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Aline Porto Quites - Fazendo Gênero - UFSC

Aline Porto Quites - Fazendo Gênero - UFSC

A Maricota é uma

A Maricota é uma brincadeira com o gênero, uma figura ao mesmo tempo vaidosa e desengonçada. Um estereótipo de feminino. O Corpo de Letra, grupo formado, em sua maioria, por mulheres, criou novos tipos, representando variações do gênero feminino. Por isso realizou, com sua performance, uma leitura feminista, dissociando o elemento feminino do restante do folguedo tradicional, tornando-o não mais um complemento, mas a peça fundamental da apresentação e multiplicando-a em diferentes representações do feminino. A dança tradicional da Maricota caracteriza-se em rodopiar, fazendo com que seus longos braços atinjam as pessoas do público. Quando ela pára de dançar, seus braços se enrolam em seu corpo. A Maricota do Corpo de Letra também possuía longos braços, mas não dançava da mesma forma. Sua saia era muito mais longa e mais rodada do que a tradicional 6 . Fora feita para esconder atuantes e outras bonecas sob ela, no começo da apresentação, para depois “dar à luz”, como uma metáfora para a idéia de ela ter originado a criação das demais bonecas femininas na performance. Nesse momento as “Maricotas” eram apresentadas ao público, enquanto se cantava e dançava a canção da Maricota 7 . Já as miniaturas, mais leves e fáceis de manipular, podiam dançar e rodopiar, porém, não escondiam o manipulador. Seus longos braços podiam atingir algumas pessoas do público, mas não tantas como a Maricota tradicional. Vimos que tanto no Boi-de-Mamão como em As filhas da Maricota encontramos bonecos contracenando com atores. No entanto o Corpo de Letra explora em alguns momentos a quebra da ilusão de vida, quando, durante a representação com o boneco, o manipulador, de repente, dirige-se diretamente ao espectador, ou vira a boneca para o lado de seu rosto, como se falasse para ela, evidenciando, com essas atitudes, a idéia do duplo. Como se a Maricota, figura folclórica, elemento da cultura local, fosse vista como um reflexo do ser humano da região onde ela existe e também do migrante (como o caso da maioria dos integrantes do Corpo de Letra) que a incorporou. As bonecas do Corpo de Letra foram confeccionadas pelo próprio grupo, baseando-se nas técnicas usadas pelos grupos de Boi, e sob a orientação da professora Maria de Fátima Moretti 8 . As roupas foram criadas em conjunto, de acordo com o material disponível. Assim surgiam as personagens: uma negra vestida de noiva, uma índia peruana, uma viúva assanhada, uma prostituta, uma fada. A inovação não foi nos bonecos, e sim em utilizar uma figura folclórica feminina em outro contexto, que não o tradicional. Os textos eram selecionados, paralelamente à confecção das bonecas, por associações, sob os temas raízes, Maricota e mulheres, ou que nos fizessem associá-los aos movimentos da Maricota, como o poema de Pablo Neruda Hago girar mis brazos. Ativismo também era um tema debatido no evento, no qual o grupo iria estrear o trabalho, e uma tendência no Corpo de Letra, por isso fora criado primeiramente o trecho que fazia lembrar a morte de Dorothy Stang, missionária norteamericana, assassinada no interior da Amazônia, por causa da disputa de terras. Alguns textos

também foram escritos por integrantes do grupo. As relações entre os textos e as bonecas, aí sim, foram frutos dos trabalhos de improvisação. Não foram usados os componentes básicos para uma obra clássica (princípio, meio e fim). É importante relembrar que a Maricota, no Boi-de-mamão, não possui diálogo verbal entre ela e outros bonecos ou dançadores. Sua função é surgir, quando a música anuncia sua entrada, e dançar girando, enquanto seus longos braços, feitos de espuma e tecido, se erguem e batem na platéia. As “Maricotas” do Corpo de Letra, por sua vez, passaram a ter diálogo e histórias, como a da esposa que gosta de surrar o marido, que, por sua vez, sente prazer em ser surrado; como a das mulheres de uma mesma família, representadas em um retrato; de uma freira assassinada no campo; das manifestantes políticas. Elas possuíam também caracterizações distintas, sugerindo mulheres de diferentes histórias de vida: a prostituta, a viúva (que depois representou a freira), a fada, a índia, a noiva negra, a menina malcriada. Ao serem confeccionadas, tínhamos idéia de que função elas viriam a ter, mas tudo foi criado mais tarde, durante os ensaios 9 , sob a proposta de uma pluralização da Maricota original. O que se mostrou foi um conjunto de representações que se constroem a partir da idéia da Maricota e vão tomando forma fragmentariamente a cada novo texto da performance. No início todas representam a Maricota. Todos os integrantes cantam e dançam, com as bonecas, sua canção do Boi-de-mamão. Em seguida a boneca maior passa a representar “Florbela Espanta” (personagem criada pelo grupo), espantalho que gosta de comer passarinhos. Depois ela é desconstruída para que uma das atuantes use a parte de cima de seu corpo como figurino, ao ilustrar o poema Hago girar mis brazos, de Pablo Neruda 10 . Esse é um momento em que o Corpo de Letra brinca com essa fusão entre boneco e bonequeiro, boneco e humano. Quando a Maricota maior começa a ser desconstruída, sua enorme blusa, na qual estão fixos seus longos braços, é vestida por uma das integrantes do grupo. A atuante adquire uma aparência estranha, nem homem nem mulher, meio boneco, meio gente, com tronco e braços enormes, cabeça pequena e pernas curtas. Ela começa a se movimentar ora lentamente ora de forma violenta, girando os longos braços, em diferentes sentidos e direções, enquanto outra voz, fora da cena, profere o poema Hago girar mis brazos, de Pablo Neruda. Podemos dizer que já não se trata mais de um boneco, mas de um figurino. Mas esse figurino não tem a função de caracterizar um personagem específico, mas sim dar novas dimensões para os movimentos corporais da artista, inusitadas posturas, desfazendo qualquer construção de gênero. O poema de Neruda fora escolhido devido à imagem de “girar os braços”, que nos remete ao movimento da dança da Maricota. Ele nos passa também uma idéia de loucura e a imagem de braços girando lembra-nos, ainda, as pás de um moinho. Esses versos falam de sofrimento e desejo, sentimentos humanos. Relacionam-se a dor, e também a canto, grito, choro, que são formas de

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