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Desafios a partir de permanências e rupturas, seelhanças e ...

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Anais do VII Seminário

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 identidade ou de trabalho, mesmo que trajasse roupa suja de tinta e cimento, que o identificava como um trabalhador da construção civil, podia ser considerado suspeito de criminalidade e conduzido à delegacia, como se o ônus da prova coubesse ao acusado. Muitos moradores da Rocinha conviveram com criminosos, silenciando sobre os mesmos, caso contrário, ficavam sem casa e, às vezes, sem a sua vida ou a de algum ente querido. Outros presenciaram inocentes adultos e até crianças serem abatidos por balas perdidas em diligências policiais. 14 Alguns homens, embrutecendo-se com tanta violência cotidiana, resolveram também assumi-la como prática, aliando-se aos criminosos. A extrema violência do tráfico de drogas tornouse constitutiva e necessária para uma pequena parcela de um tipo de masculinidade do lugar e tornou-se expressiva, em especial, na da polícia que “sobe o morro”, nos homens ou meninos do tráfico e no uso de jovens meninas “escolhidas” para parceiras de sexo. O estigma da marginalidade e da criminalidade, preconceitos sociais sobre a favela favoreceu e ampliou o processo de vulnerabilidade social em que viviam os seus habitantes. Alguns tipos de masculinidades se sobressaíram na Rocinha, muitos, como uma espécie de “donos do morro”, exerceram um poder decisório sobre parcela da vida pessoas da comunidade. Por volta da década de 1970, Batista conseguiu da Light a concessão de revender luz para a Rocinha, controlando uma cabine central desse serviço. Ele colocava e financiava relógios de luz e recebia o valor da energia elétrica consumida, e a Light cobrava o total de consumo registrado pelo aferidor único da cabine. Essa Companhia Elétrica preferiu conceder a um preposto, morador da favela, o controle sobre o fornecimento de luz, porque, provavelmente, sentia dificuldade em controlar os meandros desconhecidos do labirinto e suas casas sem número, com uma população altamente vulnerabilizada e, às vezes, maus pagantes. Essa tarefa não era fácil para a Light acostumada a lidar com os cartesianos arruamentos e numerações das moradas da cidade formal. Na verdade, parece que, para liderar com a situação e o tipo de cobrança necessário dentro da comunidade demandava um padrão de masculinidade impositiva, forte, ameaçadora que nem todos possuíam. Assim, a masculinidade detentora de poder do Batista, um comerciante com grande força decisória que ganhou muito dinheiro com a venda de luz 15 , emergiu como uma espécie de “dono da favela”. Mesmo com a ampliação da participação democrática, após 1945, findo o Estado Novo, a própria inclusão participativa pode se transformar em objeto de negociação. A relação da favela da Rocinha com o poder público passou a ser intermediado freqüentemente pela figura do cabo eleitoral, alguém de confiança, caracterizado por realizar a propaganda política e conseguir eleitores para seu pretendente, em troca do atendimento por parte da máquina estatal dos pedidos a eles realizados. Esses cabos eleitorais, geralmente homens, denotando o androcentrismo social, tornaram-se, “às vezes”, os “mandões” locais, permitindo a construção de novos barracos, impedindo ou derrubando algum erguido sem a sua autorização. Eram verdadeiros agentes 6

