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Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...

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sociedade”. Assim afirma uma das sentenças lida para João no início do filme: Sociedade esta na qual, diga-se de passagem, O sindicado [...] não gosta do convívio da sociedade ao ver que esta o repele dado seus vícios? visto sempre entre pederastas, prostitutas, proxenetas e outras pessoas de mais baixo nível social. Ufana-se de possuir economias. Mas, como não afere proventos de trabalho digno só podem ser estas economias produtos de atos repulsivos ou criminosos. Pode-se adiantar que o sindicado já respondeu a vários processos. Sempre que é ouvido em cartório provoca incidentes e agride mesmo os funcionários da polícia. É um indivíduo de temperamento calculado. Propenso ao crime. E por todas as razões inteiramente nocivo à sociedade. (MADAME SATÃ, 2002) o passo da colônia ao Estado autônomo acarretava a colaboração assídua entre as formas de vida características da opressão colonial e as inovações do progresso burguês. [...] A discrepância entre os 'dois brasis' ([..] foi o resultado duradouro da criação do Estado nacional sobre base do trabalho escravo (SCHWARZ, 2005, p. 131-132). Na sua constituição enquanto sujeito, João traz consigo de forma explícita e latente as marcas que o classificam num dos extremos dos “brasis”. Neste, a falta de tudo passa ser a regra do viver, com o agravante de ter que adjetivar “a cor da sua pele” para amenizar a aparente agressividade do substantivo. O seu radical étnico passa a denunciar nele o lugar pré-definido “a partir dos padrões e referências, das normas, valores e ideais da cultura” (LOURO, 2004, apud SABAT, 2005, p. 75). Portanto, ele deve ser pensado como um homem negro (gênero masculino), ou seja, “le noir est un homme noir; c'est-à-dire qu'à la faveur d'une série d'aberrations affectives, il s'est établi au sein d'un univers d'où il faudra bien le sortir” (FANON, 1971, p. 6). Por outro lado, o fato de João ser negro não dificulta a percepção daquilo que, segundo Ruth Sabat no seu contundente ensaio, seria o objetivo da professora Guacira Lopes Louro (2004), a saber “demonstrar de que forma as características corporais passam a funcionar como marcas de distinção e classificação e, conseqüentemente, como marcas de poder, considerando suas características históricas e culturais” (SABAT, 2005, p. 1), pois João traz um corpo másculo, marcadamente esculpido pelos afazeres diários, cabelo alisado (na chapa), um caminhar que privilegia o balançar dos quadris, em uma palavra, ele carrega consigo as marcar daquilo que chamamos em outra ocasião de Corpo Negro (MWEWA, 2005): Um corpo sempre em boa forma, “malhado”, pronto para o “combate” e para a realização de exercícios complexos do ponto de vista gestual, disposto a qualquer momento para a atividade sexual, enfim, um corpo que não tem um domínio razoável da gramática da língua como se espera que tenha da gramática gestual, que traz marcas de maltrato internalizadas desde o regime escravocrata, enfim, um corpo que é construído pelos que não o possuem e ao qual destinam todas as suas máculas. (MWEWA, 2005, p. 67) Esta nocividade se manifesta no inconformismo às regulações sociais que o destinavam a ocupar um espaço previamente deliberado pela sua condição étnica e sexual. Ele se forma a partir desta deliberação na busca constante de exteriorizar o seu “eu”, sem se importar com as 2

3 conseqüências legais da sua ação desde que soubesse não estar infringindo a lei mas sim estar sendo vítima do sistema já colocado. É o que percebemos na cena onde os policiais chegam à sua casa para prendê-lo depois da denúncia de roubo dos seus ex-patrões. Diante da acusação e da ordem de detenção “para averiguação” ele contesta: “minha pessoa só pegou o que lhe era devido [...] lá era meu local de trabalho e de lá não roubei nada”. Na medida em que este exteriorizava o seu “eu”, concebia o outro de forma relacional e racionalizada, isto é, João media meticulosamente qual o nível de ação que teria diante do outro, trazia à tona as suas pretensões mais recalcadas e solapadas deflagradamente na contemporaneidade. É o que percebemos, por exemplo, quando João, junto a seus companheiros, é barrado na entrada do High life clube. Vendo que outras pessoas não eram impedidas de entrar, João insiste em querer entrar, até que se deflagra uma briga com os seguranças. Ele alega que não era um fora da lei (ladrão) e que pagava em dia com todos os seus credores. Portanto, não havia motivo aparente, segundo ele, para tal proibição. Não advogamos pela simples permissividade do sujeito, como pensarão aqueles que se dignam em perceber a realidade como um processo de ações encadeadas linearmente e constituindo, assim, um círculo no qual tudo tem o seu lugar pré-estabelecido. Pensamos na direção de perceber os mecanismos políticos, sociais e culturais diante dos quais o nosso personagem busca transgredir e/ou se conformar. Este raro momento de conformação é percebido quando ele, mesmo alegando inocência, se entrega à polícia para que esta não continue a prender tudo que é malandro e boneco [que encontrassem no bairro da Lapa]. Nossa hipótese central, portanto, consiste em pensar o personagem João enquanto protótipo do sujeito autônomo pronto para a auto-flagelação no exercício da sua individualidade. É na contramão do domínio de si que age tal individualidade, ou seja, no descontrole do corpo segundo as normas de convívio comum é que ele pauta as suas ações. Dessa maneira, a forma como as sociedades historicamente se servem e se serviram do corpo subentende as particularidades de cada micro-ambiente social. A ação de João, contextualizada na Lapa dos anos 30, se debatia entre a normalidade (norma) com seus iguais do “submundo” e as autoridades externas a este contexto que buscavam o seu controle. O corpo que representa um dado momento histórico é o corpo hegemônico dessa época, no sentido do comportamento, isto é: dentre as várias possibilidades de ação existentes, se tem privilegiado apenas aquela que atende às regulações de algumas camadas da sociedade. É na contramão dessa hegemonia que transita Benedito. Ou seja, no conflito direto, às vezes corpo a corpo com as forças dominantes que tinham como objetivo último o adestramento dos sujeitos para adequá-los e sujeitá-los da melhor forma nos seus mecanismos. Assim, João se demite e exige o pagamento do seu salário mesmo que para isso enfrente

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Fazendo Gênero 8 – Corpo, Violência E Poder
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Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero - UFSC