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Relações de gênero através da produção musical do rap de ...

Relações de gênero através da produção musical do rap de ...

envelhece e a exclui

envelhece e a exclui socialmente, penalizando-a por uma condição que não se apagará com o tempo. E parece ser esta consciência que a faz refletir sobre sua condição, de mulher discriminada na sociedade da qual faz parte a prostituição que exerce. E além da contradição vivenciada na vida pessoal e profissional esta prostituta trás a tona uma contradição maior, da sociedade que usa e aniquila esta mulher. A segunda música é do grupo Lweji, grupo com o qual tive contato através da experiência etnográfica realizada na Grande Lisboa, no Estágio de Doutorado 5 . Escolhi a faixa 11 do CD Finalmente, intitulada A Dúvida 6 . Como o próprio título sugere, esta música refere-se a um assunto bastante polêmico e com muitas reações contrárias, entre homens e mulheres, mas que faz parte da vida de muitas mulheres, o aborto. A música narra a trajetória de uma jovem que se depara com uma gravidez inesperada. Confessa-se arrependida e negligente. Ao mesmo tempo, a pessoa com quem se relacionou, tão jovem quanto ela, pouco a auxilia nesta decisão. O refrão da música é feito de interrogações. Já pensaste bem no que vais fazer? / Já viste o erro que irás cometer / Quem te vai ajudar? Quem te vai compreender? / Quem ficará do teu lado? Embora a decisão seja do casal, recai sobre a mulher um grande peso na tentativa de tomar esta decisão. É a dúvida que lhe acompanha, já que sabe que sua família não a apoiará. Suas amizades se afastam e é ela, só, quem tem que decidir, como se reflete na constante decisão/indecisão que emerge na: É que quem me engravidou não quer assumir, quero fugir / Devo tirar mas já começo a amar / Esta vida inocente que cresce dentro de mim / E assim sinto o fim de sonhos e objectivos / Sustentando um amor de sacrifícios e amargos sorrisos / [...] E ainda há quem lembre, que abortar não é correcto. É o certo e o errado, a certeza e a dúvida, pois assume que não é esta a atitude mais correta, mesmo assim, ter este filho, poderia ser ainda pior. O que fazer? Este é seu dilema. Até porque além das conseqüências físicas, já que é o corpo da mulher que passará por uma intervenção, tem uma cobrança social e moral que a persegue e dificulta a tomada de decisão, mesmo sabendo que a continuidade da gravidez possa interromper seus sonhos e objetivos que poderão trazer um futuro de amargos sorrisos. Mesmo apontando as dificuldades financeiras, os impedimentos que vivenciará em sua vida e a própria cobrança das amizades pela realização do aborto, já percebe uma vida crescendo dentro de si e surge a culpa e o peso de um possível arrependimento. Sente-se só para decidir, e esta solidão a angustia, sentindo vontade de fugir. A última parte da música é cantada com voz feminina, como toda a música, mas trazendo a posição parceiro da garota. Ele coloca-se como muito jovem pra ter um filho, e que por isso terá de deixar a escola e voltar para Angola 7 , sem os sonhos que veio buscar com o diploma. Ele coloca-se mais decidido que a garota: Mas ela podia abortar, xeee ela podia abortar / Há tanta gente a faze-lo, ao menos víamos nos livres desse pesadelo / [...] É bué cedo, estou confuso, fomos inconseqüentes, devemos pagar / O preço é alto, 4

ela vai ter de tirar, ela vai ter de tirar. Mesmo assumindo que está confuso repete: Ela vai ter que tirar. Aqui a frase está no singular, ao contrário de quando assume fomos inconseqüentes, devemos pagar. Mesmo ele se colocando presente na situação afirmando ser favorável ao aborto, é ela quem vai ter que tirar e não nós. A música finaliza sem uma decisão tomada, a dúvida persiste. A reflexão que a música nos coloca, remete-se à situação vivenciada cotidianamente por mulheres que tem que tomar esta decisão, com ou sem seus parceiros, e que além de ser uma decisão difícil, tem uma culpa que paira no ar e esta parece estar somente com as mulheres. Mesmo que o homem seja decisivo na efetivação deste aborto, é com a mulher, como a música mostra, que fica com o medo de um possível arrependimento, ou das conseqüências do mesmo. A terceira música é do grupo Elemento Suspeito 8 , “Mina Sofrida”. A música é cantada por um homem, e uma mulher e narra a história de uma garota que se envolve com a criminalidade. A “Mina sofrida” é uma mulher que não participa e não se inclui nas discussões referente ao 8 de Março - Dia Internacional da Mulher: por acaso viu aquilo na TV, por engano. Como as duas mulheres acima apontadas, esta também é jovem e com muitos sonhos, mas que ao conhecer uns tipos diferente entrou para a criminalidade. Chora, se arrepende, sabe das dificuldades de sair desta situação. Convive com as lembranças do trabalho, da família, da casa, com a expectativa de que um dia possa ter esta vida de volta. Mas na música aponta a dificuldade de saída desta situação, mostrando uma tensão que não a deixa em paz, já que tanto a polícia, quanto os bandidos querem sua pele. Nesta situação parece difícil se esquivar já que somente na criminalidade, poderá sobreviver, armada, atenta para não ser pega. E aqui a música começa a ser narrada em primeira pessoa: Sou mulher, sou vacinada, não me subestima / Não posso ser tirada pra mina otária / Tenho respeito, consideração a minha quebrada / A todos os meu amigos, que Deus os avisou / Se for meu inimigo, que me perdoe / Atitude e proceder sei que você tem / Pra mulher hoje em dia, uma a cada cem /Mas as fita que tu faz, tu sabes, não tá certo / Eu tô ligado, vejo tudo, eu estou bem perto / Vários caras de outras áreas querem sua pele / Muita treta no passado o tempo não esquece / Aquela aliada que colava na infância, agora de você mantem distância 10 . Esta passagem mostra uma mulher que exige respeito, o que é reconhecido na voz masculina. A mesma voz que a aconselha e reprova a vida que ela leva, mas que afirma que está perto e ligado, porém, relembra que não é só ele que está por perto, mas também pessoas que querem “ajustar contas”, o que a coloca em constante risco e a deixa só. Embora muitos raps abordem a questão da criminalidade, a grande maioria refere-se a pessoas que nela estão envolvidas, como homens, raras são as mulheres que emergem nestas narrativas como agentes da criminalidade. Nesta música é uma mulher, que, tal como os homens, é ameaçada pela situação que a envolve. Além das três situações aqui apresentadas, esta produção musical é bastante ampla e diversificada, e busca refletir e discutir sobre questões que perpassam o universo de muitas 5

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