prazer de forma desvinculada da reprodução. Os contraceptivos tornaram possível essa revolução sexual que lançou novas bases para a relação das mulheres com o próprio corpo, com a sexualidade e com a maternidade que deixa de ser para as mulheres uma fatalidade da vida sexual para torna-se uma possibilidade 6 . Vivenciava-se, assim, uma emergente liberação de um potencial de desejo reprimido pela cultura de contenção e controle da sexualidade feminina, rompendo-se com tabus, contra os quais as autoras anarco-sindicalistas já investiam na década de 1920.

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