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Ruídos na representação da mulher ... - Fazendo Gênero

Ruídos na representação da mulher ... - Fazendo Gênero

Anais

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 adiante, quando a personagem conclui que é solteira e livre, o outro se inicia com um advérbio de conclusão, mas introduz outro assunto, outra situação: “Então, me apaixonei irremediável e irreversivelmente. Conheci este cara que escrevia bem pra caramba, tocava guitarra, usava saia e, dizem, pintava os olhos. Interessantíssimo” (p. 23). A seqüência confirma uma mulher volúvel, em comportamento muito parecido com o dos homens de acordo com o imaginário social, como já assinalamos. “Flertamos loucamente”, ela continua, “e estávamos quase efetivando o crime quando chegou o amigo dele. E me apaixonei pelo amigo dele, caí de quatro, fiquei completamente louca pelo cara” (p. 23). Remeter simplesmente esses típicos comportamentos a práticas masculinas pode acabar por reduzir o livro de Clarah a uma transposição imatura de características de um grupo social para outro. É importante considerar, entretanto, que a autora trabalha, nesses transplantes misturados com “futilidades femininas”, o que sinalizamos há pouco: as alterações temperamentais da personagem. A inconstância é, portanto, o diferencial da narrativa. Há outro ponto para levarmos em consideração: o fato de as situações narradas se confundirem com a biografia de Clarah. Muitas dessas situações se focam nas atividades, opções e interesses sexuais da protagonista. Foucault vii nos diz que alguns tabus da sexualidade aparecem freqüentemente nos discursos sobre sexo porque o sexo é incentivado a aparecer, a ser discutido, confessado. Para ele, o saber se estabelece com a finalidade de dominar: os códigos são criados para que as pessoas saibam o que são práticas “certas” e “erradas”. Oliveira destaca que, principalmente na literatura, o sexo aparece em tom confessional, “que produz um ar de verdade incontestável e que, desta forma, repetido infinitamente tende a fixar um certo modo de pensar e de fazer sexo” viii . Seguindo esse raciocínio, chegamos à conclusão de que essa constância no tratamento dos assuntos sexuais significa rendição dos grupos dominados ao modus operandi dominante, coisa que acontece em diversas esferas vinculadas ao fantasioso, ao virtual, à ficção, como publicidade e moda, por exemplo. No romance, em uma passagem do quarto capítulo, quando a narradora fala de John Fante ix , fica muito clara a intenção de misturar fatos reais aos ficcionais: “Quero verdade. Quero saber que Arturo Bandini [alter-ego de Fante] e Bruno Dante sentiram tudo aquilo. Quero sentir junto. Quero que seja verdade, autobiografia disfarçada de ficção” (p. 29). Com essa análise, vislumbramos que a necessidade de focar as suas experiências pessoais pode significar uma certa submissão ao fazer literário dominante, masculino. E isso ocorre não no conteúdo textual mas na forma, já que ela se propõe a trabalhar temas pouco pronunciados por mulheres, ainda hoje, como a inconstância. O falar sobre sexo extrapola um assunto digno de discussão por e sobre 6

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 homens e mulheres e se apresenta em uma forma, um estilo e que, no caso de Clarah, tende para a agressividade verbal, o que a aproxima de um texto masculino e, portanto, inovador apenas por ser articulado por uma mulher. Woolfx , no início do século XX, elenca os problemas que serão tratados de modo crítico ou literário em toda a sua obra: a consciência da exclusão feminina das possibilidades culturais e a dominação masculina na determinação do que deve ser lido, dito ou feito são alguns pontos. Apesar de classificar como problema não solucionado e altamente controvertido a questão da “verdadeira natureza da mulher”, admite que, no universo patriarcal, a mulher figura como “espelho do homem”. Não podemos, setenta anos depois, dizer que esse cenário mudou ou que se apresenta hoje como mais feminino ou ainda como mais acolhedor. As diferenças aqui apresentadas nos sugerem que ainda há muito a se debater sobre o tema e que apesar de termos vozes femininas distintas ecoando no cenário literário brasileiro “o espaço reservado às mulheres no mercado editorial do Brasil [é] circunscrito a temas que, ao invés de as libertarem de seus papéis opressivos as colam neles” xi . Talvez não caiba à literatura propriamente dita a resolução desse problema, já que ela, como espaço social, repete o que a realidade cansa de mostrar. As análises aqui esboçadas nos indicam duas abordagens possíveis, mas que, como decorrentes de uma estrutura social consolidada, talvez não resultem em nada para além do deleite estético ou do entretenimento. Temos, de um lado, a representante de um período em que se lutou por igualdade de direitos e que, com um tom bem humorado, mas também crítico, apresenta um texto que propõe um chute nos movimentos sociais, e de outro temos uma visão um tanto inocente e burguesa de uma jovem escritora que se utiliza de jargões masculinos, num tom cansado e mal-humorado, também com o intuito de gritar “foda-se” a concepções politicamente corretas, mas de modo mais intimista, egocêntrico. Não se trata mais, como sugerimos no início desta comunicação, de correr atrás de elementos que tragam uma recorrência a preconceitos e apontá-los como exemplos do que não deve ser resgatado na literatura e outras formas de discursos sociais. São duas visões que tinham tudo para convergir: as autoras são mulheres do século XXI, independentes, inseridas (ainda que em editoras pequenas) num espaço majoritariamente masculino. São duas visões que servem, enfim, para enfatizar a diversidade discursiva. E quanto mais nos aproximarmos de uma diversidade de olhares, cada vez mais obteremos discursos afastados de clichês e de estereótipos, ainda que seja tentador utilizar-se deles. Esse é o caminho que se abre para a literatura contemporânea. 7

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