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Desafios a partir de permanências e rupturas, seelhanças e ...

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Anais do VII Seminário

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 rapidamente “paus para toda obra”, um agrupamento de masculinidades subalternizadas, mão-deobra útil para a zona sul da Cidade do Rio de Janeiro em franca expansão. 4 As mulheres da Rocinha sempre trabalharam, mesmo que intermitentemente, pois, “no mundo dos pobres”, são consideradas tão úteis para o batente quanto os homens, mas “o que os diferencia [...] é o trabalho doméstico, atribuição feminina, determinada pela ordem da ‘natureza’” 5 ressaltando que a dupla ou até tripla jornada de trabalho era inerente à vida da favelada. Muitas mulheres na Rocinha desejaram se dedicar integralmente à criação de seus filhos, mas isso constituiu um sonho passageiro, pois era necessário complementar a renda familiar e, por vezes, garantir o sustento total da família. Dentre as atividades femininas, as lavadeiras foram numerosas tanto na década de 1940, quanto quarenta anos depois, porque o trabalho domiciliar remunerado, mas desqualificado, de lavar e passar roupas permitia às mulheres tomar conta da prole e ao mesmo tempo perceber alguma renda, numa época em que não existiam máquinas de lavar roupa, levando as mulheres burguesas a buscarem os afazeres baratos das lavadeiras. Dessa forma, vemos que as mulheres da Rocinha tiveram seu ganha-pão profundamente determinado pelas relações de gênero que responsabilizam as mulheres pelo cuidado da prole e do lar, obrigando-as a exercer, na medida do possível, uma tarefa paga que coadunasse com essas precípuas funções. Lavavam roupa para “casa de madames” da chic Zona Sul carioca, utilizando o riacho na Rocinha que, em épocas passadas, ainda corria limpo e passavam roupas brancas, algumas engomadas, com o ferro a carvão. Cobravam por peça lavada e passada, cujo controle da entrega e da devolução eram assentados em caderninhos, o “rol de roupas”, conferidos pelas patroas. Analisando suas condições de vida e trabalho, verificamos que sua faina remunerada, mesmo sendo realizada em casa ou muito próxima a essa, era pesada e estafante: houve período que uma de nossas entrevistadas lavava e passava roupa para 40 famílias de classe média, sem ter acesso a água encanada e, em determinadas épocas, tendo de utilizar o ferro a carvão. Mas também lavou toalhas e guardanapos para restaurante e roupas de hotel. Carregando várias trouxas de roupa, em certas ocasiões até quatro, precisavam andar a pé nas ruelas do morro, enfrentavam filas de lotação, em determinados períodos, duas vezes por dia, tendo de contar, quando podiam, com o auxílio dos filhos. Além disso, essa atividade, vez por outra, trazia prejuízos financeiros por várias razões. As contendas interpessoais entre as lavadeiras faziam com que deixar a roupa a secar ou a corar, sem estar a vigiar por perto, constituísse um perigo. A rival poderia, colocando água sanitária, manchar ou estragar o tecido. Dessa forma, a incauta tinha que ressarcir à madame o preço do fato. Se esse fosse caro, poderia lhe levar o recebimento do trabalho do mês. Seus instrumentos de trabalho eram uma bacia, sabão ordinário, às vezes, um tanque de cimento rudimentar, a força de suas mãos e o pesado ferro de passar roupa. Afora isso, essas mulheres sozinhas cuidavam de vários filhos, pois o marido passava o dia fora, cozinhavam e lavavam para todos, sendo que essa lide caseira ainda não contava com os 2

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 aparelhos eletrodomésticos que só surgiram na cidade a partir da década de 1950, atingindo primeiramente os estratos ricos e médios da população. Essas mulheres quando chegaram à Rocinha, no início da década de 1940, cozinhava em um fogareiro a carvão, depois em um fogão de pedra à lenha, cujo uso constante deve ter contribuído para o desflorestamento da área e, provavelmente na década de 1950, passaram para o fogão a querosene e, no decênio seguinte. para o a gás de cozinha, cujo botijão tinha inicialmente de se encomendar fora da favela, só o recebendo três dias depois. Além desses trabalhos, a caça por ganhar um “dinheirinho” extra, levara algumas delas a exercer pequeno comércio na frente de seu barraco. Obtinham também outros trocados, fazendo lanches para casamentos e aniversários ou trabalhando como faxineira, arrumadeira, lavadeira, cozinheira, sob a forma de diarista. Todavia, a possibilidade de lidar em casa não ocorreu a todas: muitas tiveram de trabalhar fora da residência, a tempo integral, como empregadas domésticas, cozinheiras, copeiras, deixando seus filhos com parentes, vizinhos, em creches populares ou em casa ao deus dará. A história de vida dessas mulheres exemplifica a integração social através do trabalho manual e feminino. Mesmo que mal remunerado, garantia a sua não desvinculação social, mas não lhes retirava, pela extrema precarização, da faixa da vulnerabilidade. As condições de trabalho feminino na favela, muitas vezes, interferiam no processo de saúde, possibilitando doenças que se não apareciam de imediato, revelavam-se na terceira idade após o desgaste físico e mental ao longo da vida. Muitas antigas lavadeiras da Rocinha atribuíam as doenças na velhice, em especial as dores nos joelhos, ao trabalho intenso de lavagem de roupa agachada dentro das águas do córrego, assim como ao ficar horas de pé passando roupa. Mas talvez não percebessem que elas também poderiam derivar da enorme quantidade de trouxas pesadas que carregavam simultaneamente. Semelhantemente às mulheres pobres brasileiras, as da Rocinha tiveram grande prole. As grávidas, em geral, realizavam as paridelas em casa, recorrendo às parteiras residentes na favela, que, no início da década de 1970, já atingiam a casa de meia centena 6 . Em casos graves e excepcionais, procuravam os médicos obstetras, em especial, do Hospital Miguel Couto e, quando se desejava, juntamente com o parto, realizar a laqueadura das trompas, recorriam, clandestinamente, a médicos particulares. Essa decisão derradeira e corajosa, só tomavam quando, às vezes, já possuíam mais que uma dúzia de filhos. A extensão da prole era, dependendo de suas faixas etárias, um fator de aumento ou de diminuição do risco de vulnerabilização dos membros de uma família. Nas décadas de 1940 e 1950, quando os métodos anticoncepcionais químicos eram frágeis, a prole extensa tornava-se uma fatalidade para o casal ainda jovem, pois trazia maiores sacrifícios para manter a família fora da zona de risco do processo de vulnerabilização social. No entanto, atingindo os filhos à idade adulta, 3

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