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 internalizadores da política clientelista, pessoas com prestígio em toda localidade ou em grande parte dela, realizando, a seu modo, um clientelismo intramuros, de caráter bairrístico. Seu poder assentava-se nesta capacidade de arrebanhar pessoas de sua rede de parentesco, amizade e vizinhança para as atividades políticas, em especial, para a votação. 16 Vemos, vez por outra, o exemplo de mulheres que ascenderam a esse lugar, já que com o passar dos anos, a história da Rocinha, permeia-se de mulheres que passaram a assumir não apenas as associações, mas as creches comunitárias, assim como a frente de movimentos sociais por melhorias dentro da comunidade. Silvana de Araújo Porto, eleita, em 1977, presidenta da União Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha (UPMMR), utilizou essa sociedade como um verdadeiro cabo-eleitoral institucional para re-eleger, em 1978, o Deputado Heitor Furtado, da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). No ano seguinte, da mesma forma, apoiava o então Governador Chagas Freitas. Mesmo consciente de que o Estatuto da UPMMR proibia a utilização dessa agregação de forma partidária, asseverava: “‘Olha a gente tem que ter um político. Mesmo que o estatuto mande que não pode ter política, temos que ter um político para dar apoio’” 17 para a instituição conseguir benefícios em seu campo de atuação. 1 Sorj, Bila. O feminismo na encruzilhada da Modernidade e da Pós-Modernidade. In: Costa, A. de O. & Bruschini, C. Uma Questão de Gênero. Rio de Janeiro, Fundação Carlos Chagas, 1992. p. 15-23, p. 15. 2 Heilborn, Maria Luíza. Fazendo Gênero? A Antropologia da Mulher no Brasil. In: Costa, A. de O. & Bruschini, C. Uma Questão de Gênero. Rio de Janeiro, Fundação Carlos Chagas, 1992, p. 93-126, 110. 3 Souza, Bernardino Francisco. Depoimento. Rio de Janeiro (Favela da Rocinha) 15/11/2002; Lima, Alberto Moreira Lima. Depoimento. Rio de Janeiro (Favela da Rocinha): 19/08/2002; Varal de Lembranças: Histórias da Rocinha. Rio de Janeiro: União Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha/ Tempo e Presença/ SEC/ MEC. FNDE, 1983, p.21 4 SAGMACS (Sociedade de Análise Gráficas e Mecanográficas Aplicadas a Complexos Sociais). Aspectos Humanos da Favela Carioca in: O Estado de São Paulo. São Paulo.Suplemento Especial nº 1, 13 de abril de 1960, p.20; Varal, 1983, p.17-18, 20, 22, 28; Lima, A. M., 19/08/2002; Coelho, Alba. Depoimento. Rio de Janeiro (Favela da Rocinha): 6/10/2001; O Mundo no Morro, O Globo, 25/10/1971;. 5 Sarti, Cynthia A. Cap. V. Os filhos dos Trabalhadores: quem cuida das crianças? In: Oliveira, E. M.de (org.). Trabalho, saúde e gênero na era da globalização. Goiânia: AB Editora, 1997, p. 51-67, p.55. 6 Varal, 1983: 10-11, 17-18, 20, 22, 28; Coelho, Alba, 6/10/2001; Coelho, Alba Dias. Depoimento. Rio de Janeiro (Favela da Rocinha): 19/07/2002; O Mundo no Morro in: O Globo, 25/10/1971. 7 cf. Coelho, Alba, 6/10/2001. 8 Beltrão, Kaizô Iwakami; Pinto, Marly I. dos Santos; Camarano, Ana Amélia. Avaliação do Padrão Etário da Mortalidade Brasileira por Sexo: 1979-1994 in: Como Vai? População Brasileira, Brasília, DF, ano I, n. 3, p. 12-12, ago/out 1996, p. 3 Disponível em: http://www.ipea.gov.br/pub/comovai/comovai0396.pdf; Morbi-mortalidade por causas violentas no Brasil. Disponível em: http://www.claves.fiocruz.br/Boletim%203.PDF (acesso em 18/09/2003). 9 Heilborn, 1992:113. 10 O Globo, 02/09/1975. 11 cf. Varal, 1983: 3, 22,33-5. Segala, Lygia. O Riscado do Balão Japonês: Trabalho Comunitário na Rocinha (19977- 1982). Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1991. 2 vs. (Dissertação, Mestrado em Antropologia Social), p.33. 12 Vanguarda, Rio de Janeiro, 13/12/1947, p. 8.; Zaluar, A. e Alvito, M.. Introdução. In: Zaluar, A. e Alvito, M. (orgs.). Um século de favela. 2 ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas Editora, 1999, pp. 7-24, p. 8, 10-l1; SAGMACS, 13 de abril de 1960, p. 5; 13 Varal, 1983: 39. 14 Varal, 1983:12;18. 15 Oliveira, José Martins de. 01/05/2005. Depoimento a Edu Casaes. De olho na política Disponível em http://www.favelatemmemoria.com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=122&tpl=printerview&sid=2 Acesso: 19/05/2006. 16 Varal, 1983:66-8; cf. Segala, 1991:100-101. 17 Jornal do Brasil, 31 de maio de 1979, Caderno B, p. 4 7

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