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5 years ago

Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero

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exerceram atividades

exerceram atividades remuneradas eram professoras (2) ou comerciantes (2), as demais, donas de casa. São famílias com forte presença de imigração estrangeira (Síria, Japão, Polônia), que começaram pequenos negócios e enviaram seus filhos e filhas para a universidade, como parte da estratégia de ascensão social. Ou seja, essas jovens pertencem a famílias que há pelo menos duas gerações estão inseridas na classe economicamente mais privilegiada, com uma trajetória claramente ascendente. São filhas de mulheres que fizeram uma graduação e ingressaram no mercado de trabalho, em áreas de prestígio. Pertencem a famílias que têm um capital cultural representado, no mínimo, ainda que de forma indireta, pelos diplomas universitários que possuem. A ação dessas famílias para a transmissão do capital cultural é cuidadosamente desenvolvida (“cultivo organizado”, mas palavras de LAUREAU, 2003), o que se expressa nas práticas reveladas por todas as entrevistadas, especialmente no que se refere às atividades extra-escolares e às viagens e intercâmbios — todas as entrevistadas já haviam viajado para o exterior pelo menos uma vez e três delas fizeram intercâmbios para a Inglaterra. Desde pequenas as jovens entrevistadas (como os garotos) freqüentaram cursos nas mais diversas áreas da cultura: inglês (6), francês (1), música (5), dança (5), esportes (3), teatro (1), artes plásticas (1)e ioga (1), além de participarem de grupos de bandeirantes e correlatos (2). As atividades extracurriculares fazem parte de uma prática recorrente das classes médias e mais abastadas, nas últimas décadas, com vistas a cultivar na criança e no jovem talentos e habilidades que despertem o interesse pela cultura e que possam ser úteis e distintivos no competitivo mercado de trabalho que eles terão de enfrentar 3 . Por meio de uma pesada agenda de atividades, busca-se desenvolver não apenas o domínio de uma ou mais línguas estrangeiras, mas também competências valorizadas no mundo do trabalho: as capacidades de trabalhar em equipe, de liderança e perseverança, freqüentemente associadas aos esportes, mas também à dança e à música. Trata-se de ativamente transmitir aos jovens um capital cultural que a família já tenha ou, em muitos casos, de incrementar esse capital, convertendo capital econômico em capital cultural, uma vez que essas práticas exigem que tenha condições econômicas para tanto, não apenas para custear do curso/aula em si, mas também os gastos com material, equipamento. As 10 jovens entrevistadas da Escola 2 vêm de famílias com menor poder aquisitivo e com menor nível de escolaridade (Ensino Médio): seus pais são proprietários de pequenos comércios (3), assistentes técnicos (1), inspetor de alunos (1), vendedor (1) soldador (1), motorista particular (1). Apenas 2 têm nível universitário: um cursou Educação Física e outro Arquitetura. Uma delas vive com a tia desde criança, sendo o tio gerente de banco, com curso superior em Administração. As mães dessas garotas também terminaram apenas o Ensino Médio, com exceção de uma, cuja mãe é arquiteta. Entre os avôs encontramos também dois imigrantes estrangeiros, um do Japão e outro da Itália e um imigrante do nordeste. Nem sempre as ocupações dos avôs eram conhecidas das entrevistadas, mas entre as que tinham mais informações havia um ator, um pedreiro, um motorista, 4

um proprietário de pequeno comércio, um barbeiro e um funcionário público. A maioria das avós era dona de casa, mas uma delas era professora e diretora de escola, outra diarista e outra ainda, comerciante. São famílias que também tiveram um percurso socialmente ascendente, tanto no sentido econômico, quanto no de nível educacional e que souberam selecionar entre as escolas públicas ou privadas a que tinham acesso, aquelas que poderiam oferecer a seus filhos/filhas o melhor ensino. Também as famílias desse grupo empenharam-se em proporcionar atividades extra- curriculares, numa tentativa de diferenciação para o ingresso no mercado de trabalho. No entanto, as limitações financeiras desse grupo determinaram as atividades possíveis e diversas interrupções. Boa parte desses cursos são também cursos técnicos, atividades relacionadas diretamente com o trabalho, mas também foram mencionados cursos de inglês, música, teatro, cinema, dança e esportes. Se em muitos aspectos os dois grupos pesquisados são diferentes, em outros são bastante próximos. Embora pertencentes a grupos sociais diferentes, as trajetórias familiares educacionais de ambos indicam a forte utilização da escola como via de ascensão social. Todas as garotas estudadas têm percursos escolares bastante semelhantes, marcados por poucas mudanças de escola, sendo que as da Escola 1 cursaram o Ensino Fundamental em escolas privadas e as da Escola 2, parte em escolas públicas, parte também em escolas privadas. Todas elas também pretendiam fazer um curso de nível universitário, sendo que apenas uma, da Escola 2, não iria fazer vestibular naquele ano. Para elas, essa é uma etapa tão clara do ciclo de vida, parte indissociável do seu projeto de futuro, que se pode dizer que se tornou um habitus, um acordo tal entre as estruturas incorporadas e as objetivas que possibilita a percepção da realidade como evidente. Um habitus que também é de gênero. Elas possuem disposições de autodisciplina e autocontrole tais que lhes permitem adiar a satisfação de necessidades momentâneas, próprias da idade, e se submeter a uma disciplina de estudo e organização do tempo em nome de um futuro relativamente distante. As meninas da Escola 1 escolheram como carreira o Direito, a Comunicação Social, as Relações Internacionais, a Arquitetura, as Artes Cênicas e a Publicidade e Propaganda, cursadas na USP, PUC, ESPM e Escola de Belas Artes. As entrevistadas da Escola 2 escolheram: Ciências Sociais, Biomedicina, Ciências Biológicas (2), Propaganda e Marketing, Odontologia, Desenho Industrial, Hotelaria, Enfermagem e Publicidade e Propaganda, cursadas na USP, UNIFESP, UNIP, Mackenzie, SENAC e UNIFIEL. Pode-se dizer que as jovens entrevistadas inserem-se no movimento de ingresso de contingentes femininos nas carreiras de maior prestígio, tradicionalmente dominadas pelos homens, como mostram diversos estudos, entre eles o de Bruschini e Lombardi (2000 e 2007), que analisa o trabalho e a educação superior das mulheres. Em todas as carreiras de prestígio, como Arquitetura, Engenharia, Medicina e Direito, há um aumento da inserção feminina, quando se compara o contingente mais jovem com o mais velho. As escolhas profissionais das 5

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