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Ruídos na representação da mulher ... - Fazendo Gênero

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Anais

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 (uma análise mais criteriosa talvez revele a recorrência de algum constrangimento grave, mas aqui nos deteremos em uma leitura mais superficial e uma análise de seus efeitos conceituais). Um dos últimos contos de Falo de mulher tem título sugestivo:“Mulher é tudo igual”. Com linguagem muito direta, a narradora começa: “Eu e a Marieta Severo não temos tempo para a solidão. Ela foi casada com Chico Buarque, eu com João Teodoro. Ambos deram muito trabalho” (p. 81). Por um instante, chegamos a cogitar que o conto será todo comparativo, que serão enumeradas características e atitudes de Chico Buarque e João Teodoro, o que não soaria estranho, se considerarmos o caráter humorístico dos textos de Ivana. Mas a história segue com um relato dos problemas causados por João Teodoro e culmina com a saída dela de casa uma atitude corajosa e nada corriqueira na “vida real”: “Fui ao quarto e peguei a bolsa. O liquidificador ficou ligado. Depois disso arranjei tanta coisa pra fazer, pra me divertir, que nem tive tempo pra solidão. João Teodoro estava certo, mulher é tudo igual. Um dia vira tudo Marieta” (p. 82). A comparação que a narradora propõe com uma atriz de TV pode instantaneamente nos remeter ao universo de uma dona de casa comum – e que, caso trabalhe, exerce o chamado terceiro turno em casa. Essa imagem é completada pelo liquidificador e pela violência física sofrida. Figura para a qual Ivana recorre freqüentemente. E, considerando o humor como recurso, percebemos que a intenção é provocar um riso amargurado. Há, portanto, uma mulher crítica e em movimento (em mutação), que transpassa os contos do livro. Máquina de pinball, de Clarah Averbuck, é também um texto muito enxuto. Romance de setenta e poucas páginas, faz um recorte na vida de Camila Chirivino, escritora de 22 anos que vive em São Paulo às custas dos pais. O título, como sugere a própria narradora (nas últimas páginas do livro), nos remete à instabilidade e ao movimento sem rumo certo da bolinha que marca ponto no referido jogo eletrônico, muito comum nos anos 1980. A primeira cena nos apresenta uma romântica figura: uma escritora maldita, que divide um mini apartamento com gatos (animais, felinos) e amigos, sem dinheiro e sem uma atividade fixa. Se pudermos resumir o livro em uma frase, arriscaria: Camila é uma pósadolescente na maior cidade brasileira, que sai à noite para beber, conhecer homens, beijar, transar e procura trabalho de dia e escreve. O tom é mal-humorado – contrário ao que Ivana constrói. A protagonista é uma constante fonte de explosões contra os preconceitos, contra os homens, as convenções etc. e é, ao mesmo tempo, um poço de futilidades. O prefácio, assinado pelo ator e diretor Antonio Abujamra, é muito elogioso e faz com que o leitor anteveja um texto revolucionário. A exaltação, entretanto, soa gratuita e parece querer reduzir tudo à praticidade adolescente da expressão-curinga “foda-se”. “Que mulher é essa que chega em 4

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 Londres e em meia página conclui o que centenas de PHDs escrevem em milhares de páginas para passar em mestrados que ela manda tomar no cu com uma sabedoria invejável e indiscutível” iv . O que Abujamra chama de “tipo maravilhoso de violência verbal” pode esconder uma série de reações já bem estudadas pela psicanálise, caminho que, aqui, não vamos seguir. Com base em teorias sociológicas, entretanto, poderemos evidenciar alguns de seus pontos. E a hipótese é que essa máscara libertadora de Clarah seja, na realidade, uma adaptação de um recurso bem machista. Na passagem “uma mulher que, conforme seu estado, escreve até sobre turfe, gastronomia, dieta, astrologia, horóscopo, inventa signo novo” v , Abujamra assinala uma possibilidade muito interessante: esse lidar com determinado assunto, ou mesmo com o texto, de acordo com “seu estado” (que nos remete a um quadro de emoções variáveis, instabilidade comportamental etc.) pode ser entendido como uma predisposição feminina para entender e interagir com o mundo masculino. Os assuntos e também as formas para abordá-los, no texto, variam de acordo com o estado emocional: algo que nos remete à idéia dos ciclos menstruais, das instabilidades hormonais, das ausências de objetividade etc., tão vinculadas ao imaginário vi embasado nas diferenças biológicas entre homens e mulheres. E na primeira página, a narradora utiliza o seu recurso discutível de tentar chocar o leitor por meio da linguagem, como anunciou o prefácio: “sim, sou mulherzinha. Uso maquiagem, salto agulha, piercing no umbigo e esmalte com glitter. E sou feliz assim. Mulherzinha. Mas com bolas” (p. 13). Isso nos remete ao mesmo imaginário de poder que as palavras ligadas ao órgão sexual masculino (bolas, culhões, pau) enfatizam, como ocorre no título de Falo de mulher. Em ambos os casos, há uma transferência de poder ou uma apropriação de instrumentos que sustentam o poder masculino. Adiante, ao falar de um relacionamento que não deu certo e que ocasionou a sua mudança para São Paulo, a narradora diz que traições dela foram o motivo que resultaram no rompimento do romance com o homem de sua vida. Aqui, Clarah recorre a um clichê bem masculino. No nosso imaginário muito calcado em uma natureza anti-natural, somos levados a crer que “homens traem porque é natural” e que “mulheres não têm tanta necessidade sexual”. A narradora, obviamente, tem pretensão de chocar, com seu discurso às avessas. A mulherzinha com bolas é que, por algum motivo, desenvolve essas necessidades tão vendidas como tipicamente masculinas. O segundo capítulo se inicia com uma fossa sentimental, que também poderia ser bem representada por uma personagem masculina (mais confortável para o nosso imaginário). A narradora se lamenta por não encontrar ninguém interessante e acaba por declarar “colo, preciso de colo” (p. 17). A frase só anuncia o que vem depois: lembranças do tempo em que vivia com aquele que ela declara ser o amor de sua vida. Enquanto um capítulo termina com um tom lamentoso que se transformou em alívio, 5

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