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trabalho do - Fazendo Gênero

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computador estão associados a quem não tem OTDF (p = 0,004). Domingo à noite, internet e computador aos que não tem OTDF (p = 0,000). No que tange as relações de gênero, as obrigações com o trabalho doméstico familiar estão associadas as meninas (p = 0,000). Levando em consideração que este estudo buscou identificar as principais opções de lazer de estudantes, o aparecimento do cuidado com a casa como uma destas atividades, traduz de maneira bastante clara a natureza e pertinência do debate. As OTDF, além de privar as meninas quanto ao lazer, também apresentam outras implicações negativa para suas vidas. As famílias, dependendo de sua posição social, têm um olhar diferente sobre a categoria trabalho doméstico. Para muitas, isto aparece como algo “natural”, símbolo de um aprendizado para o futuro, uma “espécie de treinamento” ou preparação para a vida adulta. A conseqüência para as famílias pobres é enquadrar esta aprendizagem em dois momentos. Num primeiro, como socialização para a maternagem e num outro, à formação para o mercado de trabalho, como empregada doméstica. Como sabemos, esta possibilidade acaba por perpetuar a condição de pobreza e amplifica as desigualdades (SARTORI, 2006). Importante salientar, que o mercado doméstico não se apresenta como um nicho para o público masculino, o que acaba por reforçar ainda mais esta desigualdade (COSTA, 2007). Diferentemente destas, as famílias de classe média tencionam suas filhas a maternagem e ao estudo. As obrigações com o trabalho doméstico familiar apareceram prioritariamente como um contexto a ser vivido pelos estudantes dos bairros mais segregados da cidade de Canoas/RS: Mathias Velho e Guajuviras (p = 0,000). Como a literatura aponta, são nas camadas mais pobres que o impacto disto é mais danoso para a sociedade. Isto tem como resultado aquilo que Madeira (1997) denominou de domesticidade excludente. A domesticidade excludente dificulta a realização de outras atividades como o estudo, o lazer e o cuidado de si. Para as crianças pobres, incorporar sentimentos de subalternidade e de doação vão ser fundamentais para um mercado de trabalho de baixa regulamentação que impõe as empregadas domésticas uma dupla perda. Em casa, pelo compromisso com a maternagem, isto aparece como algo natural, da mãe. No trabalho, como algo necessário para garantir a sua subsistência, a exploração de sua força de trabalho, a força de uma mulher. Um outro fator importante na produção deste cenário, é a colaboração de outras instituições sociais em sua conformação. O lazer religioso tem aparecido em outros trabalhos como um importante 4

instrumento na formação de crianças e jovens, principalmente aqueles moradores da periferia das cidades (SANTOS, 2005). São encontros, reuniões, cultos e festas construídas para receber este público. No entanto, como instituição moralizadora, ela também atua na manutenção do status quo. A identidade religiosa reforça a reclusão de mulheres no espaço privado, conforme Heilborn (1997). A dramaticidade do tema assume contornos cada vez mais preocupantes, quando aprofundamos os dados de nossa pesquisa. O estudo também apontou haver uma associação entre estudantes negros e OTDF (p = 0,008). No bairro Guajuviras, 45,5% dos estudantes se identificam como sendo negros, para uma população média de apenas 11% na cidade. Neste caso, as meninas negras moradoras de bairros periféricos são alvos prioritários desta perversa dinâmica. Esta realidade vai ao encontro do que aponta Pinho (2006). A pesquisa evidenciou também que o OTDF está imerso nos contextos familiares onde o números de irmãos é maior. Houve associação entre ter mais de três irmãos e estas obrigações (p = 0,000). A análise das idades apontou uma associação com OTDF entre 15 e 17 anos. Para os estudantes de 12 e 13 anos o tratamento estatístico apontou associação com não ter obrigações com o trabalho doméstico familiar (p = 0,002). A idade parece ser um marcador geracional de forte impacto sobre o OTDF. Conclusão. O OTDF, conforme destaca a pesquisa, apresentou uma complexa ligação com as variáveis gênero, raça, a situação sócio-econômica (aferida a partir do local de moradia), idade e número de irmãos. Quanto maior o grau de pobreza da família, maiores são as imposições para com o trabalho doméstico, restringindo as possibilidades de usufruto do lazer. A ideologia do trabalho está muito presente, como forma de troca e solidariedade impondo-se como uma necessidade para a manutenção do núcleo familiar. Ou seja, observamos que estas atribuições têm um caráter formador em direção ao trabalho doméstico que atingem prioritariamente as filhas de uma globalização que excluí e amplifica as vulnerabilidades. Assim, como muitas mães se doam em função da maternagem, essa ideologia, experimentada desde cedo e em contextos já marcados pela vulnerabilidade, reproduz uma prática e uma subjetividade que compromete a vivência do lazer. Como produto das relações de gênero, as imagens produzidas vão 5

Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
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