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MEMÓRIA E ORALIDADE: - Fazendo Gênero - UFSC

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Dona Valdete é uma

Dona Valdete é uma senhora de 71 anos (2006) que vive em Sambaqui, no município de Florianópolis. Num trabalho de registro que estamos fazendo, ela já recordou cerca de 180 versos da Ratoeira - uma cantiga de roda que foi passada de geração a geração pelos descendentes açorianos e praticada, até meados da década de 60, pelas moças nas festas do Divino Espírito Santo, nas novenas, ou em qualquer oportunidade que tinham para brincar. Era uma brincadeira coletiva em que elas davam as mãos, faziam uma roda e se intercalavam entre si, colocando sempre alguém no meio. A jovem que ia para o centro da roda cantava um verso que era seguido pelo refrão cantado por todas. O refrão recordado por Dona Valdete diz: Meu galho de malva Meu manjericão Me dá três pancadinhas No meu coração Meu galho de malva Meu buquê de flor Nasceste no mundo Para ser meu amor Já os versos eram vários e tinham muitos temas, mas a grande maioria versava sobre o amor. Muitos deles já eram sabidos por todas, mas outros eram inventados na hora, até mesmo porque também fazia parte da brincadeira os desafios. São exemplos destes versos: Menino dos olhos azuis Da cor do mar quando ta manso O dia que não te vejo Meu coração dá balanço. Eu comparo a minha vida Com a vida da borboleta Eu não posso ter amor Que as outras não se meta. Baraço que é baraço Baraço não é capim Eu não pedi ao teu amor Que olhasse para mim. Os versos eram pensados e improvisados por cada moça que participava, assim, a princípio eram individuais, mas depois passavam para o imaginário de muitas que também passavam a cantá-los. Ou seja, os versos relembrados por Dona Valdete não foram todos inventados por ela. Aliás, os únicos que ela deixou claro como dela, foram os do desafio do “menino dos olhos azuis” que de fato existia e foi interpretado pela arte. É claro que ela inventou muito outros, mas para Dona Valdete não é importante quem inventou qual, e sim relembrar e cantar os versos da Ratoeira. 4

Ainda que tenha as suas especificidades, a vida de Dona Valdete foi e é inserida em um contexto social e coletivo, concebido de regras e tradições. Existe uma relação dialética entre o privado e o público e, assim, não é de se estranhar que essa relação também influencie em construções artísticas que também mesclam os dois. Dessa forma, na Ratoeira, um conjunto de individualidades forma algo coletivo, mas que ao mesmo tempo não elimina essas individualidades e tampouco perde o caráter coletivo. Coletivo não somente no sentido de um grupo de moças que se dava às mãos e cantava junto, mas também de que muito dos versos improvisados eram influenciados por outros cantados antes, como os de desafio, por exemplo; e porque tratavam de temas gerais. Todas acabavam cantando e até criando versos de paixão ainda que não estivessem apaixonadas, por exemplo. Contudo, para esse todo era necessário a criação individual, fruto de suas experiências, essas que misturam interior/exterior. Essas experiências e o contexto em que estavam inseridas baseavam a lógica da Ratoeira e os seus versos. Em primeiro lugar, a experiência feminina daquele tempo e contexto de Florianópolis era marcada pelo trabalho e a construção e sustentação da família, o que cumpria com um dos objetivos do Estado: fazer crescer uma população branca na região. Ou seja, o casamento tradicional (monogâmico, heterossexual e registrado no civil e no religioso) era uma das principais perspectivas, senão a principal das moças, em geral, até meados da década de 60. Neste sentido, a Ratoeira cumpria um papel importante, pois era, sobretudo, um jogo de sedução e disputas de futuros namorados, noivos e maridos, contudo, em forma de uma brincadeira, aparentemente inocente. Trata-se, assim, de uma experiência que, segundo Harding, nos mente, pois apresenta como natural uma conduta culturalmente determinada e ordenamentos socialmente construídos. Ou seja, de acordo com Shari Stone –Mediatore “...el sujeto de experiencia mira al mundo a través de lentes ideologicamente condicionadas”. E a ideologia da época era baseada, sobretudo, no racismo que aspirava uma colônia de brancos. Para tanto, era necessário que os namoros fossem vigiados e que a virgindade fosse garantida (das mulheres) antes do casamento para não correr o risco da mescla racial indesejada. Assim, quando o amor não era de consentimento da família e da comunidade tinha que ser secreto. Em suma, embora fosse esta a ideologia da classe dominante que tinha, sobretudo, a preocupação econômica, de se manter no topo (mesclas seriam um risco, uma vez que isto significaria a mobilidade social para alguns setores), ela era hegemônica na sociedade colonial ibero-americana, em geral, a partir do século XVIII, segundo Verena Stolke. Contudo, ainda que dentro de uma ideologia hegemônica, a Ratoeira apresenta algumas características transgressoras à época, e, assim, questionadoras. Em primeiro lugar, como vimos, a disciplina sobre os corpos sexuados das mulheres, que escreve Verena Stolke, como forma de garantir a não mescla de etnias e classes, exigia, em última 5

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