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Rosangela de Araujo Lima - Fazendo Gênero

Rosangela de Araujo Lima - Fazendo Gênero

microssociológico,

microssociológico, contudo, não menos importante, que o estudo macrossociológico. Simmel (1983) afirmava-se inclinado a uma Sociologia Filosófica ,posto que seus escritos espraiavam-se (e espraiam-se ) sobre questões um tanto quanto metafísicas , colocando o individual sobre o coletivo ,porém ,isso não retira-lhe toda genialidade como sociólogo de peso ao lado de Marx, Weber e Durkheim. Para ele, é a interação, a sociação entre os indivíduos o que está no centro de seus escritos; por outro lado,no atual momento acadêmico, onde o surgimento de novos paradigmas epistemológicos emergem solidamente, Simmel nunca foi tão condizente, a partir dessa transversalidade de seus escritos; um outro ponto, é que ele, ao oposto de Marx, Durkheim, não advoga um sistema societal, apresentando-se ambivalente em sua análise do devir das sociedades complexas gestadas e geradas pelo projeto moderno. Pouco valorizado em sua época, dado sua ascendência judia, Simmel é resgatado nos anos 80 do século XX, após a derrocada do socialismo real, a queda do muro de Berlim e a adoção do Neoliberalismo nas políticas de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, que vieram desestabilizar as idéias iluministas de um crescimento evolutivo e humanizado dos seres humanos após a massificação estabelecida no medievo. O Diário de Campo na experiência com a Rede Feminina de Combate ao Câncer-RFCC As Visitas Domiciliares Iniciei minha entrada no HNL como voluntária da RFCC. Essa foi uma maneira de tomar contato com o ambiente de pesquisa, bem antes de oficializar minha entrada como pesquisadora junto a Direção do hospital, posto que estivesse ainda a cursar créditos e não poderia iniciar minha coleta de dados. Passei seis meses como voluntária, não só no hospital, como também, na equipe de visitação domiciliar, a qual se constitui numa provável equipe “multidisciplinar”, mas que ficam lacunas muito fortes em algumas profissões, uma vez que o trabalho é voluntário; éramos: duas psicólogas, uma assistente social, uma nutricionista e um técnico em enfermagem; essa equipe saía às quintas- feiras, das 14h00minhoras as 17h00min horas, o objetivo era visitar pacientes (FPT, ou não) nos seus domicílios e levar-lhes uma cesta básica e produtos de higiene pessoal, além da procura de oferecer algum tipo de apoio psicológico e social. A visita era feita numa Kombi, bastante usada, com o motorista da RFCC (único funcionário da equipe) Seu Estevão que sabia simplesmente, todos os endereços da grande João Pessoa ( João Pessoa , Bayeux ,Cabedelo, Santa Rita) .A cada visita, íamos a um ,dois ,até três bairros de uma dessas cidades ,de modo a alcançar a meta de umas cinco residências . Na primeira ocasião em que participei, coincidiu com a morte do ator Raul Cortez, por câncer de próstata, aonde chegávamos, o/a paciente (e seus familiares ) de imediato, falavam no assunto ;era perceptível discernir nos seus discursos de como essa doença é traiçoeira, o temor da

morte; havia referências a excelente condição financeira do ator, que mesmo assim havia sucumbido à doença ,apesar de todos os recursos .Palavras como câncer e morte não eram absolutamente pronunciadas por todos/as que escutei naquela tarde.Um outro ponto que me chamou atenção, foi o fato que as mulheres enfermas eram cuidadas por outras mulheres, mesmo quando havia homens “disponíveis” para exercer o papel de cuidador; eram vizinhas que se organizavam no cuidado da doente, se essa não tivesse uma filha, sobrinha ou outra parente que se dispusesse ao papel de cuidar. Esse fato continuou repetindo-se no decurso dessas quintas-feiras, pois, à exceção da ausência das palavras câncer e morte, foram a questão de gênero, o que mais se destacou como fato de relevância nas visitas. Nas casas em que havia um doente, esse recebia assistência integral de todo nicho familiar, em especial, se fosse o pai:- a família orbitava ao seu redor, por mais carente que fosse economicamente falando; no caso em que as mulheres estavam enfermas, contavam com o apoio de outras mulheres (familiares, amigas, vizinhas) ou se cuidavam sozinhas mesmo quando havia homens na residência. Nessa perspectiva, o caso mais absurdo que vi (relaciona-se indiretamente com a temática,no que se refere a enfrentamentos do câncer e da morte, sob a ótica de gênero ) foi de uma senhora de seus cinqüenta e poucos anos ,residente num bairro periférico de João Pessoa. Nos recebeu muito cordialmente, em sua pequena sala, a qual era ao mesmo tempo, uma lojinha de vender roupas e uma mercearia de venda de produtos de limpeza, que haviam sido dados pelo Governo do Estado da Paraíba, após ela haver escrito uma carta relatando sua precária situação, pois não era aposentada pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) e estava passando por privações de toda ordem .Ela tinha câncer há quatro anos, e nos últimos meses, apresentara uma recidiva; submetera-se a quimioterapia/ radioterapia, mas estava sofrendo muito com seqüelas estomacais dos tratamentos ;essa senhora era casada e tinha um filho de vinte e um anos, ambos pai e filho estavam desempregados. Ao mesmo tempo que recebia, atendia algumas pessoas que iam ao seu pequeno negócio para compras; apresentava cansaço intenso e estava muito pálida. Perguntamo- lhe pelo esposo ou filho, a que nos respondeu que o marido estava numa rede na parte posterior da residência e o filho, no outro lado da rua, sentado, chupando um picolé! Aquela mulher ainda nos informou que cuidava de uma irmã, doente mental (pude aferir psicótica, pelo relato) a quem tinha muitas vezes que sair á procura, pois os medicamentos às vezes faltavam e sua irmã entrava em surtos bastante violentos os quais a impeliam a fugir de casa. Saí me sentindo bastante mal sobre aquilo tudo, sentimento que a equipe, também, demonstrou espontaneamente, pois sempre tinha o cuidado de não revelar minhas impressões sobre cada paciente visitado/a. Um paciente que suscita destaque é Seu Agenor, com câncer de traquéia FPT, fui vê-lo umas quatro vezes, com a equipe. Ele estava na fase depressiva (dos estágios de Elizabeth Kübler-Ross

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