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Rosangela de Araujo Lima - Fazendo Gênero

Rosangela de Araujo Lima - Fazendo Gênero

(1975, 1979, 1991, 1998,

(1975, 1979, 1991, 1998, 2002, 2003, 2004,2005), mas queria falar sobre a morte mesmo assim [...] lamentava deixar a esposa e uma filha e um filho (que estavam em casa na hora da visita ), o médico dissera-lhe que nada havia por ser feito ,além da cirurgia a que se submetera (usava uma cânula ), pois o tumor era muito grande ,não havia sido removido todo e respondera mal a quimioterapia e a radioterapia . Isso fora há uns dois meses de nossa primeira visita , e na segunda visita, um mês após, o paciente, estava se alimentando bem, um pouco menos pálido e o humor melhor, é importante ressaltar o carinho que aquele nicho familiar dispensava ao paciente ,tudo orbitando em torno dele: cuidados, alimentação, programas televisivos, enfim, aquilo que se fizesse necessário para melhorar-lhe o ânimo. No Hospital O voluntariado da RFCC apresenta-se com crachá, camiseta padronizada (rosa para as mulheres e azul para os homens) e jaleco (também com as mesmas cores) ,para que possam transitar no hospital ,livremente,para o local que foram designadas-/os .Cada voluntária/o tem um lugar específico que deve prestar sua ajuda: Enfermaria de clínica médica, radioterapia, cirurgia, quimioterapia, entre outras. É perceptível como há a ideologia que o papel de cuidar é reservados às mulheres, os homens que trabalham no voluntariado, são tratados muito reverentemente por suas colegas. O horário é de acordo com a vontade de quem deseja ser voluntário /a, variando de um turno semanal até toda semana, fica ao critério de cada um /a, porém a RFCC pede que o compromisso seja cumprido rigorosamente, embora haja muita falha nesse aspecto. Uma das primeiras contratações que tive foi a de que há uma íntima relação entre câncer, classe social e gênero, não sob a perspectiva epidemiológica (e poderá até o ser, em alguns tipos da doença), mas sob as tramas da sociedade mesmo. É perceptível aos olhos e ouvidos de quem está atento as histórias relatadas em visitas sem tempo estipulado, como as que o voluntariado proporciona, o pouco caso em termos de retardo no diagnóstico de pessoas usuárias do SUS. Na enfermaria de radioterapia, muitos foram os relatos ouvidos por mim, em um deles existia o caso de Dona Olívia de um pequeno município paraibano recém emancipado, eis a história: a paciente percebera três anos atrás que um pequeno nódulo crescia na sua vulva, precisamente no Monte de Vênus, procurou a médica do PSF de sua área de abrangência do município X, era uma zona rural e a paciente contava mais de sessenta anos ;obteve como resposta que aquilo nada era, insistiu, meses após, quando a tumefação aumentou de tamanho e assim continuou por um período de quase três anos, quando decidiu ir a um médico particular numa cidade maior, aonde, após o exame, foi imediatamente encaminhada para o HNL ,local em que recebeu o diagnóstico e iniciou o tratamento radioterápico. Essa senhora estava só e eram as outras pacientes quem lhes ajudava. Ela não podia quase mover-se, muito menos ficar em pé, pois a radiação ferira toda região da vulva e ânus,

formando uma imensa ferida bastante dolorosa. Era enorme sua mágoa em não ter sido ouvida a tempo de uma outra intervenção. Dona Olívia tinha enteados, sobrinhos, mas só era visitada pela esposa de um dos enteados (com quem se dava muito bem ) e cuidada pelas outras pacientes .Conversamos muito, mas sempre havia uma colega de quarto, que também necessitava de escuta e nos interrompia todo tempo. A solidão das enfermas sem companhia feminina era enorme! Havia, também, pacientes que chegavam sem nenhuma idéia do que realmente tinham, ou que a que procedimentos terapêuticos iriam se submeter. Foi o caso de Fátima, câncer de útero, veio do interior do Estado da Paraíba ,acompanhada da filha ;eu estava lá no dia em que foi admitida na enfermaria de radioterapia ,esboçava um sorriso largo no rosto e nenhuma preocupação [...] Após uns vinte dias, estava com o cabelo caindo, tomava quimioterapia associada à radioterapia (era uma cabelo nos ombros, liso e sedoso) e um triste sorriso nos lábios; para mim foi muito forte, porque eu ficara sem vê-la todo esse tempo, por ter ido participar de um evento no sul do país. E revê-la daquele modo, foi muito pesado. Imagino se não seria possível uma conversa franca com os/as pacientes que irão se submeter a terapias agressivas, com o intuito de preparar-lhes para o que irão enfrentar. Durante os seis meses em que fiquei como voluntária, inúmeras vezes tive oportunidade de ver homens doentes sendo acompanhados e cuidados, mui zelosamente ,por mulheres ,mas muito pouco vi ,homens cuidadores e quando os vi ,acompanhavam outro homem , só vi um caso em que o companheiro estava ao lado de sua parceira , sendo bem peculiar porque ele era uns quinze anos mais jovem que ela, mas a paciente “irradiava” energia, força de vontade e o casal estava visivelmente apaixonado, havia muita troca de carinho em suas falas e atitudes, um para com o outro eram muito pobres (me informaram nas visitas ),mas havia muita cumplicidade entre eles .No mais, presenciei solidão feminina nas enfermarias daquele hospital de enfretamento do câncer . Referências Bibliográficas ELIAS. Norbert. (2001). A Solidão dos Moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. KÜBLER-ROSS (1975). Morte: Estágio Final da Evolução. Rio de Janeiro: Editora Recordes. ___________________.(1985).Perguntas e Respostas sobre a Morte e o Morrer. São Paulo: Martins Fontes. ___________________.(1991). A Morte: Um Amanhecer. São Paulo: Pensamento. ___________________.(1998). A Roda da Vida. 6.ed. Rio de Janeiro .:Sextante. ___________________.(2002). Sobre a Morte e o Morrer. 8.ed. São Paulo: Martins Fontes. ___________________.(2003). O Túnel e a Luz. Campinas: Versus Editora. ___________________.(2004). Os Segredos da Vida. Rio de Janeiro: Sextante. ___________________.(2005). Viver até dizer adeus. São Paulo: Pensamento

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