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Ruídos na representação da mulher ... - Fazendo Gênero

Ruídos na representação da mulher ... - Fazendo Gênero

Anais

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 O livro traz 28 contos, em sua maioria textos bem curtos. Numa escrita muito enxuta, Ivana recorre a temáticas ligadas às questões femininas, aos temas feministas e tudo que está vinculado a isso. Quinze desses contos têm, no título, nomes de mulher. E, em primeira análise, nos remetem a uma diversidade de caras, cores, costumes – unidas numa luta comum: mostrar a sua diversidade e o seu descompasso com o mundo organizado. E reunir essas caras e discursos num livro, utilizando-se de linguagem e estrutura dominantes, pode mesmo ser entendido como subjugo. Mas vou retomar essa discussão adiante, já que considero importante a abordagem que pretende pensar não a inserção da mulher num universo masculino, mas a eclosão de uma (ou várias) lógica(s) feminina(s), se é que isso não soa muito adverso. O conto que abre Falo de mulher chama-se “Receita para comer o homem amado”. Como é bem curto, o transcrevo abaixo: Pegue o homem que te maltrata, estenda-o sobre a tábua de bife e comece a sová-lo pelas costas. Depois pique bem picadinho e jogue na gordura quente. Acrescente os olhos e a cebola. Mexa devagar até tudo ficar dourado. A língua, cortada em minúsculos pedaços, deve ser colocada em seguida, assim como as mãos, os pés e o cheiroverde. Quando o refogado exalar o odor dos que ardem no inferno, jogue água fervente até amolecer o coração. Empane o pinto no ovo e na farinha de rosca e sirva como aperitivo. Devore tudo com talher de prata, limpe a boca com guardanapo de linho e arrote com vontade, pra que isso não se repita nunca mais. (p. 13) Como abre o livro, o conto serve para apresentar os demais, para dar uma idéia do que virá em seguida. A estrutura é de uma receita culinária, o que nos remete imediatamente ao universo doméstico tão vinculado à figura feminina em nossa sociedade. Não é um recurso novo na literatura, e talvez por isso soe um pouco piegas, mas serve bem ao que se experimenta hoje em relação às formas. Há outros pontos a se ressaltar: o título, “Receita para comer o homem amado”, também trabalha com uma ambigüidade simples. Os recursos estão todos interligados: a aproximação entre os instintos alimentar e sexual é óbvia. Na linguagem coloquial, sabemos que “comer” é um verbo que indica ação sexual de um homem sobre uma mulher. Aqui, entretanto, quem vai comer é a narradora. A primeira frase, “Pegue o homem que te maltrata”, deixa transparecer um sentimento de vingança. Esse maltratar abrange diversas conotações: maus tratos físicos e sexuais, morais, psicológicos, afetivos etc. E até mesmo um maltratar passivo: não corresponder a determinada expectativa pode, no campo das relações afetivas, ser interpretado como mau trato. As frases seguintes corroboram essa incitação à vingança: é uma receita que, utilizando recursos humorísticos, quer ensinar a dominar o homem amado de alguma forma. Se ele maltrata, deve ser retalhado. E há alguns objetivos práticos nesse retalhe: maltratar (repetir a violência sofrida), mantê-lo sob domínio e impedir que outra mulher seja maltratada (e amada, idem). Adiante, são notórias as referências que a autora faz aos 2

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 estereótipos: “jogue água fervente até amolecer o coração” é, em si, uma afirmação de que os homens, com seu coração duro, são insensíveis, cruéis etc. Seguimos: o humor é chave para entendermos como se desenvolvem os textos de Ivana. Algumas temáticas são bem sofridas, abordam ou enfatizam uma condição já bem debatida da mulher subjugada ao homem e ao universo masculino. O conjunto de aspectos sociais que relega à mulher uma condição inferior, coisa que os movimentos feministas trabalham para superar, é a ambientação escolhida por Ivana e o trabalho com o humor pode ser entendido como a sua maior transgressão. Com base em Conquergood, Oliveira lembra que o caráter subversivo da performance se revela por meio de repetições mal feitas do ato performático. Isso sugere efeito de ironia, paródia, zombaria da estrutura dominante. No entanto, não crê que certa literatura produzida por mulheres hoje se utilize desse recurso. O escândalo produzido pela tomada de decisão feminina não produz o riso libertador, uma vez que elas incorporam – apesar de escaparem da estrita coerência heterossexual dominante – os desejos do heteropatriarcado, concentrando-se na dicotomia ativo/passivo. iii Sim, os conteúdos abordados em Falo de mulher nos remetem às violências que insistem em permanecer no âmbito das sociedades ocidentais. O tratamento dado pela autora, diferentemente do que sugere Oliveira, quebra esse ranço. Há, como vimos, uma tentativa de inversão dessa dicotomia. E a proposta de Ivana é fazer dessas situações pesarosas algo risível. Daí a idéia de descompromisso da autora com os dois extremos. O início do quinto conto nos desperta outra leitura. “Foda-se, meu bem” também aborda a crueldade que resulta de uma vingança qualquer. Não é do humor que Ivana se utiliza nesse conto para dar o seu recado. O primeiro parágrafo nos diz: Esperar pela morte de Paulo, vê-lo nesta cama sem chance alguma está sendo terrível pra mim. Quando cochilo tenho pesadelos horríveis e acordo com o coração disparado. Paulo está em coma há dias, não dá mais sinal de vida. Quantas vezes desejei que ele morresse de morte sofrida, destas bem doloridas, mas eis que quando chega a hora, quem mais sofre sou eu. Qual de nós merecia castigo tão grande? (p. 23) A narradora nos conta, em tom que mistura lamento e objetividade, a história de uma mulher sofrida que, grávida, larga o marido e se dá bem na vida. Enquanto ela enriquece, ele vira mendigo. E os dois se reencontram em um sinal de trânsito. A primeira conclusão parte de uma estereotipificação: o homem não se desenvolve socialmente sem uma mulher ao seu lado. Um clichê a que nos remetemos quase que automaticamente. O ponto central, apesar desse trabalho talvez pouco intencional com os estereótipos, é o retrato de uma mulher solidária, que superou os maus tratos e oferece a outra face 3

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