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MEMÓRIA E ORALIDADE: - Fazendo Gênero - UFSC

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Estados nacionais, um

Estados nacionais, um saber histórico próprio, institucionalizado, que passaria a produzir e autorizar o conhecimento de maneira distinta. Com o desenvolvimento científico do século XIX se incentivou o culto a “objetividade”. Assim, a reflexão sobre o passado passou a utilizar métodos quantitativos e a história podia ser baseada somente em documentos. Com uma linha positivista, foi eliminada nesse período a história oral e boa parte da cultura popular associada a ela. Enfim, a escritura passaria a ser a única autoridade de conhecimento. Com a exclusão da oralidade passa-se a excluir da história não somente o componente subjetivo, mas também uma reflexão sobre o mundo popular como ator indispensável na construção da história. Assim, a história, de maneira lineal, se resume à história de “heróis”, datas e grandes acontecimentos, certamente importantes para a formação dos Estados nacionais e de suas classes dominantes. Contudo, começa a surgir a preocupação de reescrever esta história desde novas perspectivas e se entende hoje por história oral “la producción de un discurso sobre el pasado que asume la introducción de nuevos actores en el proceso de la historia y nuevas voces en la interpretación de sus sentidos.” (VICH, 2004, p. 89). E nessa produção, a história oral, segundo Portelli: “…no sólo nos habla acerca de lo que la gente quiso que ocurriera, lo que creía que estaba ocurriendo y lo que finalmente ocurrió.” (in VICH, 2004, p.89). Considera-se, assim, que todo sujeito é capaz de produzir conhecimento histórico. Passa-se, então, a se desprofissionalizar o saber histórico e se insistir na necessidade de produzir uma história das classes subalternas, ou seja, uma história “desde baixo”, como disse E.P. Thompson. Neste sentido, as memórias das/os idosas/os são as fontes riquíssimas de conhecimento não registradas por todas as questões que discutimos até então e por outras características do sistema capitalista: a exclusão do velho por este já não ser mais uma “mão de obra qualificada” para o mercado de trabalho. Assim, se se parte da reflexão que por acúmulos de exclusão, as mulheres das classes subalternas não estão registradas na história oficial, tampouco suas produções literárias, é evidente que estamos falando, sobretudo, de um passado (o que não significa que o presente não continua com este problema) e, portanto, as memórias de idosas são fundamentais para o trabalho de reescrever a história desde outro ponto de vista que não o do dominador. Contudo, não tem sentido reescrever esta história, se não for com a perspectiva de reescrever o presente, e neste sentido, temos todas/os o desafio de repensar e transformar a sociedade como um todo, pois afinal: Como reparar a destruição sistemática que os homens sofrem deste o nascimento, na sociedade da competição e do lucro? [...] Como deveria ser uma sociedade que na velhice o homem permaneça homem? A resposta é radical [...]: seria preciso que sempre tivesse sido tratado como homem. (BOSI, 1994: p.20) 2

Dentro desta perspectiva de reescrever uma nova história, a das/os excluídas/os, o feminismo tem desenvolvido uma contribuição fundamental, afinal escrever a história dos excluídos passa por escrever também sobre as mulheres e sobre todos os elementos que as levaram à exclusão. Segundo Maria Izilda S. de Matos: A produção historiográfica brasileira sobre as mulheres, nos anos 80, apresenta variadas abordagens, que analisam aspectos diferenciados da questão, tornando-se uma contribuição significativa, onde poderes e lutas femininas foram recuperadas, mitos examinados e estereótipos repensados. Num leque de variadas correntes de interpretações, procurou-se recuperar a atuação das mulheres no processo histórico como sujeitos ativos, de modo que as imagens de pacificidade, ociosidade e confinação ao espaço do lar foram questionados, descortinando-se esferas de influência e recuperando os testemunhos femininos. (MATOS, 1998) Esta emergência da década de 80 ocorre com a formação de grupos de pesquisa. Nestas últimas duas décadas conseguiu-se forjar um pensamento crítico muito auto-consciente em relação ao saber literário instituído. Assim, começou-se a recuperar obras e escritoras marginalizadas na história literária que deu voz a cânones, quase que no total de homens brancos. Grande parte desta recuperação é de escritoras do século XIX que tiveram acesso à imprensa, embora não à educação formal. Elas escreveram romances, poesia, contos, dramas, crônicas e ensaios. Alguns destes textos recorrem às tradições literárias portuguesas e francesas, mas há outros que são singulares e tratam da nacionalidade, bem como, de questões de classe e raça e sobre a condição feminina, posicionando-se dentro e contra a ideologia de gênero de sua época. Este resgate tem originado vários trabalhos acadêmicos permitindo que a história da literatura já não seja mais estudada sem considerar obras antes desconhecidas, como os exemplos citados Rita Terezinha Schmidt: A Lágrima de um caeté (1848) de Nísia Floresta, D. Narcisa de Villar (1859) de Maria Firmina dos Reis, Celeste (1893) de Maria Benedita Bormann, Sorrisos e Prantos (1868) de Rita Barém de Melo, Fausta (1886) de Amélia Rodrigues, Memórias de Marta (1889) de Julia Lopes de Almeida. Todas estas práticas e reflexões teóricas feministas no Brasil têm sido coletivizadas em importantes espaços de discussão como, por exemplo, nos ANAIS da ANPOLL (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística), da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada), nos Seminários MULHER E LITERATURA, no ENCONTRO INTERNACIONAL FAZENDO GÊNERO, entre outros. Contudo, além das obras escritas das mulheres é necessário registrar os fenômenos literários orais por todas as razões que se refletiu até então. Por estas razões tenho como objeto e sujeito de análise um fenômeno da literatura oral feminina guardado na memória de uma senhora. Refiro-me à Ratoeira e à Dona Valdete. 3

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