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Ruídos na representação da mulher ... - Fazendo Gênero

Ruídos na representação da mulher ... - Fazendo Gênero

Porém, as imagens, as

Porém, as imagens, as ilustrações, a publicidade com vistas ao consumo, construíam o modelo da mulher esportiva, liberada, moderna, “que fumava e dirigia automóveis, engendrando o estereótipo que reinou naquela transição: a melindrosa.” 12 Nas charges da revista curitibana A Bomba, por exemplo, os novos comportamentos femininos, as novas posturas frente ao casamento ou à maternidade são ironizadas, mostrando simultaneamente o medo e a insegurança masculina quanto aos novos hábitos e tendências, destacando a atuação da mulher, sua participação nas decisões, dando a elas a responsabilidade pelas mudanças. Elas seguem e inventam a moda. A própria figura da melindrosa carrega muitas contradições em seus traços e caracterização. Símbolo da mulher sofisticada e adiante de sua época, ganhou vida no lápis de J. Carlos, remetendo ao que seria a típica carioca da alta sociedade. Frívola e superficial, preocupada com a última moda, as aparências e o flerte, elegante e sensual, ingênua e esperta, sedutora e perigosa. Traz a imagem da mulher independente e liberada, civilizada, grã-fina, audaciosa e perspicaz, sem preocupações com o casamento, a maternidade ou o futuro, no domínio do espaço público, aproximando-se da prostituta na aparência e nos gestos, questionando a moral burguesa. 13 A melindrosa se tornou um ícone dos anos 20, com cabelos curtíssimos à la garçonne e o chapéu cloche (sino) bem enterrado, transitando entre as curvas sinuosas do art nouveau e o geometrismo do art deco, ao ritmo do jazz e do charleston. Mas, muito antes disso, as representações das mulheres destacavam o imenso fascínio pela moda e pelos novos adereços trazidos da Europa, especialmente os franceses. Há dezenas e dezenas de charges onde elas aparecem com seus chapéus exóticos, gigantes, com plumas de avestruz, laços e flores, chamando a atenção nos cinematógrafos e nos teatros, além dos rabos de peixe, luvas, saias balão, culotte jupe, sans-dessous... 14 . K. Lixto (Calixto Cordeiro) flagrou a vida carioca nas ruas e nos salões, com vários exemplos sobre a moda feminina. Herman Lima, ao descrever a charge A evolução da moda – ontem, hoje e amanhã, já a re-interpreta: com a sinhazinha de longas mangas encobrindo os punhos, cabelos em cachos pelos ombros, chapéu como tampa de cerveja no cocoruto, a crinolina espalhada em larga roda; a dama da atualidade de então, a cabeça comida pelo chapéu formidoloso, duma pluma colossal que vara os céus, bolsa pendente da alça de metro e tanto, o vestido colado ao corpo; e a dama do futuro, apenas de soutién de aço, capacete de guerreiro medieval, bolsa a tiracolo e fuzil em punho. A página é amavelmente irônica e sugestiva, como síntese magnífica de todos os desvarios de Eva no particular. 15 São exemplares também os desenhos de Julião Machado, Raul Pederneiras, com cenas das cariocas, Belmonte e as paulistas, Herônio e as curitibanas.

Este tipo de humor gráfico, ao mesmo tempo em que se refere e se dirige às mulheres das classes dominantes, afasta-se, ou melhor, ironiza, re-significa o modelo padrão ou o comportamento esperado. Afinal, a mulher bem conceituada pertencia ao mundo do privado, vestia-se com discrição e luxo, ocupava-se das obrigações caseiras e raramente saía à rua desacompanhada. 16 Muitas revistas reafirmavam, ainda que de maneiras diversas, o estereótipo da mulher branca, fixando as diferenças de classe. Embora se instaure a pluralidade do olhar sobre o outro e a presença do outro, “o reconhecimento da diversidade cede lugar à afirmação da desigualdade”, criando “classificações preconceituosas e arbitrárias”. Dentro dessa perspectiva as brancas pobres, as pardas ou mulatas, as mestiças, as negras ou índias foram relegadas à margem da tradicional sociedade luso-brasileira. Na função de quitandeiras, padeiras, leiteiras, lavadeiras, criadas ou carroceiras, as mulheres pobres divergiam do mito da mulher branca. 17 As mulheres trabalhadoras, de classes menos abastadas também povoam as páginas das revistas de humor, ganhando um espaço talvez bem maior do que lhes era reservado nas publicações ditas sérias e/ou oficiais. No caso das revistas curitibanas, a presença das “polacas” 18 é muito freqüente, tanto como empregadas, no espaço doméstico e privado, como transeuntes no espaço público das ruas da cidade. Essa referência se constitui historicamente e está ligada à construção da identidade curitibana, pois as filhas moças dos colonos alugavam-se como creada de servir nas casas das famílias citadinas; as mulheres casadas adquiriam alguns trocados como costureiras ou lavadeiras de roupas. Entretanto, a maioria das mulheres maduras ou de meia idade costumava vender hortaliças, manteiga, requeijão, lenha ou pinhão nos arrabaldes e no centro da cidade. Para o transporte das mercadorias utilizavam carroças puxadas por dois ou quatro cavalos. Essa prática foi intensamente realizada pelas mulheres imigrantes, desde o final do século XIX até meados do século XX. Tão ativa foi essa sua forma de participação que se tornou símbolo marcante de um período da história da cidade. 19 Em Curitiba, Mário de Barros (Herônio), Aureliano Silveira (Sylvio), bem como muitos outros caricaturistas mostraram cenas das polonesas / polacas, muitas chamadas de Anastácia, como empregadas assediadas pelos patrões e odiadas pelas patroas, como mulheres lindas e fortes, festeiras, às vezes decididas, às vezes submissas, às vezes injustiçadas. Revistas como O Olho da Rua (1907-1911), A Rolha (1908) e A Carga (1907) deram visibilidade a essas pessoas marginalizadas e ao mesmo tempo integrantes da vida dos grandes centros urbanos, denunciando sua importância e poderosa presença na composição das cenas da cidade. Enfim, folheando estas páginas de humor, é possível perceber a diversidade das representações femininas, reunidas não em um quadro único e uniforme, mas apontando especificidades regionais, de classe, ampliando os pontos de vista. A discussão da sociedade e das relações entre homens e mulheres é proposta pelas caricaturas e pelas revistas de humor nas fronteiras entre o espaço público e o privado, nos cruzamentos entre as ruas e a casa, o lar. Deixam

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