Views
5 years ago

Gênero, políticas públicas e sustentabilidade ... - Fazendo Gênero

Gênero, políticas públicas e sustentabilidade ... - Fazendo Gênero

As mulheres apontaram a

As mulheres apontaram a falta de tecnologia e de políticas de apoio ao pequeno produtor como os principais responsáveis pelas dificuldades na produção enfrentadas pelos moradores da várzea (ALENCAR 2004 E ALENCAR 2005). As dificuldades de processamento dos produtos são muitas, principalmente pelo tempo excessivo que é gasto em função da tecnologia utilizada. Além disso, não basta ter uma boa produção se não conseguem fazer uma boa venda, ter um ganho. Ou seja, a produtividade da várzea não é uma garantia de uma renda alta, pelas dificuldades de comercialização. Portanto, ter o produto não é uma garantia de ter onde e para quem vender. Como conseqüência, os moradores da várzea se tornam dependentes dos comerciantes que compram sua produção diretamente nas localidades ou nas feiras das áreas urbanas, estipulando um preço sempre abaixo do valor real do produto. O produtor nunca tem autonomia para estabelecer o preço justo pelo seu produto. “A vida aqui, pra mim assim, ela é boa. A gente não tem pra onde ir, é o jeito a gente ficar por aqui mesmo, plantando, criando, vivendo, vendo as coisas da gente, levando do jeito que dá. A gente planta, a gente leva pra vender essas coisas, a gente compra o que mais a gente precisa né, com o dinheiro que a gente consegue levando pra vender. E aí vai passando”. (Lucimar, Teresina IV) A avaliação que as mulheres fazem da várzea, das condições de trabalho é que se trata de um “lugar” bom pra morar e produzir, pois “tudo que se planta nasce, e cresce rápido”. Para elas é possível trabalhar e sustentar a família com dignidade, mas para isso é necessário o apoio do poder público, principalmente na área da educação escolar, pois a expectativa é garantir ao filho outras opções de vida, dando-lhes meios de obter um trabalho que tenha uma remuneração fixa e que possa ter uma vida com mais conforto, com “menos sofrimento”, como avaliam que é a vida dos pais. “Eu tenho filho pequeno, eu vou sofrer, mas eu quero botar eles no caminho pra ficar de lembrança mesmo, é o estudo deles. Nós somos tudo pobre mesmo, vivemos sofrendo aqui, porque não tem escola. Eu quero fazer de tudo, de todo modo do possível, mesmo com esse sofrimento que eles estão atravessando, pra não faltar nenhum dia de aula, pra que no futuro eles não venham sofrer como eu to sofrendo né, todo o dia num cabo do terçado trabalhando, como meus pais tão sofrendo. Eu quero que eles mudem de vida”. (Antonia, Novo Progresso). Ao mesmo tempo em projetam esta expectativa de uma mudança de vida para as gerações futuras, também reconhecem que as condições de vida do presente podem mudar, que é possível ter outras condições de vida e de trabalho na várzea que não seja definida através de termos como sofrimento, dificuldade, pobreza. O investimento no futuro dos filhos através da educação, para que tenham outro modo de vida, não é visto como uma ameaça a reprodução de uma tradição camponesa na qual foram criados e de certa forma estão transmitindo aos filhos, mas uma garantia de uma velhice tranqüila, sem sofrimento. Esta visão expressa um modelo de reprodução social em 4

