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Narrativas civilizatórias e a formação da mulher no ocidente Gláucia ...

Narrativas civilizatórias e a formação da mulher no ocidente Gláucia ...

uma vez que exclui os

uma vez que exclui os direitos de cidadania de todos os pobres, artesãos, estrangeiros, escravos, mulheres e crianças. Nesse período, as poucas mulheres que se destacaram surgiram dentre as hetairas, ou prostitutas protegidas pelo Estado que, desobrigadas de seu papel de protetoras dos bens masculinos, ficavam livres para expandir seus talentos e gostos artísticos 6 . Ria Lemaire analisando o período, observou que apenas mulheres fora da normalidade, tiveram seus nomes inscritos na história oficial, tendo recebido mérito apenas as consideradas loucas, ou putas ou santas 7 . Desde a Fase Heróica, anterior à chamada Clássica, o controle e exclusão das mulheres já se faziam visíveis através da obra de Homero, fonte da maioria das tragédias clássicas. Nas duas epopéias conhecidas, não há relatos das sagas dos povos da península, mas apenas narrativas das glórias solitárias de guerreiros, que serão apontadas como responsáveis pela alteração dos rumos históricos de seus povos 8 . E para tais heróis serão criadas canções, hinos e estelas mortuárias, reforçando e sedimentando a memória do indivíduo em detrimento da comunidade gentílica da qual era oriundo e devedor. Devedor porque, segundo Bachofen, os guerreiros só puderam se aventurar em novas conquistas, por terem quem lhes garantisse alimentos, moradia, vestimentas e ferramentas, inclusive as armas com as quais se lançavam em empreitadas. A idéia é que só foram heróis porque não precisaram lutar para sobreviver no dia-a-dia, graças aos agricultores, pastores, artesãos, assim como os tratamentos com ervas e alimentação que, serviram de retaguarda aos membros da comunidade em geral. Com o estabelecimento do Estado, as hierarquias passam a ser garantidas e impostas pela força pública, impondo formas de expressão estéticas e religiosas, que lhes darão sustentação. É assim que o Teatro, ritual religioso que, em sua origem fora criado e conduzido por sacerdotisas bacantes, acabou por vetar acesso das mulheres ao proscênio. A justificativa da “civilização da ratio” será dada pela suposta “instabilidade emocional e imprevisibilidade” das mulheres, postura condizente com os rituais báquicos, deus da embriaguês, da androgenia, da sexualidade farta e imediata. Essas justificativas, mantida desde a fase heróica às teses freudianas do início do século XX, solaparam um largo campo de conhecimento, que vem sendo resgatado pela arqueologia, hermenêutica, filologia e outras ciências. É assim que Bárbara Walker, debruçando-se sobre vestígios de civilizações pré-cristãs e pré-românicas, aponta inúmeras colaborações civilizatórias, como a disciplina da Matemática (que significa “sabedoria da mãe”), os calendários (originalmente lunares ou mens-truais, pois de vinte oito dias), e todo um sistema de mensurações baseados no mesmo princípio do mênstruo 9 . Mas no chamado século de ouro da cultura grega, o recuo político das mulheres pôde ser observado por uma de suas mais poderosas manifestações: o Teatro Trágico. De Ésquilo até 4

Eurípides passando por Sófocles, os papéis das mulheres passam de agentes sociais à oikuremas, termo usado por Eurípides em suas tragédias, quando se referia às mulheres como indivíduos destinados a procriar e cuidar da casa 10 . Um dos temas narrado por Homero, e que foi “lido” diferentemente pelos três principais dramaturgos, foi a tragédia que se abate sobre a família de Agamêmnon, rei de Micenas, e sua rainha Clitemnestra, irmã de Helena. O tema narra como tudo começou com o rapto (fuga?) de Helena para Tróia. Menelau, esposo de Helena, se queixa ao irmão, poderoso guerreiro e grande estrategista bélico, pedindo solidariedade e anuência para o resgate da esposa, bem como seu direito de vingança. Agamêmnon percebe a chance de anexar uma cidade-estado rica e poderosa como Tróia e apóia o pedido do irmão. Sua ambição crescerá às raias do absurdo quando, depois de ter conseguido reunir um grande exército, com vários reis de outras cidades, e mesmo alguns heróis, sofre o impedimento de seguir na empreitada devido a uma calmaria enviada por Ártemis que, supostamente, estaria protegendo Tróia. Na ânsia de zarpar o quanto antes, consulta o oráculo e recebe de Apolo a informação de que terá de sacrificar sua filha mais velha para acalmar a deusa. Agamêmnon não hesita. Arquiteta um plano para atrair mãe e filha para a praia onde os exércitos estão prontos para partir, e onde pensa em instalar a pira sacrificial. Para tanto convencerá a ambas usando o subterfúgio de casar a filha com o grande Aquiles antes da partida. O plano é descoberto, Aquiles intercede por Ifigênia, mas depois de idas e vindas, a própria Ifigênia irá se oferecer em sacrifício, e assim é feito. Morta a princesa, o vento insufla as velas, o exército parte, e Clitemnestra, sem a filha e mortificada, volta para o castelo. Por dez anos, sem o marido e sem o filho, que também partira para a guerra, além da dor da traição pela morte de Ifigênia, a rainha encontra consolo em outros braços, e decide se vingar do assassino de sua filha. Quando o general volta, é morto pelo novo casal e, com suas duas filhas restantes, ela se organiza. Uma das filhas lhe dá apoio e permanece sua aliada. A outra filha no entanto, não cessa de se queixar pela morte do pai. Essa filha então, será dada em casamento a um fazendeiro, e assim, uma nova etapa de Micenas começará. Ésquilo, na tragédia Agamêmnon narra essa história, a qual termina assim: O rei é morto, e a rainha com novo rei vinga a morte de sua filha, assassinada por razões de ambição. Clitemnestra é reconhecida enquanto mãe aviltada, menosprezada e traída, que merece sua vingança e nova vida. Para Sófocles, nascido 29 anos depois de Ésquilo, um novo reinício de vida para uma rainha que ousa matar o grande general Agamêmnon, não pode ter o aval do dramaturgo. Sua visão da tragédia receberá o nome de Electra, e terá um fim bem diverso. Orestes, seu irmão, retorna da guerra de Tróia, e se depara com a notícia ignominiosa. Decide então matar os assassinos de seu pai. Electra havia tentado se unir-se a sua irmã para cometer o matricídio, mas não conseguira a 5

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