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Ruídos na representação da mulher ... - Fazendo Gênero

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definições

definições da realidade, imagem, representação. Uma paisagem que se deseja moderna começa a traçar os contornos de um mundo-imagem sobre duas dimensões, como um cartaz. E, como este, baseado num jogo entre linha, contorno e plano, cujo cenário privilegiado é a superfície. E superfície de reprodução e multiplicação potencialmente imprevisíveis, ilimitadas (...) Porque o mesmo desejo de modernização, que impulsiona as reformas urbanas e sanitárias, dirige-se para o aparelhamento técnico da sociedade brasileira. E para essa paisagem-segunda, povoada por cartazes, fotos, fitas e charges. 3 A caricatura do início do século, de um modo geral, voltou-se para a cidade, para os que nela viviam e transitavam, para as novas experiências urbanas, ajudando a re-elaborar os significados dessa modernização. O humor se consagra na rapidez dos traços, reciclando e contaminando-se dos discursos da ciência, da arte, da publicidade, da moda, do design gráfico, do teatro, da imprensa. As charges e caricaturas de mulheres se multiplicam, assim como as seções femininas, denotando a maior participação feminina nas mais diversas esferas sociais, nos lares, nas ruas, nos bailes, no trabalho, etc. Rachel Soihet, num artigo sobre as representações do “sexo frágil” lembra que o recurso da ironia e da comédia foi um poderoso instrumento para desmoralizar a luta pela emancipação feminina e reforçar o mito da inferioridade e passividade da mulher. Ela ressalta também que a charge teve um importante papel nesse processo. “O discurso conservador dos meios de comunicação fez muitas mulheres rejeitarem o feminismo, tido como incompatível com o ideal de beleza, meiguice e resignação”. 4 Em um outro artigo essa mesma autora afirma que as charges e a sátira sobre as mulheres seriam de uma violência perversa. À primeira vista esta maneira burlesca de apresentar as mulheres empenhadas na luta por direitos não guardaria maiores conseqüências, visava apenas divertir o público leitor. Na verdade, porém, percebe-se um aspecto perverso nessas insinuações, o que me faz enquadrar tais colocações numa das modalidades de violência simbólica contra as mulheres. Isto porque, a reiteração da comicidade na abordagem de suas reivindicações tende a difundir uma imagem de falta de seriedade das preocupações femininas, ao contrário das masculinas. 5 Já sob o foco de cultura e urbanidade, Maria Angélica Zubaran reitera a hipótese de que a caricatura servia para ridicularizar o comportamento “desviante” daquela que se afastava da moralidade vigente. As caricaturas contribuíram assim para reforçar a exigência da preocupação feminina com a estética e a moda, e também para identificar a mulher com os produtos do imperialismo cultural francês do fin de siécle. A mulher elegante era aquela que se vestia à francesa (...) Ao mesmo tempo, o olhar vigilante masculino ridicularizava o excesso de vaidade feminina, representando-a como exagerada, passageira, inconstante, banal, fortalecendo assim a imagem ideal da mulher pura e contida através da sátira de seu contratipo, a mulher mundana e fútil(...) Portanto, se por um lado o estilo humorístico da imprensa caricata oportunizou a aparição da mulher na cena pública, por outro lado, revelou uma percepção

hierárquica e moralizadora do feminino, contribuindo para reforçar a normalização do outro. 6 Embora essas análises sejam de grande importância para se pensar as relações de poder contidas e reproduzidas pelas imagens, é preciso considerar o contexto de sua produção e veiculação e os diálogos que elas propõem com outras instâncias culturais, as interações com outros discursos sociais. Desprezar o caráter de ambivalência e heteroglossia 7 das charges é deixar de lado elementos fundamentais que revelam a complexidade e a dinâmica dos processos de leitura. As caricaturas e charges são signos que refletem e refratam a sociedade. Com os signos não somente descrevemos o mundo, mas construímos – na dinâmica da história e por decorrência do caráter sempre múltiplo e heterogêneo das experiências concretas dos grupos humanos – diversas interpretações (refrações) deste mundo. 8 Se, de um lado, funcionavam como estratégias discursivas nos processos de dominação e exclusão da mulher em diversos setores, por outro, a riqueza do próprio mecanismo da caricatura e da linguagem paródica, a ambigüidade e a ironia das imagens revelam também os questionamentos, as mudanças, as conquistas. É importante lembrar ainda que as revistas de humor, recheadas de charges e textos satíricos, faziam parte de uma indústria cultural nascente, onde a diversão e o entretenimento geravam produtos que ganhavam cada vez mais importância na vida das pessoas. Para satisfazer essa sede de espetáculos, novas e velhas receitas são usadas: cinema, rádio, gramofone, exposições, dança, teatro, jogos esportivos, circo, competições, banhos de mar, jardins zoológicos” 9 , jornais e periódicos de humor. Ana Luiza Martins esclarece que muitos novos segmentos de leitores surgiram com a República, novos públicos alvo, como o infantil e o do leitor de esportes, por exemplo. Entretanto, a mulher leitora, já tinha grande presença no contexto do Império. 10 Escolarizada, atenta às modas e figurinos de seu tempo, a leitora encontrou nas revistas outra alternativa de consumo do impresso (...) Mas, da leitura folhetinesca, em pedaços, quase aleatória, conduzida pela variedade de seções e ilustrações, que ao fim e ao cabo, definiu dois códigos de consumo do impresso: aquele do texto e o outro, da imagem. Este, mais atraente, de comunicação imediata, traduzido – conforme já lembrado – pelas inovações técnicas da reprodução fotoquímica ou pelo traço inteligente, direto, sagaz e humorístico do caricaturista (...) outro perfil feminino se delineava, oportuno para ser explorado: aquele da mulher consumidora, informada dos produtos em voga, estimulada para sua aquisição, sensível às ofertas do mercado (...) Assim conformava-se a mulher ao mercado do impresso, não apenas como leitora, mas, sobretudo, como consumidora de produtos de toda ordem, anunciados pela imprensa. 11 Numa mesma revista é possível perceber várias imagens, várias representações da mulher. O texto das revistas paulistas voltadas para o público feminino, era, na maioria das vezes, construído para a mãe-esposa, reiterando costumes e tradições, com influência católica, de cunho nacionalista.

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