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Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...

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4 uma arma na cabeça,

4 uma arma na cabeça, à qual revida colocando uma navalha nos testículos daquele que o ameaça. Por fim, consegue o seu pagamento. Essa violência pela qual este corpo é submetido em diferentes âmbitos faz emergir a transitoriedade identitária de João. Em diversos movimentos ele contraria o impiedoso processo de conformação do corpo implementado por estas forças. Conforme trabalhos anteriores, entendemos por educação do corpo os “mecanismos sociais que são colocados para a sociedade como um todo e que ditam os modelos corporais direcionando, de uma forma geral, a relação das pessoas para com o seu corpo e de outrem” (MWEWA, 2005, p. 62). Mecanismos estes que no caso dos subalternos conformam os sujeitos num dado modelo corporal com o qual se estabelecem diversos tipos de relação, como por exemplo, de amor, de ódio, de conformismo com ele, de esforços para adequá-lo para si e para os outros (no sentido de fazer dele o que o meio espera que ele seja) etc. Assim, inspirados em Adorno podemos dizer que o movimento cênico de João quando pensado de forma musical pode ser considerado um corpo dissonante, pois empreende uma ação no sentido de “[...] destruir as relações racionais, 'lógicas' da tonalidade [...] ao invés de adquirir a unidade mediante um conjunto 'homogêneo', isto é, destruindo os momentos parciais que contém” (ADORNO, 1974, p. 53-54). Poucas vezes somos incentivados a enfrentar os riscos que o exercício da nossa individualidade demanda, e sim a nos conformarmos com a ordenação social para não danificá-la. Mas, por que se conformar somente, se esta ordenação foi feita pela própria humanidade? Sendo assim, essa mesma humanidade pode modificá-la para que esteja em conformidade com os anseios da maioria dos outros homens enquanto gênero humano. Aí se localiza a busca de João, ou seja, exigir a partir da individualidade a adaptação das regras em respeito ao sujeito sem privilégios. 3 Implicações a partir da multiplicidade do Madame Satã Este aspecto de transitoriedade das identidades se localiza no contexto da ordem da multiplicidade subjetiva e põe em causa a ordenação linear esperada da ação do sujeito. João pode ser pensado como o sujeito que materializa as proposições empreendidas pela Teoria Queer, na qual, para Sabat, “a ação subversiva e a transgressão das fronteiras de gênero e de sexualidade são alguns dos [seus] principais elementos que [a] permeiam” (SABAT, 2005, p. 2). Segundo Guacira Louro, “a teoria queer permite pensar a ambigüidade, a multiplicidade e a fluidez das identidades sexuais e de gênero, mas, além disso, também sugere novas formas de pensar a cultura, o conhecimento, o poder e a educação” (LOURO, 2004, apud SABAT, 2005, p. 47). Retirando algumas arrestas, o personagem João fica como uma importante sugestão da necessidade de uma re-configuração subjetiva diante do mundo objetivo. É uma forma diferente de lidar com aquilo que nos é apresentado. João convive num ambiente familiar onde ele é o

5 “provedor” do bem-estar de Laurita, da filha desta e do “agregado”. Este último, por dever dinheiro ao João, se torna receptáculo de favores. O favor, portanto, segundo Schwarz, “[...] pratica a dependência da pessoa, a exceção à regra, a cultura interessada, remuneração e serviços pessoais” (SCHWARZ, 2005, p. 66). Assim João, por ser um “homem livre” – nem proprietário nem proletário – passa a ser caricaturado pelo seu “agregado”, que depende dos seus favores enquanto uma “mediação quase universal” na relação com João, necessidade esta perceptível a partir da seguinte cena: no quintal da casa onde Laurita está limpando o chão e “o agregado”, que vivia com eles, lavando a roupa, João chega e pergunta: — Que chão imundo é esse, Laurita? Termina de limpar essa porcaria... Com um ar de superioridade agressiva, sem camisa... Ele pergunta ao “agregado”: — Já terminou de costurar o vestido da Vitória? E as toalhas do Amador? Já lavou? O “agregado” responde: — Já!...Tudo. João: — Então já podia ter lavado o vestido da madame também. O “agregado” retraidamente responde: — Eu já lavei.. João de forma insolente pergunta: — Já secou?... O “agregado”, numa tentativa de medir até onde iria aquela argüição responde: — Meu nome não é sol. E numa fúria bestial João o ataca, o agride e o empurra contra o tanque de lavar roupa. Enquanto isso Laurita está indiferente diante deste fato, catando o arroz. Logo em seguida, num cúmplice olhar sorridente, João balançando a cabeça pergunta ao “agregado”: — E o cú? Silêncio... —Já deu hoje? O “agregado” retribui o sorriso com afago, mas não a violência: —Hoje ainda não, dei ontem! E finalmente na ação reaparece a figura da Laurita recriminando-os: — ... Ô boca imunda. Logo João muda de semblante e diz: — Cala boca... Continue catando o seu arroz. Risos do “agregado” e Laurita, que mais uma vez são repreendidos por João:

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