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Desafios a partir de permanências e rupturas, seelhanças e ...

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Anais do VII Seminário

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 tornavam-se trabalhadores, importantes agregadores de renda para a unidade familiar, sendo esta solidariedade filial significativa no amparo dos pais na velhice. O aborto, apesar de ser no Brasil ilegal, era uma prática muito comum entre as mulheres na Rocinha, quando ainda não se havia descoberto a pílula anticoncepcional. Algumas realizavam-no, sozinhas, e, vez por outra, com talo de couve (sic), outras, com parteiras e “curiosas”, mas também com médicos. A precariedade na saúde reprodutiva feminina, com dificuldade de acesso aos serviços de saúde pública ou mesmo de informações sanitárias, acarretava-lhes vulnerabilidades, tais como morbidades, menor esperança de vida e, inclusive, mortalidade materna e infantil. Na Rocinha, nas décadas de 1940 a 1950, com certeza predominava o senso comum brasileiro sobre as relações de gênero. Alba Coelho, uma antiga moradora da favela, por exemplo, igualava todos os homens na moral sexual, tornando-os mais permissivos: um homem e um cachorro é a mesma coisa: meu marido dizia isso pra mim. Tanto fazia ele dormir dentro de casa, como na sacada da casa, era a mesma coisa. Agora, mulher não podia dormir na casa da mãe dela nem uma noite: assim meu marido dizia pra mim. Então eu não saía pra lugar nenhum a não ser pra trabalhar. Mesmo eu saindo pra trabalhar, com trouxa de roupa na cabeça, bolsa do lado, ele ainda ia me vigiar lá na rua. [...] Ele tinha um ciúme que nem com a minha mãe ele gostava que eu conversasse. [...] Se eu fosse na idéia dele, eu tinha morrido há muito tempo. Mas não, eu não fui na idéia dele, fui na minha. Esse testemunho feminino revelava não apenas a visão mais laxa que as mulheres tinham do comportamento dos homens, mas também a sua resistência em não obedecer por completo, mesmo em uma sociedade androcêntrica, os ditames dos maridos. Talvez os comportamentos morais mais permissivos, as suas vidas mais voltadas ao público, ou seja, as maiores exposições aos perigos típicos dos estilos de vida próprios ao gênero masculino na sociedade carioca explicassem as taxas de mortalidade mais altas entre eles que entre as mulheres. 7 Provavelmente, na Rocinha, seguia-se a tendência do gênero masculino tem sido mais afetado por mortes violentas derivadas de quedas acidentais, desastres de carro, assassinatos, suicídios e afogamentos. Os homens, no Brasil, são mais suscetíveis que as mulheres às lesões, aos traumatismos, às queimaduras, aos envenenamentos e às intoxicações por substâncias nãomedicinais. Ademais, por serem, em geral, mais fumantes que as mulheres, são mais aptos de adoecerem e de morrerem por doenças causadas pelo tabagismo. 8 O grau de miséria e de violência na favela mais do que nunca devem ter potencializado essas variáveis. Não tão comum entre os velhos entrevistados, mas já presente, a família na Rocinha, mesmo vivenciando o ambiente de uma sociedade androcêntrica, tendia, cada vez mais, a se apresentar como fruto de “casamentos ou parcerias sexuais mais instáveis; a ênfase ideológica e normativa não está colocada na família nuclear, mas na relação mãe-prole”. O gênero masculino favelado, mesmo que destinado à “condição de um ‘patriarcal potencial’” não era “possível alcançar devido à 4

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 impossibilidade de preencher o papel de provedor”. 9 Havia casos freqüentes de homens que fragilizaram o núcleo familiar pelo abandono parcial ou total ou mesmo pela violência doméstica que exerceram. Essas famílias matrifocais apresentam um maior grau de vulnerabilidade social. 10 Na Rocinha, para uma população pobre, restava entre meados da década de 1930 e meio da de 1960, pouca possibilidade do lazer nos fins de semana, sendo os grandes divertimentos aqueles que demandam pouco dinheiro. A prática de jogos esportivos eram um privilégio da masculinidade. Desde meados da década de 1930, já existia o Esperança Futebol Clube, participante de campeonatos com os times do Leblon e da Rua Marquês de São Vicente, na Gávea. Assim, na década de 1930, o futebol já se encontrava disseminado nas camadas populares de uma nascente favela, estabelecendo amizades entre as masculinidades dos favelados e a dos pobres dos bairros circunvizinhos. Fora isso, restava o homem ter a sua sociabilidade construída, em especial, como freguês de botecos e biroscas, onde se arrumava os companheiros de copo, gerando o vício do alcoolismo que os vulnerabilizava especialmente. 11 Os homens, em especial, e as mulheres faveladas foram desde a Belle Époque criminalizados como vagabundos, ratoneiros, mulheres de vida fácil e outros tipos de infratores. A situação deles não era colocada como fruto da desagregação social, mas como geradora da mesma. A grande preocupação da burguesia carioca, em geral, não era com as vis condições de vida e trabalho dessas populações, mas com a manutenção e defesa dos seus bens e de suas comodidades. Criminalizava-se todos os favelados, quando se afirmava que quem estava na favela não eram “verdadeiros trabalhadores”, mas a “escória humana” portanto, os maculados e impuros, os “contraventores”, ou seja, transgressores, que faziam “de suas moradias verdadeiros antros de perdição e de crime”. 12 Todavia, após a década de 1980, a situação tornou-se mais complexa: aos padrões de masculinidades e feminilidades marginalizadas aditaram-se a dos narcotraficantes e a de suas companheiras. Esse temor à favela continuamente vem gerando, por parte dos poderes, políticas de controle, de moralização, de tutela e, mais freqüentemente, de repressão, em especial, sobre os homens favelados. Todavia, a insegurança social não era uma prerrogativa dos moradores “do asfalto”. Os favelados conviveram com dois tipos de violência: a provinda do policial e a do traficante, ambas pejadas da masculinidade como um ethos belicoso e guerreiro. A violência policial contra a população local gradativamente aumentou, sendo percebida, na década de 1980, como muito maior do que nos dois decênios anteriores. Neste novo tempo, um velho da Rocinha atestava ter “mais medo da polícia do que do vagabundo”. 13 Na “comunidade”, o homem possuía a consciência que, residir lá, significava ter, de repente, a sua casa invadida pela polícia e ser capturado como um transgressor, mesmo sem “ter culpa no cartório”. Inclusive, um favelado, não portador de carteira de 5

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