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Download do Trabalho - Fazendo Gênero

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Fazendo

Fazendo Gênero 9 Diásporas, Diversidades, Deslocamentos 23 a 26 de agosto de 2010 sendo o grupo a referencia para o que iriamos fazer. Foi deste modo que, definida a temática, construímos coletivamente toda a peça - roteiro, cenário, figurino e trilha sonora. Houve também o envolvimento da comunidade, pois todo o material dramático foi produzido a partir dos recursos nela disponíveis, materiais de uso cotidiano, mas que passaram por um processo de transformação estética significativa, requerida pela peça a ser encenada. A opção do realizar uma peça de Teatro Fórum também tem implicações em todo o trabalho, pois exigiu preparo do grupo para trabalhar com imprevistos em cena. É necessário destacar que a realização de um espetáculo de teatro fórum possui algumas especificidades: Um dos princípios fundamentais do Teatro Fórum é realizar reflexões sobre as relações de poder, explorando histórias entre opressor e oprimido, onde o espectador assiste e participa da peça. A intervenção do público é que define o final da cena. Assim, o público deixa de ser espectador e se torna participante - espec-ator - apresentando alternativas para a questão debatida e se envolvendo na discussão do problema. Assim, o público assiste à peça, que é reiniciada a partir da iniciativa do condutor da sessão de fórum, que é o curinga. O curinga tem a função de estimular o público a participar do jogo. Ele convida os espectadores a entrarem em cena, substituindo o protagonista, e apresentarem alternativas para o desfecho da peça. O curinga debate com as pessoas presentes se as alternativas propostas podem ser efetivamente realizadas. O teatro fórum utiliza uma concepção de obra inacabada. Após quase três meses de trabalho e convivência intensa com a comunidade Fernandeziana, no dia 06 de novembro de 2010, as 18:00 horas, com o pátio central da Escola Municipal Robinson Crusoé lotado, o Grupo de Teatro do Oprimido Semilla Oceánica, orgulhosamente apresentou : UNA MIRADA A LAS PROFUNDIDADES! A peça ocorria nas profundidades do oceano Pacífico e contava a história de uma lagosta pequena - Hassus Linda - que gostava de brincar de boneca com sua amigas. Um certo dia, seu padrinho - Sr. Adulpo (um Polvo, o predador natural das lagostas) - a convidou para ir sozinha com ele até sua cova, pois queria lhe dar algo. Por gostar e confiar nele, ela o seguiu. Após este episódio algo mudou radicalmente em Linda: estava triste, cabisbaixa, não queria brincar com suas amigas ou alimentar-se. Sua mãe – Langústia – após muito insistir que Linda contasse o que havia ocorrido, não acreditou quando ela ,lhe disse que seu padrinho tocou seu corpo de um modo muito feio, ruim. Mesmo gostando muito da filha, a mãe a repreende por mentir, inventar coisas deste tipo sobre seu padrinho que afinal a conhecia desde que nasceu, quando era ainda uma lagosta bebê. Linda busca fazer com que sua mãe acredite no que diz, porém sem sucesso. Explicita-se a crise, o impasse entre a mãe e a filha. A mãe retira-se pedindo a filha que pense bem, que reflita sobre a 6

Fazendo Gênero 9 Diásporas, Diversidades, Deslocamentos 23 a 26 de agosto de 2010 grave mentira que acabara de dizer sobre seu padrinho..Linda encontra-se no centro do palco sozinha e amedrontada. Naquele momento abriu-se o Fórum, o curinga retoma a coordenação dos trabalhos e instiga os espec-atores a entrarem em cena e mudarem o final da peça. Foram várias as intervenções do público, crianças e adultos que propunham alternativas para mudar o final de peça, desde a necessidade de pedir ajuda as suas amigas, as outras lagostas que conhece, a necessidade de recorrer/denunciar a justiça marinha, até a possibilidade de negar-se a ir para a cova de um Polvo adulto. O Teatro do Oprimido coloca as opressões (tanto pessoais quanto sociais) no centro da encenação teatral, gerando com isso, a oportunidade das pessoas que participam dos espetáculos de Teatro-Fórum, avaliarem sua realidade criticamente, propondo soluções para mudanças, entrando em cena, dialogando sobre suas conclusões, sendo visto e vendo o outro, num processo de construção e transformação social. Essa metodologia mostra como a arte produzida pelo homem concreto, agente de suas ações e consciente delas, é um meio de mobilização social forte, porque mostra a desumanização das relações sociais e também desvenda as opressões explícitas e implícitas, gerando entendimento crítico sobre a realidade. Durante quase três horas a comunidade entrou em cena e vivenciou as possibilidades de romper esta situação de opressão. Neste sentido, reafirmo: as técnicas do teatro do oprimido facilitam atingir o imaginário da população porque criam representações do real e esta representação ao usada para discutir os problemas vividos e ensaiar jeitos de resolvê-los e superá-los, contribui com a re-apropriação de sua cultura e desperta nos indivíduos, principalmente nos seus respectivos grupos sociais, o conceito de “cidadania plena”, onde o indivíduo toma consciência de que ele não apenas vive em sociedade, mas a partir de suas ações, pode propor alternativas conscientes para transformála (BOAL, 2003:44). ….Se hace camino al andar... Transcorridos alguns meses desde a realização do trabalho na ilha, o exercício de olhar para o que realizamos, me faz perceber cada vez mais a riqueza deste processo. Não foi sem angustia ou receio que vivi todo essa experiencia, principalmente pelo cuidado que buscamos ter ao tratar de um tabu como o abuso sexual contra meninas, em uma comunidade tão pequena e distante de tudo. A decisão do grupo por esta temática foi vivida por mim como um imenso desafio . O primeiro deles referia-se a este ser um tema comentado , “nos bastidores” na ilha. no entanto , isso nunca havia sido discutido abertamente. O segundo desafio referia-se a minha posição de “estranha e estrangeira” na comunidade, o que me exigiu um olhar muito atento, sensível e cuidadoso para o movimento do grupo e para suas reais demandas. 7