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Narrativas civilizatórias e a formação da mulher no ocidente Gláucia ...

Narrativas civilizatórias e a formação da mulher no ocidente Gláucia ...

As duas vertentes,

As duas vertentes, denominadas greco-romana de um lado, e judaico-cristã de outro, uniram-se no momento em que se espalham por todo um continente, o europeu, responsáveis pelo início de um processo de aglutinação cultural que, no futuro será chamado Globalização. Do lado de nossa herança religiosa, a história narrada sobre a presença e participação da mulher no processo geral daformação da humanidade” é de um peso constrangedor: o mito judaico-cristão imputa à mulher “os males do mundo”. O erro de uma mulher - Eva - justificaria a confirmação do caráter fraco, esquivo e sibilino de todas as mulheres, com sua conseqüente suspeição eterna e generalizada. Segundo essa construção teogônica, a mulher é apontada como a responsável pelo sofrimento que a espécie humana tem de enfrentar para se reproduzir - tanto para se alimentar, quanto para procriar. Devido ao suposto erro da mulher original na origem da criação da humanidade, as mulheres jamais puderam ser alçadas à condição de deusas, sob nenhum sentido ou forma. E seu principal ideólogo, Paulo de Tarso, condena: Que a mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão e não permita que a mulher ensine, nem que exerça autoridade sobre o marido; esteja, porém, em silêncio, porque primeiro foi formado Adão, depois Eva, e Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão. Todavia, será preservada através de sua missão de mãe, se elas permanecerem em fé e amor e santificação, com bom senso 3 . Em seu discurso com poder de máxima, a mulher só deveria ter a vida poupada devido sua função, insubstituível até então, na reprodução da espécie, mas, mesmo assim, só permaneceria viva se se submetesse. O que fica claro é que, caso se rebelasse, poderia (para não conspurcar a pureza dos homens) ser morta, pois fora a responsável pela perda do Paraíso na Terra. Ou seja, já carregava um pecado odioso em sua essência. Não se tem notícias, no entanto, de que o próprio Jesus corroborasse essa tese. Pelo contrário, uma vez que, pelos escritos, sua atuação sempre demonstrou o oposto, pois confrontando situações de perseguições às mulheres, propunha o desmonte do preconceito. A frase: “Atire a primeira pedra quem nunca pecou” é prova cabal. Segundo o entendimento de Paulo sobre o mito bíblico porém, apenas a mulher foi responsável por se deixar enganar e desobedecer as ordens de seu Pai. Na fonte de sua análise, no Gênesis podemos ler: “E vendo a mulher, que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos, e desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu, dando também ao marido, e ele comeu”. 4 Conforme o texto, Eva foi iludida e, de boa fé, deu o fruto a seu marido que, da mesma forma, também se deixou iludir, convencido por uma lógica errática. Para Deus ambos mereceram punição sem gradação de penas, mas equiparados e unidos. Assim pontua a escritura sagrada: “E 2

disse Deus a Adão: Visto que atendeste a voz de tua mulher, e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses: maldita é a terra por tua causa: em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida” 5 . Podemos perceber que, diferentemente do que afirma Paulo, Adão desobedeceu tanto quanto Eva, e ainda mais, pois obedeceu a uma mulher preterindo seu deus, e por isso, recebeu castigo inclemente. Lemos também, que a terra foi amaldiçoada, não devido à Eva, mas por causa de Adão. A imputação da culpa exclusivamente à mulher, foi apenas leitura misógina de Paulo, pela manutenção da hierarquia desde a formação das tribos hebraicas. Se do lado judaico, que se incorporará ideologicamente ao ideário cristão, a mulher perde terreno político por lhe ser, erroneamente, imputado um dolo que é, rigorosamente, compartilhado (se é que há); no outro lado de nossa herança, a greco-romana, tampouco houve alívio. Foi na antiga Gen grega que se verificou o recuo da mulher “bárbara” no corpo social, até à mulher da famulus, isto é, transformada em item da herança do indivíduo protegido pelo Estado romano. Segundo Engels, não se pode imputar à religião a culpa pelo alijamento e submissão da mulher na organização social humana, uma vez que a religião, só se constrói para dar sentido às lacunas que o jogo do poder impõe. E baseado nos estudos de Bachofen, Engels afirma que, à medida que a propriedade privada foi surgindo, por apropriações violentas, assim também foram se desenvolvendo as instituições para garantir os privilégios, concomitantemente ao aprisionamento das mulheres. Dessa forma, guerreiros envaidecidos de seus bens, expropriados dos inimigos e da Gen, para perpetuar seus nomes em uma descendência inquestionável, precisavam aprisionar a mulher, impedindo que tivesse vários parceiros e auto-suficiência. Para tal usou-se do convencimento (religioso e moral) e a força física, assegurando-se inclusive, que ela não pudesse mais sobreviver sozinha, mantendo-se dependente da instituição chamada família. Derivado de Famulus, o termo do direito romano designava originalmente, o rol dos pertences do patrício dentre bens imóveis, escravos, mulher e filhos, sobre os quais tinha direito de vida e morte, decidindo destinos de todos esses “bens” pela herança. A formação do Estado na Grécia, portanto, se firmará à medida que as mulheres vão perdendo o lugar na Ágora e no Conselho dos Anciãos da antiga Gen, de linhagem matrilinear e administração comunitária, recorrente em inúmeras culturas chamadas “bárbaras” do continente europeu, inclusive a grega. No século V a.C., auge da cultura helênica, o Estado Democrático será implantado com todos os seus “senões”: organização econômica dependente do trabalho escravo e estrutura social altamente hierarquizada, aristocrática, xenófoba, e belicosa. Apesar disso, cria-se um sistema de escolhas, verdadeiramente revolucionário até então, ainda que venha a funcionar melhor na teoria, 3

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