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Política é coisa de homem: disciplinarização e representações ...

Política é coisa de homem: disciplinarização e representações ...

mulheres catarinenses na

mulheres catarinenses na política estadual retrata uma cena semelhante. Eram moças e senhoras que, aproveitando de uma inauguração do telégrafo, juntavam contribuições para a confecção de três bandeiras pátrias para os batalhões patriótico, naval e da milícia cidadã. “Avançadas femininas” que, com essa tarefa, representavam “uma força poderosa, sublime, invencível pela clarividência dos sentimentos afetivos em favor da grandeza da Pátria espezinhada por traidores miseráveis”. 2 Nesse momento, a “revolução pacífica” que dera início ao novo regime ficara para trás. A coalizão temporária entre interesses divergentes estava acabada e os grupos se digladiavam pelo domínio do poder, nacional e localmente. As disputas eleitorais e via imprensa permaneceram, mas muitos já partiam para a luta armada. A guerra civil se agitava em muitos cantos do país. A revolução federalista ensangüentava o Rio Grande do Sul há mais de um ano. O movimento da Esquadra Nacional desencadeara-se na capital do país. As duas revoltas se expandiam e se encontravam, fazendo da pacata Desterro, capital do Estado de Santa Catarina, a sede do Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil em desafio ao “anarquizador e subversivo” vice-presidente Floriano Peixoto. Os confrontos entre o exército legalista e o revolucionário se estendiam desde a bacia do Prata até Niterói, com outros pontos de conflito espalhados pelo país. Foi nesse contexto conturbado que as mulheres estrearam nos editoriais políticos dos jornais partidários de Santa Catarina. Uma imprensa que, durante todo o século XIX, fora impulsionada pelas lutas político-partidárias e que não tinha o poder público como alvo de seus ataques, mas como presa almejada pelos diferentes partidos. Tanto os jornais quanto seus produtores dependiam da administração pública para sobreviverem, os primeiros através de contratos de publicação oficial e os segundos, de cargos como funcionários. Não obstante, defendiam acirradamente a separação entre os setores público e privado, a construção de uma esfera íntima familiar, a divulgação das idéias de civilização e progresso, a disciplinarização e a modelização dos comportamentos sociais. Se a imprensa representava um espaço privilegiado de debate entre os grupos – sendo além de informante sobre a realidade política e sobre os políticos, espaço para se fazer política – não tratava apenas desse assunto. Em suas páginas apareciam também questões morais, sobre educação e ética, posturas urbanas e limpeza da cidade. Traço característico de todos os jornais que foi apropriado pelos grupos políticos em disputa, sendo associado aos diferentes projetos para o Estado, de modo a garantir-lhes legitimidade. Ou seja, por um lado os objetivos iniciais da campanha jornalística relacionavam-se com a luta partidária, por outro, a polêmica política não era autônoma, sua permanência na arena pública dependia da relevância dos temas abordados. Com as mudanças introduzidas pela adoção da República, os jornais se transformaram numa verdadeira arena pública, espaço para confrontos pelo poder simbólico de instituir o consenso e a interpretação de mundo aceita como mais adequada para guiar o Estado no novo regime. 2

Situados em lados opostos, os jornais Republica e O Estado se batiam e debatiam movidos por paixões e rancores partidários. Ambos conformavam os acontecimentos de forma a construir imagens, representações, identidades e distinções que mostrassem seus correligionários como os de maior moralidade, de patriotismo mais sincero e de maior fidelidade aos princípios republicanos. Em outras palavras, naquele período tumultuado em que o novo regime acabara de se instalar, não estando ainda consolidado e não havendo um consenso claro sobre como ele deveria transcorrer, ambos os partidos queriam construir – através dos discursos jornalísticos – a sua própria imagem e a do outro, buscando o estabelecimento da primeira como a mais correta e desejável, e recusando a segunda, relegada para o não-correto e não-desejável. Tentavam, pois, traçar por meio da imprensa a fronteira entre o permitido e o proibido, o sagrado e o profano, o bem e o mal, o normal e a anomalia. Nesse mesmo processo, procuravam fixar as diferenças entre os grupos, pretendendo reproduzir e perpetuar as relações. Em função de sua ligação com o poder e de acordo com a sua agremiação política orientavam suas linhas editoriais e se confrontavam na arena pública, muitas vezes subordinando a parte noticiosa, informativa e até mesmo literária às demandas polêmicas do momento. Em geral, era através de textos argumentativos que os redatores visavam o convencimento a respeito da verdade de sua interpretação para acontecimentos e problemáticas. Para atingir essa meta, os mais diversos recursos discursivos foram utilizados, desde termos que indicassem certeza a elaboradas argumentações retóricas com tom moralista, comoção popular e expressões universais do senso comum, com toda a sua credibilidade. Constantemente manipulava-se o grande poder persuasivo da imagem na construção de representações, em favor próprio ou contra o outro. E, embora segundo esse imaginário a cena pública não fosse lugar para as mulheres, elas não foram esquecidas. Antes do engajamento do Estado nos movimentos revolucionários, as mulheres simplesmente não apareciam. Era como se elas não existissem. Sem dúvida havia lugar para elas e os assuntos considerados de sua alçada nos jornais político-partidários. Folhetins, poemas, notícias amenas, artigos sobre o comportamento adequado para damas da elite, seções gerais, sobre a cidade e o mundo, literatura e artes, enfim, assuntos ligados à esfera privada também ocupavam as páginas dos periódicos República e O Estado. Tinham, porém, um lugar bem determinado na diagramação das folhas: o interior. Contudo, tratava-se de um espaço dedicado a elas principalmente enquanto leitoras, quase nunca como personagens. Em geral, não havia mulheres reais, pelo menos, nenhuma conhecida. No máximo, musas inspiradoras, amores impossíveis, grandes mulheres de outras sociedades. Eventualmente uma ou outra nota felicitando a carinhosa filha, a excelentíssima esposa ou a digníssima mãe de um dos políticos importantes do seu partido, cujo nome mal aparecia. Somente após o acirramento das lutas entre legalistas e federalistas as mulheres se tornaram personagens no discurso político dos jornais, merecendo por vezes artigos inteiros. No 3

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