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Relações de gênero através da produção musical do rap de ...

Relações de gênero através da produção musical do rap de ...

experiência com base

experiência com base legítima para a construção do conhecimento.” Embora este artigo proponha objetivos bastante modestos, procuro, através da produção musical de mulheres refletir sobre as relações de gênero que delas emergem, propondo uma ampliação do debate. Em inúmeras músicas de composição masculina é possível perceber dois tipos principais de mulheres, as “vulgares” e as que vem representadas na figura da mãe. As mulheres “vulgares” são consideradas interesseiras, traidoras, sem escrúpulos. São alvo das mais depreciativas considerações e podem ser encontradas na forma de “Loira burra” , de Gabriel o Pensador ou “Mulheres vulgares”, dos Racionais. Ao perguntar aos seus compositores e intérpretes o porque desta forma de incluir as mulheres em suas narrativas musicais, muitos dizem que “não são todas”, ou “nem todas as mulheres são assim”, e que este tipo de discurso é direcionado para as que ali estão referenciadas. Mas e as mulheres, será que compreendem da mesma forma? Posso adiantar que não só não e que além de critica-los, constroem outros raps para rebater estes conteúdos. Já as representadas pela figura da mãe, estas são descritas como cuidadosas, corajosas, sempre prontas a receber seus filho em qualquer situação. Muitas destas são as mães que criaram seus filhos sozinhas e com muito esforço 1 . Esta é uma mulher que abdica de seus desejos, vontades para cuidar ou amparar seus filhos. Estas duas formas de mulheres apresentadas nas narrativas masculinas emergem, em geral, como figuras polarizadas 2 . De um lado a mãe, que merece ser respeitada e defendida, do outro lado a mulher considerada indigna e alvo de discriminação 3 . Mas, é na produção musical das mulheres que é possível perceber um outro tipo de mulher, melhor dizendo, uma diversidade que perpassa a construção do gênero feminino. Estas podem ser a “Prostituta” de Nega Gizza (Rio de Janeiro), as “Rebeldes com causa” de Lweji (Lisboa) ou a “Mina Sofridado Elemento Suspeito (Laguna - Florianópolis). Estas são mulheres com ansiedades, desejos, medos, dúvidas, alegrias e tristezas, enfim. Mais do que uma imagem polarizada aqui estas mulheres cantam e relatam situações de mulheres mais humanizadas. Entre estas duas narrativas musicais, masculinas e femininas, podemos pensa-las através da emergência de um diálogo que em muitos momentos é perpassado pelo “conflito” 4 . Assim como o gênero se constrói na relação este “conflito” alimenta e dinamiza esta relação. E músicas são compostas como respostas a outras músicas, imagens das mulheres construídas pelos homens e que não são aceitas, são criticadas através e outras imagens, construídas sobre outras mulheres e cantadas por mulheres. Neste artigo, me deterei nas narrativas construídas por mulheres e que impulsionam este diálogo e utilizarei três músicas compostas e cantadas por rappers mulheres. A primeira intitula-se “Prostituta” de Nega Gizza 5 . Aqui, a prostituta, depreciada e que vem com inúmeros adjetivos negativos no discurso dos homens, emerge como uma mulher que reconhece o preconceito que sofre, e que, mesmo assim, assume sua profissão, que repete no refrão da música: Sou prostituta sim/ Vou vivendo do meu jeito/ Prostituta, atacante, vou driblando o 2

preconceito. Ou quando quando diz que: Não me orgulho, mas me assumo, reconhecendo o preconceito social que recai sobre a profissão e sobre quem a exerce. Profissão esta que ela constantemente justifica, não demonstrando contentamento com a mesma, e que para se manter nela, muitas vezes, utiliza-se de drogas para suportar as pessoas, os lugares, as dores, o aborto, a fadiga e o preconceito. Mesmo assim afirma que apesar de tudo é importante assumir sua condição. Esta mulher, prostituta, é também mãe e tem mãe. Como inúmeras mulheres, o filho é lembrado quando está no trabalho, como relata: Se meu filho chora, sou eu a mãe que escuta [...] Pela minha mãe, pelo meu filho tenho muito apreço [...] Estar em casa com meu filho agora seria bem melhor [...] Bate o sino, meu filho deve estar dormindo / Enquanto eu inicio a vida sexual de um menino [...] É a mãe preocupada com o filho, é a prostituta iniciando a vida sexual de um menino. A mãe e a prostituta estão na mesma mulher. Contradição é a própria vivencia desta mulher, que tem desejos, ambição, sente prazer: Tenho sonho, amor e vaidade [...] Mas na real o que eu quero é ser artista / Dar autógrafo, entrevista, ser capa de revista / Quero ser vista bem bonita na televisão / Rolé de carro e não mais de camburão. [...] E ao lado dos desejos, ao final coloca o que vive, através do camburão da polícia. E assim a música vai citando inúmeros momentos em que ela sente a tensão, o medo e a insegurança da profissão quando assume sua depressão, fala de suas tentativas de suicídio, do uso de drogas ou quando assume sua insegurança: Mas corro o risco de deitar com o inimigo.A música e sua autora narram a contradição, ressaltando ou alertando que a mesma faz parte deste universo da prostituta, como nas frases repetidas logo antes do refrão: Sou de quem me ver primeiro / Sou a ausência do amor com a presença do dinheiro. E continua: Sou meretriz triste e feliz / Codinome vagabunda entre o mal e o bem, mostrando que a contradição é muito mais ampla e está na sociedade com sua hipocrisia: As famílias me odeiam por causa da luxuria / Mas só vendo minha carne e meu carinho a quem procura. E reforça esta situação quando reafirma que: Contradição é a minha marca na reza e na dor / Sou o retrato três por quatro desse povo brasileiro, incluindo-se nesta sociedade, que a discrimina por seus serviços, incluindo-se como uma metáfora do povo brasileiro. E, que não encontra perspectiva de melhoras quando sabe e assume sua condição de prostituta, afirmando e repetindo preconceitos sobre sua própria condição: O meu destino eu escolhi / Das pragas sociais sou a pior, ou quando repete o que dizem a seu respeito, Os crentes dizem que eu vendo a alma ao capeta / Sei muito bem que não sou mais mulher direita. E termina sua música refletindo sobre sua existência, desde jovem logo ao entrar na prostituição: Aos 16 só curtição pensava em nada. Seu presente de insegurança: Hoje aos 23 neurose a mil, só transo angustiada. E o futuro próximo, sem esperança, de pouca idade, mas já considerada velha: Aos 33, quem sabe velha e arrependida/ Aos 43 só esqueleto, recordo a vida / Minha puta vida, reflete o desespero. E neste momento o termo puta ganha outra conotação, em que mais uma vez emerge a contradição. Esta prostituta é apresentada como uma mulher que carrega um estigma que a 3

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