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Política é coisa de homem: disciplinarização e representações ...

Política é coisa de homem: disciplinarização e representações ...

igas diárias e

igas diárias e conflitos de travesseiros. 8 Ora a velha carola que, depois da derrota inacreditável do Aquidaban, brigava com o padre, quebrava as imagens dos santos e se recusava a pisar na igreja. 9 Não bastassem a ironia e as histórias exemplares para indicar às mulheres qual era o seu lugar, o comportamento desejável muitas vezes era explícito, como quando se aponta que “moça é para crochê e velha é para cafuné”. 10 As acusadas eram, claro, as mulheres federalistas, mesmo que essa referência fosse feita de uma forma velada. Por exemplo, quando se insinua que a comadre endoidou depois que “entendeu de atirar flores brancas, amarelas, azuis – que sei eu! – sobre aquela gente de calças de turco, que andou por aqui e desandou por aí afora”. 11 Mas os discursos sobre as transgressoras não se resumiam às loucas. Havia uma transgressão muito mais perigosa, a que resultava na representação da mulher-macho. Qualquer uma que se envolvesse demasiado em assuntos fora do domínio feminino – ou seja, que se imiscuísse nas questões sérias da vida pública, saindo da proteção do privado – ou que, dentro dessa esfera, tomasse atitudes definidas como não corretas, acabava perdendo suas características distintivas de mulher. Passava a ser retratada de forma a assemelhar-se a um homem. Caso de Antônia da Cunha que, cheia de ódios pelo carcereiro de seu amante, quis vingança. Uma vez vencida a batalha e tomada a cidade da Lapa, exige que seus irmãos federalistas prendam o inimigo e degolem-no impiedosamente. Os redatores descreviam-na como “alta, esgalgada, com os cabelos aparados a modo masculino, a fisionomia, entretanto, cheia de traços de uma simpatia varonil”. Mais que isso, ela certamente “devia ser antes um bom camarada de exploração arriscada do que uma bela namorada carnal”. Não bastasse essa descaracterização, ela ainda era taxada como “monstruosidade do sexo”. E, como “recordação sinistra da ferocidade feminina”, recomendava-se às “boas mães de família” – coisa que, evidentemente, nesse imaginário ela não era, nem nunca poderia ser – que evitassem pronunciar esse nome “aos ouvidos de vossas ingênuas e gentis filhas”. 12 Afinal, apenas saber de tal anormalidade poderia “desencaminhar” as boas moças da conduta considerada correta. Houve um único exemplo não estigmatizado nessas folhas. Contudo, ele não apresentava um caso catarinense. A exceção foi dona Luzia Portinho, “imponente chefe federalista” 13 da região de Cruz Alta. Com certa reverência, o jornal a descrevia como uma “bela e respeitável senhora”, respeitada por seus partidários, uma verdadeira “heroína rio-grandense”. 14 Não obstante, mesmo ela não escapou totalmente aos estereótipos femininos, uma vez que foi retratada como emigrada injustamente perseguida e presa. Ou seja, como uma vítima, mesmo que fosse uma vítima ativa. 15 Mais ainda, ela própria se define, numa carta, como “pobre mulher, fraca e sem valor” que, não podendo pegar em armas como os homens, luta como compete à mulher: com o convencimento pelas palavras e pela emoção. 16 Desse exemplo pode-se compreender tanto que algumas mulheres 6

aceitavam e reproduziam os comportamentos construídos para elas, quanto que os utilizavam como meio de transgressão e de libertação. Apesar disso, existiam escritores como Graccho Cardoso que não acreditavam na existência de “moças federalistas”. Afinal, aquele ser onde o “sábio Artista” colocou as maiores virtudes, seria incapaz de, com a música do roçar de seus vestidos, impelir alguém a conduzir o guião do despotismo. Mães, irmãs, esposas, vós que sois as santas do lar, encarregadas de desviar-nos das misérias da vida, vós não podíeis com a brancura diáfana de suas almas, entorpecer o coração de vossos filhos, irmãos, maridos, envenená-los com a fragrância a transbordar de vossas bocas, não, não ateastes com o vosso hálito sobreceleste o incêndio de uma luta sem glórias, não, não manchastes as róseas mãos mergulhando-as no sangue fratricida. 17 Ou pelo menos, nisso queriam crer os escritores. Melhor, era nisso que eles queriam fazer crer. Todos esses estereótipos não necessariamente designavam ações e comportamentos das mulheres que viviam naquela sociedade. Mais que exemplos de condutas, essas imagens mostram um modelo que os redatores, embaixadores das “luzes” nessa cidade provinciana, gostariam que fosse adotado. Em qualquer dessas representações reforçava-se um comportamento idealizado, considerado aceitável para as mulheres e esperado delas. Acima de tudo, esses artigos cômicos, comoventes ou ufanistas deixavam claro que a política não cabia ao sexo feminino e que ultrapassar essa fronteira era adentrar nos limites do anormal e do monstruoso. Mesmo assim, sempre houve as que ousaram, principalmente em momentos de exceção como as guerras e revoltas civis. Não foi diferente durante a Revolução Federalista em Santa Catarina. Bibliografia: CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da república no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. GOMES, Mayra Rodrigues. Poder no jornalismo: discorrer, disciplinar, controlar. São Paulo: Hacker Editores; Edusp, 2003. PEDRO, Joana Maria. Mulheres honestas e mulheres faladas: uma questão de classe. Florianópolis: Editora da UFSC, 1994. 1 CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da república no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 92. 2 “A bandeira da Pátria”. O Estado. n.269, Desterro, 05/nov/1893, p.1. 3 Respectivamente: O Estado. n.283, Desterro, 23/nov/1893, p.1. e O Estado. n.288, Desterro, 29/nov/1893, p.2. 4 “Às senhoras”. O Estado. n.288, Desterro, 29/nov/1893, p.2. 5 “Coronel Salgado”. O Estado. n.276, Desterro, 14/nov/1893, p.1. 6 “Ontem e hoje”. República. n.26, Desterro, 23/mai/1894, p.1. 7 “As destruições”. República. n.5, Desterro, 26/abr/1894, p.1. 8 “Um bombardeio”. República. n.55, Desterro, 27/jun/1894, p.1. 9 “Foguetes”. República. n.56, Desterro, 28/jun/1894, p.1. 10 “Um bombardeio”. República. n.55, Desterro, 27/jun/1894, p.1. 11 Idem, ibidem. 7

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