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Política é coisa de homem: disciplinarização e representações ...

Política é coisa de homem: disciplinarização e representações ...

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entanto, seus papéis permaneciam claramente delimitados. Havia apenas três opções: elas podiam ser meras auxiliares desempenhando funções compatíveis à de mãe e dona-de-casa, ou vítimas dos horrores cometidos por homens inescrupulosos, ou então transgressoras – mulheres-macho ou loucas. Houve, talvez, uma exceção. Em todo caso, ela não era catarinense. O primeiro estereótipo feminino, e o mais comum, perceptível nos artigos de política dos jornais partidários desse período encontrava-se com mais freqüência nas páginas d’O Estado, entre fins de 1893 e princípios de 1894. Falavam daquelas moças e senhoras patrióticas preocupadas com a convecção de bandeiras ou fardas para os batalhões, com a realização de quermesses para arrecadar fundos para os combatentes, com as subscrições para providenciar ataduras aos feridos, com a organização de festas para receber os valorosos soldados, com a declamação de poesias para alegrá-los e a entrega de flores e brindes para honrá-los. Essas representações apareciam em artigos com nomes pomposos como “Patriotismo feminil”, ou em outros com títulos mais diretos como “Às senhoras”. 3 Em qualquer um deles, os redatores exaltavam o “acrisolado patriotismo” do “belo sexo” que se manifestava quando os fracos recuavam. Contudo, não nos enganemos: não se tratava de um patriotismo que as levava a pegar em armas. Muito pelo contrário. Não era isso que os redatores prescreviam. Mesmo em tempos revolucionários, esse não era um comportamento adequado. Pelo menos não às suas esposas, mães e filhas. O saliente papel delas na sociedade devia basear-se nos seus sentimentos, na sua capacidade de mitigar o sofrimento e a dor alheios e na educação moral que deviam fornecer às crianças para depois “depositá-las nas aras da Pátria”. 4 Tratava-se de uma “missão angélica de tutelar a sorte da humanidade”. Contudo, nesse momento turbulento para a Pátria, a posição delas também não devia ser de “inércia senão de utilíssima e convergente atividade”. Mas isso queria dizer apenas que elas deveriam incitar os bravos a não desanimarem; alentar os desesperados; curar os feridos; preparar- lhes vestuário e bandeiras; fornecer-lhes a comida. Ou seja, deveriam estender a todos os combatentes aquelas funções que já exerciam privadamente, em tempos de paz, em suas casas, como mães amorosas e esposas amantíssimas, educadoras dedicadas e enfermeiras zelosas. Além desses editoriais, existiam notas e notícias que ressaltavam seus feitos e suas conquistas. Mostravam as “mimosas catarinenses” que receberam com poemas, flores e aplausos os chefes federalistas – em recepções das quais se orgulharia qualquer anfitriã bem treinada e de boa família. No entanto, quando publicavam seus nomes, o faziam em separado e posteriormente ao dos homens presentes, dos “valorosos revolucionários”, sendo citadas como “excelentíssimas senhoras e adoráveis jovens”. 5 Novamente a extensão e a reafirmação de um papel que lhe era peculiar e aceitável: o de dona-de-casa. Com a diferença que agora arrumava não o lar para receber os amigos da família, mas enfeitava as ruas, preparava flores, belos poemas e jantares para receber seus ilustres convidados, distantes heróis da Pátria que passavam brevemente pela cidade. 4

Não obstante as festas, as ovações, as comissões de moças saudando e cobrindo de pétalas de rosas os líderes federalistas fossem aceitas na sociedade e retratadas como atos de patriotismo pelos escritores d’O Estado, as cenas no teatro político mudam. E, conseqüentemente, os comportamentos considerados adequados às mulheres dentro desse cenário também. Com a vitória das tropas legalistas e a “pacificação” promovida pelo interventor Moreira César ascendia uma outra visão do lugar feminino nas páginas políticas. Como disse um redator do República, às “moças, cada uma no lugar que lhe compete, isto é, na casa da família, ocupando-se nos agradáveis e proveitosos misteres do seu sexo” e “as flores a desabrocharem alegremente nos jardins”. 6 Emergia então o segundo estereótipo, cuja presença foi mais freqüente nas páginas políticas do República, embora tenha havido algumas matérias n’O Estado sobre as “pobres vítimas” de Júlio de Castilhos e de Floriano Peixoto. A partir de abril de 1894, com o início das represálias aos revoltosos – violências, perseguições, prisões e fuzilamentos – e a extinção do partido e do jornal adversários, o República passa a dedicar textos inteiros às mulheres. Elas saíam do anonimato e chegavam não só à seção política como à primeira página. Obviamente, porém, não se tratavam de mulheres que ocupavam cargos políticos. Nem mesmo de anfitriãs recebendo grandes líderes ou enfermeiras dedicadas curando às feridas causadas pela luta. Contavam-se as tristes histórias de pobres senhoras, pequenas órfãs, viúvas enlutadas e donzelas infelizes que haviam sido vitimadas pelos bandidos mercenários, pela “maragataria do sul” e pelos “piratas dos navios corsários”. 7 Os redatores usavam-nas para comover e convencer o público sobre a indignidade de seus adversários que saqueavam, incendiavam, estupravam e matavam impiedosamente, conspurcando o sagrado reduto do lar e retirando o sustento de famílias já vitimadas pelas dificuldades da guerra. Além disso, aproveitavam essas ocasiões para criticar aquelas senhoras catarinenses que os cobriram de flores “ao som dos hinos de guerra e das vozes demagógicas feminis que então lhe cantavam epopéias”. Afinal, mesmo desempenhando papéis aceitáveis, elas se metiam em assuntos que não lhes diziam respeito e que não eram capazes de entender. E, por isso, acabavam metendo os pés pelas mãos e ficando do lado errado. Assim surgia o terceiro estereótipo, o da transgressora, que justamente por mostrar de maneira humorística ou chocante os aspectos negativos das atitudes femininas, por aproximar-se do não-permitido e do desviante, reforçava mais fortemente o comportamento idealizado, aceito e considerado adequado às mulheres da elite desterrense. Não foi à toa que, nessa época, surgiram as colunas Busca-pés e Foguetes, assinadas respectivamente por Pirotécnico e Rojão. Nelas se apresentavam muitas fábulas irônicas sobre personagens femininos que, por terem se envolvido com a política tinham enlouquecido. Ora era a esposa que, por ler muito as matérias partidárias e as notícias sobre tiroteios e bombardeios, lutas e confrontos – que não se destinavam ao “sexo frágil” – acabava infernizando a vida do marido com 5

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