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Narrativas civilizatórias e a formação da mulher no ocidente Gláucia ...

Narrativas civilizatórias e a formação da mulher no ocidente Gláucia ...

cumplicidade de Crisótemis, a irmã leal a Clitemnestra. A Tragédia encerra-se com o duplo assassinato perpetrado por Orestes, ensejando a que as Erínias, deusas anteriores aos deuses do Olimpo, pré-patriarcado, se levantassem das profundezas para perseguir, à loucura e à morte o vingador que ousou levantar a mão contra a própria mãe. Nessa peça, Electra discursa copiosamente contra a deslealdade da mãe, culpando-a pela destruição da família, uma vez que, por sua leitura, a morte por sacrifício religioso da irmã cumpriu uma imolação sagrada e imposta pelos deuses. O coro é constituído por jovens mulheres que devem reafirmar a nova posição feminina sob a tomada de poder pelos homens. Demonstram submissão inquestionável, e seus cantos louvam Orestes e execram a rainha rebelde. Quarenta e cinco anos depois de Ésquilo nasce Eurípides, e esse mesmo mito tornará a ser contado por ele que, assim como Sófocles, também terá o nome de Electra. A abordagem euripidiana da rainha, que vinga o assassino de sua filha pela cobiça e pelas glórias bélicas, tem nova abordagem. Nesta tragédia, Electra efetivamente conduz a ação e manipula os ânimos e justificativas. Inclemente, não hesita, e nem permite que Orestes questione a justiça de seu intento. O irmão segue sem dúvidas para o palácio, mas lá, só consegue matar o padrasto. Quanto a Clitemnestra, diante da hesitação do irmão, Electra monta um ardil para atrair a rainha até sua casa, alegando ter tido um filho com seu esposo, o fazendeiro. Presa a rainha, Electra obriga o irmão a matá-la. As Erínias não perdoarão Orestes, mas antes que ele siga para o desterro, perseguido e em desespero, entrega a irmã Electra para se casar com o primo Pilades, alguém da mesma estirpe real. O destino das mulheres nesta tragédia já havia sido selado pelas leis do patriarcado e apenas as antigas deusas esquecidas, as Erínias, sem templos e sem rituais, rancorosas em seu abandono, lutaram pelo lugar feminino aviltado e perdido. Electra só é central nesta narrativa, porque luta pela honra, pelo direito e pela memória de um homem. Assim, quando esses dois mitos fundadores, o greco-romano e o judaico-cristão começam a se reunir geográfica e belicamente, e não por afinidades eletivas, mas por ocupação de território, acabam por se interpenetrar, acomodando-se no que tinham de comum. Uma dessas coincidências será a misogenia, que cresceu de uma “inadequação frente a Polis” para um “perigo à salvação da humanidade”, já em plena era medieval. Essas narrativas civilizatórias, tanto no campo exotérico, quanto histórico e estético, não foram inocentes e fizeram parte de um eficiente arsenal político pela garantia da irrelevância e invisibilidade das mulheres, no tocante a manutenção da posse de uma prole identificável e por uma administração pública hierarquizada e sem interferências. Não há como recuperar a história, preencher as lacunas e ainda esperar que se revele um palimpsesto que se borrou. O que importa é saber que houve esse boicote, e que jamais saberemos 6

como poderia ser os rumos da história, desde as guerras, passando pelo desenvolvimento tecnológico e usos do meio-ambiente. Com mais de quarenta anos de movimento feminista e tantos ganhos jurídicos depois, a sombra e o peso dos mitos fundadores ainda persistem e lutam por legitimidade. E quando se lê, como no artigo citado, que “o mito fundador é a semente de toda cultura possível”, percebe-se que a capacidade intelectiva de novas perspectivas, inclusive a possibilidade de se confrontar histórias tão perniciosas, é um debate não só pertinente, mas urgente. Referências bibliográficas 1 ARRIGUCCI Jr., Davi. Da fama e da infâmia: Borges no contexto literário latino-americano, in Enigma e Comentário: ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das letras, 1987. p. 67-90. p. 78. 2 CARVALHO, Olavo. Do mito à ideologia. In Jornal da Tarde, 29 de Março de 2001, disponível em http://www.olavodecarvalho.org/semana/mitoideo.htm, acessado em agosto de 2007. 3 DIVERSOS. Bíblia Sagrada. Rio de Janeiro: Sociedade bíblica do Brasil, 1969. Primeira epístola de Paulo a Timóteo: 2:11-15, p. 249. 4 Bíblia. op.cit. Gênesis. 3: 6, p. 9. 5 Bíblia, op. cit. Gênesis 3:17, p. 9. 6 ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do estado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. p.69. 7 LEMAIRE, Ria. Repensando a história literária. In HOLLANDA, Heloísa Buarque. Tendências e Impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.p.58-71. p.58. 8 BURKE, Peter. O que é História Cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. p. 158. 9 WALKER, Bárbara G. A Velha: Mulher de idade – sabedoria e poder. São Paulo: A Senhora, 2001. p. 9. 10 ENGELS. op.cit. p.67-73 7

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