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Questões de gênero na literatura e na produção ... - Fazendo Gênero

Questões de gênero na literatura e na produção ... - Fazendo Gênero

mesma lógica são

mesma lógica são produtivas, elas colaboram para naturalizar construções culturais, produzir e fixar posições sociais de gênero. Narrativas como estas tornam visível o funcionamento de atributos sociais masculinos e femininos – construídos como par binário. Homens e mulheres são descritos a partir de condutas, de práticas, de atitudes, de modos de ser que estariam na “essência” desses sujeitos. Às mulheres cabem gestos delicados, a fragilidade, a afetividade, o trato com as coisas da casa, o cuidado das crianças. Aos homens cabe a ousadia, a força, a racionalidade, a coragem, a aptidão física, a “conquista” do mundo exterior (para além do espaço privado), o provimento de bens e alimentos (caça, coleta, pesca, construção, estruturação do espaço...). Ao narrar em oposição homem/mulher, as histórias do Papa-Capim articulam outros binarismos como por exemplo racionalidade/sensibilidade; força/delicadeza; atividade/passividade. Na história intitulada Perdidos..., um casal de turistas não consegue encontrar o caminho para casa e acaba encontrando-se com Papa-Capim no meio da floresta. A história tem diversos quadros de ação, nos quais o homem toma a iniciativa, luta contra feras, procura ajuda, consola e mulher que aparece indefesa, histérica, amedrontada. As cenas de ação são marcadas pela força, coragem e racionalidade masculinana figura do homem ou de Papa-Capim – e pela frágil condição feminina, que grita, chora e pede socorro. Em O pequeno Cauí o suposto dinamismo do mundo masculino indígena, em oposição à monotonia do mundo feminino é apresentado de maneira bastante evidente. No início da história um bebê indígena está em uma rede e, escapando ao olhar protetor da mãe, segue o pai, envolvendo-se em aventuras, perigos e muita ação, nas quais o pai se esforça para mantê-lo a salvo. Nos quadros finais o pai devolve o bebê à mãe, que comenta não entender por que ele não fica sossegado na rede. Um balão traduz o pensamento do bebê: “aqui é tão chato, não acontece nada”, enquanto a cena mostra a mãe sentada ao chão, com feições entristecidas, preparando alimentos, num cenário quase vazio. A construção de sujeitos generificados ocorre de forma relacional, em relações de poder. O que se procura instituir são identidades fixas, que suturam o sujeito à estrutura social. Louro (1997) analisa os lugares sociais de gênero como sendo padrões ou regras arbitrárias que uma sociedade estabelece para seus membros e que produzem sujeitos com determinados comportamentos, atitudes e modos de relacionamento. Discutindo a noção de gênero, Meyer (2005) conclui que ela se constrói em relação e opera como um organizador da sociedade e da cultura, processo que engloba todas as práticas a partir das quais se distinguem os sujeitos femininos e masculinos, marcando os corpos e dotando-os de distinções quanto ao sexo e a sexualidade. Gênero é, então, constituinte de sujeitos e de relações de poder, produtor e produzido na linguagem.

Partindo deste referencial, é importante indagarmos quais nos ensinam sobre gênero e quais discursos estão implicados nestas construções. As narrativas do cotidiano, da mídia, da escola, da literatura, dos quadrinhos, entre tantas outras, colaboram na definição de lugares sociais, narrando práticas adequadas (ou normais) para cada sujeito, ocupando seu lugar. Os quadrinhos do Papa-Capim colaboram para marcar determinados modos de ser sujeito – feminino ou masculino – investimento que funciona porque se articula a outros artefatos, a outros saberes, a um conjunto de práticas e processos de aprendizagem que nos constroem para sermos o que somos. E as narrativas nos ensinam sobre ser mulher e homem, menina e menino, regulando práticas, autorizando atitudes, preferências para uns e interditando-as para outros. Estas histórias ensinam sobre quem pensa e quem executa, quem é ativo e quem é passivo, quem é protagonista e quem é coadjuvante. As coisas parecem ser o que são/ o que sempre foram, pois as narrativas não problematizam sua historicidade e as relações de poder a partir das quais se constroem os lugares de sujeito. QUADROS DE “BELEZA FEMININA” Santos (1998), Sant’Anna (2002), Meyer (2005), entre outros, tem produzido estudos sobre corpo, numa abordagem pós-estruturalista, e têm ressaltado que no corpo se imprimem marcas distintas, valorações culturais que não são naturais, mas fabricadas na cultura, em relações de poder. Produzem-se formas de conceber o corpo, e variadas práticas de cuidado vão sendo instituídas como “naturais” e indispensáveis para mantê-lo saudável. E isso se produz em diferentes discursos, por variados meios, entre os quais destaco, neste texto, as histórias em quadrinhos, que colaboram neste empreendimento, fazendo circular certos jeitos de ser criança – menina ou menino – e de ser mulher e homem. As histórias do Papa-Capim têm como cenário a vida indígena, mas organizam os gêneros a partir de construções próprias da cultura a partir da qual estão sendo narrados estes povos. É interessante observar que os corpos femininos desenhados nestas histórias têm, em geral, traços mais retos, sem muitas curvas – escapando ao apelo usual de feminilidade, expresso em traços curvilíneos, jovens e magros, marcado nos corpos de algumas outras personagens de Maurício de Sousa. No entanto, quando as histórias do papa-Capim fazem alusão à beleza feminina ou à práticas de embelezamento, articulam-se outros discursos e concepções estéticas. Nas histórias que tratam de mulheres indígenas belas, elas são desenhadas com traços que associam beleza ‘a magreza. Também as mulheres não-índias que aparecem nas histórias – e que na narrativa cativam os personagens principais - são definidas a partir de concepções estéticas valorizadas pela cultura ocidental, na atualidade. Observando discursos midiáticos - anúncios publicitários, revistas femininas, programas de TV –, bem como discursos da ciência, da medicina e do cotidiano, pode-se afirmar que a beleza feminina é associada a corpos magros, altos, jovens, maquiados, modelados, sem as marcas do

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