que os filhos devem recompensar os pais na velhice, os cuidados que dispensaram aos filhos na sua criação. “Eu queria que meus filhos aprendessem pra me ajudar, pegar um trabalho melhor pra eu não estar sofrendo quando ficar mais idosa. Eu queria que eles estudassem pra eles aprender e pegar um trabalho melhor, pra poder me ajudar, por isso que eu queria que eles aprendesse né, mas não sei se vai dar”. (Rosa, Novo Progresso). “Eu tenho o sonho de quando eles terminarem aqui no interior, a gente poder fazer uma casa em Tabatinga e levar meus filhos pra lá pra continuar os estudos deles, pra mais na frente eles conseguir um trabalho melhor, cada qual trabalhando, a gente melhora mais”. (Lucimar, Teresina IV). As falas demonstram que as mulheres reconhecem a falência do poder público em possibilitar uma vida digna aos moradores da várzea. “Se o prefeito ajudasse, a gente podia mudar, mas só a gente mesmo, como que a gente vai mudar? Sem a ajuda do prefeito como é que vai mudar? Se pelo menos uma vez por ano ele viesse olhar a gente ao menos. Eu pelo menos não conheço o prefeito nem em papel, só sei que eu voto, mas não conheço nada”. (Antonia, Novo Progresso) As melhorias que são reivindicadas se referem a mudanças nas condições de trabalho como forma de garantir o acesso a certos bens de consumo que estão associados ao lazer das pessoas, como a aquisição de uma televisão, de uma antena parabólica, de um motor de luz. Aparentemente se trata de meras aspirações de consumo. Entretanto, elas dizem muito sobre o direito de escolher, poder consumir certos bens que estão associados a uma qualidade de vida digna. O direito de exercer a cidadania através do poder de compra conquistado com o trabalho e não através de políticas assistencialistas ou de doações realizadas por candidatos a cargos legislativos ou executivos em anos de pleitos eleitorais. São aspirações possíveis que podem ser viabilizadas através de mudanças nas políticas públicas. Conclusão No Alto Solimões a carência de políticas públicas que garantam a oferta de serviços sociais básicos na área de saúde, da educação e da infra-estrutura comunitária; a falta políticas públicas voltadas para o setor produtivo como linhas de crédito e políticas de apoio à pequena produção contribuem para a insustentabilidade e vulnerabilidade do modo de vida dos moradores da várzea, que encontram na migração para a área urbana uma maneira de ter acesso a esses serviços. Os programas sociais de transferência de renda que tem como objetivo a redução da pobreza pouco alteram o quadro de desigualdade uma vez que são poucas as famílias que tem acesso a esses programas, e pelo pequeno valor dos benefícios. Ao invés de investir nestes programas o governo deveria melhorar as políticas de apoio ao setor produtivo e com isso daria mais condições as famílias de melhorar sua renda e, consequentemente, melhorar sua qualidade de 5

a revisão necessária - Racismo, Igualdade e Políticas Públicas - Inesc
Políticas Públicas de Apoio as Charuteiras do Recôncavo da Bahia
Políticas públicas y movimientos de mujeres en ... - Fazendo Gênero
1 Políticas públicas y movimientos de mujeres en ... - Fazendo Gênero
políticas públicas de enfrentamento a violência - Fazendo Gênero 10
Gênero, violência e segurança pública ST. 39 ... - Fazendo Gênero
Sujeitos do feminismo: políticas e teorias - ST 06 - Fazendo Gênero
Mulheres Negras - Participação Política - Identida - Fazendo Gênero
A Reforma Política sobre as perspectivas das ... - Fazendo Gênero
uma análise comparativa do percentual de ... - Fazendo Gênero
Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero
Posturas Femininas em uma Escola Pública de ... - Fazendo Gênero
Relações de gênero e suas representações na ... - Fazendo Gênero
GÊNERO, MASCULINIDADE E DOCÊNCIA: - Fazendo Gênero
Políticas e Teorias ST. 06 Núbia Regina Moreira ... - Fazendo Gênero
Sujeitos do feminismo: políticas e teorias. ST 6 ... - Fazendo Gênero
Gênero nas interseções: classe, etnia e gerações ... - Fazendo Gênero
Futebol, gênero e identidade feminina: Um ... - Fazendo Gênero
Relações de gênero, feminismo e subjetividades ... - Fazendo Gênero
violência de gênero eo novo sujeito do ... - Fazendo Gênero
O confinamento doméstico de mulheres em ... - Fazendo Gênero