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Escrevendo a história no feminino - Fazendo Gênero - UFSC

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Anais do VII Seminário

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 política para as mulheres, a liberdade na escolha da profissão, a saída para o mercado de trabalho, a liberdade nos relacionamentos e na hora de escolher as roupas que irá vestir. Para a leitura destes textos, formei seis grupos de alunos e a cada um deles distribui um tópico da reportagem. Foi possível perceber que a matéria, apesar de querer parecer inovadora – traz como exemplo Betty Friedan, fundadora da Organização Nacional da Mulher (NOM), em Washington, EUA, e as Spice Girls (Garotas Temperadas), ídolas das garotas nesta época – apresenta, no conteúdo da matéria, indícios que apenas reforçam os papéis masculinos e femininos. O exerto inicial dessa matéria mostra como a pílula anticoncepcional inova, proporcionando a liberdade sexual para as mulheres, mas, ao mesmo tempo, reforça a idéia de quem tem que se previnir de uma possível gravidez são as meninas: « A mudança veio em caixinhas com vinte e um comprimidos : a pílula anticoncepcional. Ela significava a garantia do direito de transar e afastava a possibilidade da gravidez – o que libertava as meninas de um grande risco ». Vemos, através da palavra meninas, que a reportagem atribui apenas ao público feminino a responsabilidade da gravidez, não citando os meninos como co-responsáveis, caso ela aconteça. Ainda, neste mesmo trecho, temos a seguinte afirmação: « Afinal, em caso de gravidez, a parte mais complicada ficava com a menina: chilique dos pais, escâncalo familiar, fofocas, cuidar do filho.» Aqui há a reafirmação de que o papel da mulher é o de evitar a gravidez, pois, caso aconteça, ela é quem terá que arcar com as conseqüências, que são demonstradas pela seqüência chilique dos pais, escâncalo familiar, fofocas e, por último, cuidar do filho. Aqui está de forma explícita, o papel atribuído à mulher, que é primeiramente evitar a gravidez e, caso ela ocorra, cuidar do filho. Podemos notar que os meninos novamente não aparecem também como responsáveis por cuidar do filho, nem sua família é citada. No segundo exerto da matéria, a mudança discutida é a liberdade de escolha das roupas, que traz um aspecto muito importante ao ressaltar que as mulheres nao precisam deixar de lado sua vaidade para serem respeitadas, remetendo à luta de 1968, em que foram queimados sutiãs, cílios e unhas postiças como protesto contra o concurso de Miss América. Este ponto foi muito importante, pois no começo pensava-se que para ter os mesmos direitos que os homens, as mulheres precisavam vestir-se e ter atitudes iguais as deles e, felizmente, agora sabemos que isso nao é mais preciso. A terceira parte da matéria traz a luta das mulheres por seus direitos políticos, tanto para votar, como para serem votadas. Um dado importante é apresentado, dizendo que « hoje, para garantir espaço para a mulher na política brasileira, todos os partidos são obrigados por lei a ter 25% de candidatas mulheres». Conquista por parte das mulheres ou espaço cedido através de lei que regulamenta? A conquista da participação feminina nos processos eleitorais é muito 4

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 importante e a lei que regulmentou essa participação é importante também, pois dá à mulher a garantia de que terá vez e voz no processo que escolhe os representantes do país. Destaco, deste fragmento, a seguinte afirmação: « No século passado, as mulheres lutaram para votar, hoje brigam para ser eleitas. No lugar de ter que pedir mudanças aos homens, agora elas mesmas sugerem e aprovam as mudanças». Aqui, podemos fazer a oposição das idéias através das palavras lutarm/brigam, votar/ser eleitas. Àquele está no passado, este no presente. « Brigar » em oposição a « lutaram » dá uma idéia de maior envolvimento, de ir realmente atrás daquilo que querem. A oposição entre votar/ser eleita nos traz a mudança: antes, a luta apenas pelo direito de poder das sua opinião no processo eleitoral, agora, a briga para serem eleitas. Neste mesmo fragmento do texto que destaquei, pode-se notar a mudança através do trecho « No lugar de ter que pedir mudanças aos homens, agora elas mesmas sugerem e aprovam essas mudança..» A inovação da relação de poder entre homens e mulheres está aqui: antes, as mulheres eram submissas aos homens, se quisessem alguma mudança era necessário que eles dessem seu aval ou dissessem sim ou nao. Já atualmente, as mulheres são donas de si, elas mesmas sugerem e aprovam as mudanças que desejam. Já, no quarto exerto da matéria, são apresentados mais alguns dados como a participação feminina no futebol e em profissões como a Medicina, além da entrada das mulheres em instituições de ensino superior como o ITA. O quinto fragmento, acredito que seja o que mais reforça os papéis dos homens e das mulheres na sociedade, trazendo como tema a saída da mulher para o mercado de trabalho. « Lugar de mulher é no fogão ? Não exatamente. O microondas chegou poupando o tempo da mulher para trabalhar, cuidar da casa e viver a vida ». Podemos perceber que todo o discurso é voltado para as mulheres, através da seqüência « poupando o tempo da mulher », bem como « cuidar da casa », tarefa que também está remetida à mulher e « viver a vida ». No momento em que lemos o fragmento : « lugar de mulher é no fogão ? », esperamos como resposta « Não », afinal, estamos diante de um texto que discute mudanças, porém, há uma quebra de expectativa ao termos como resposta « Não exatamente ». O lugar de mulher não é no fogão, mas sim, no microondas « O microondas chegou poupando o tempo da mulher ». Embora o microondas tenha sido um benefício, pois poupa o seu tempo, ela continua amarrada a « cuidar da casa », e o tempo que lhe sobra em função das inovações tecnológicas pode ser usado para « trabalhar e viver a vida », ou seja, participar na renda da família bem como se divertir. Já que tudo se tornou tão fácil, porque os homens não passaram a realizar este trabalho ? A imagem da mulher ligada ao ambiente doméstico ainda aparece de forma muito forte, embora haja a 5

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