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Aline Porto Quites - Fazendo Gênero - UFSC

Aline Porto Quites - Fazendo Gênero - UFSC

expressar o sentimento e

expressar o sentimento e são também expressões orais, com as quais se faz poesia. O grito se aproxima da declamação e o canto, segundo Zumthor 11 , é o clímax da poesia oral. Hago girar mis brazos é um poema carregado de imagens, devido à quantidade de substantivos concretos e verbos. É um dos poemas de uma série de textos chamados de poemas noturnos. No trecho selecionado encontram-se as imagens de astros, estrelas, noite, metais azuis, elementos noturnos, que tanto instigaram os românticos, pela obscuridade e pelo mistério. Em meio a essa atmosfera noturna, alguém clama, grita. É uma voz carregada de sofrimento. Associa-se tudo isso à idéia de braços girando, assim como os astros, que rodam em órbita. É como se essa voz, que chama, grita, canta e chora, atirasse para essa órbita todo sofrimento e toda dor humana. O Corpo de Letra uniu sua leitura do poema ao movimento giratório dos braços, na dança da Maricota, que naquele momento começara a se desconstruir e se transfigurar naquela figura híbrida, meio Maricota (boneca, manifestação folclórica) meio humano (com seu sentimento e sua voz). Esse momento lírico é de repente seguido de um momento cômico, cuja música envolve o público com maior intensidade. É durante a canção “Bata, meu bem 12 ” de Maria da Inglaterra. Diferentemente da situação descrita acima, a música aqui é o elemento que define o roteiro (como acontece na maior parte das apresentações de Boi-de-Mamão). O que o grupo faz é encenar a leitura que fez da canção. Na interpretação do Corpo de Letra, o único homem é quem demonstra ter prazer em ser surrado pelos longos braços das Maricotas, assim como o faz normalmente a platéia do Boi-de-Mamão. Tudo isso é mostrado com uma pantomima que se torna cômica. E o público participa dando risada e batendo palmas no ritmo contagiante da música. Após esse momento cômico, a performance volta a ter um tom sério. Nos momentos finais, uma voz entoa angustiada, enquanto as bonecas são carregadas deitadas nas mãos dos atuantes, simbolizando a morte. Faz-se referência a Dorothy Stang 13 , com uma canção em solo falando sobre a luta de quem trabalha no campo. Os momentos de silêncio que entremeiam as canções, durante a simulação da leitura de uma bíblia e a queda da boneca ao chão, também geram tensão. Em seguida o violino é tocado de maneira distorcida, nervosa, agoniante. É o momento da desconstrução geral, em que tudo parece ser destruído. Inclusive os corpos dos atuantes perdem a postura leve e ágil, tornando-se pesada e sem forças, lentamente rumo ao chão. Até que um silêncio repentino indica que tudo aquilo se desmanchou. Nada mais do que havia sido construído na performance se poderia identificar. A performance chegara ao fim. Percebe-se que o tema da morte consiste em momentos de maior tensão em ambas as apresentações. O Boi-de-Mamão atinge seu clímax, quando Mateus mata o boi e, a partir daí, começa a luta por sua ressurreição, até o instante em que o boi ressuscita. Na performance do Corpo de Letra a morte é sugerida na alusão a Dorothy Stang. Também ao final da performance as Maricotas são desconstruídas. Elas são viradas para baixo de modo que suas cabeças fiquem

escondidas, os braços se arrastem no chão e todo o material fica exposto, desfazendo a imagem humana. Assim elas são colocadas no meio da roda. Também toda a cena é desconstruída. Os demais objetos usados na performance, como pandeiro, bíblia, panos, estojo do violino, são também abandonados no centro da cena. Os atuantes adquirem uma postura, como se também eles estivessem se desmanchando. Os corpos parecem pesados, as cabeças e os braços pendem para o chão, as pernas se dobram. Toda essa idéia de destruição sugere a morte. Copfermann 14 observa que um ator imóvel na cena é um corpo; um boneco imóvel na mesma cena é apenas um objeto. O que os liga é a energia do ator, transmitida através do movimento. Por isso impressiona ao representar a morte. Quando de repente se rompe a energia entre manipulador e boneco. No Boi-de-Mamão o folguedo continua após a ressurreição do Boi. No Corpo de Letra a performance em si acaba, com a representação da morte. No entanto, após os aplausos, em algumas apresentações, as bonecas são reerguidas uma a uma e o grupo volta a dançar, enquanto canta a Marcha da Maricota, canção composta por Alai Diniz, integrante do grupo. Papéis impressos com a letra da canção são distribuídos para o público, que pode cantar junto e também manusear as bonecas. Essa retomada pode ser lida como uma ressurreição das figuras. O “objeto animado de tradição popular, confeccionado com elementos humildes e que quase sempre apresenta uma estrutura simples, transmite-nos a expressão de ambigüidade, de síntese exemplar entre o igual e o diferente, entre o ser e o não ser” 15 . A Maricota pode ser uma representação grosseira e desproporcional do ser humano, mais precisamente falando, da mulher. Mas é de forte tradição. Imensa, envolvente, resistente ao tempo. Na Feira do Livro de Itajaí (SC), em 1º. de julho de 2005, o grupo preferiu substituir a cena que lembrava Dorothy Stang por outra que remetesse a algum acontecimento mais recente, que permitisse identificação mais imediata. Para isso foi escrito um diálogo nonsense que lembrasse, em sua forma, a peça Esperando Godot, de Samuel Becket, mas cujo conteúdo aludisse aos problemas com o transporte urbano em Florianópolis 16 . O diálogo vinha seguido de uma ação que sugeria uma manifestação de estudantes, lembrando os recentes conflitos entre estes e a polícia, nos protestos contra o aumento das passagens de ônibus, em maio e junho de 2005, na Ilha de Santa Catarina. Nas últimas apresentações de As filhas... foram acrescentados a esse diálogo trechos que aludissem ao incêndio no Mercado Público, em Florianópolis, ocorrido em agosto de 2005, e ao escândalo nacional em que o irmão do então deputado José Jenuíno fora flagrado num aeroporto, tentando sair do País com dólares escondidos nas cuecas, fato esse investigado pela CPI dos Correios no mesmo ano. É um momento, nessas performances, em que se faz referência a algum acontecimento político vigente. Isso também é um aspecto em comum com o Boi-de-Mamão, que,

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