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Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...

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diversos fatores. e que

diversos fatores. e que não opta por aquilo que diz, enquanto outros simplesmente ignoram sua existência, preferindo ver a língua como apenas um sistema formal e debruçando-se sobre ela como se fosse um objeto asséptico, procedimento que Bakhtin refuta veementemente. Assim, em Marxismo e Filosofia da Linguagem, Mikhail Bakhtin ii oferece, já em 1929, uma saída para essa objetividade e assepsia extrema propostas (e/ou impostas) por Saussure com a dicotomia langue / parole, que excluía a subjetividade e quaisquer influências externas sobre a língua. Para Bakhtin, considerar que “a língua, como sistema de normas imutáveis e incontestáveis, possui uma existência objetiva é cometer um grave erro” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/2004, p.91) e, com isso, o teórico abriu caminho para a noção da língua como sendo relacionada, na verdade, à consciência subjetiva de um locutor iii (ou de cada locutor considerado individualmente) de uma dada comunidade lingüística em um dado momento histórico iv . Ligado ao conceito de língua como uma coisa viva (como a via Bakhtin), está o de “palavra” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/2004, p. 112 e 113), no qual ela é o signo v , determinada fundamentalmente pelo fato de que procede de alguém e se dirige para alguém, constituindo-se em uma espécie de “ponte” lançada entre o locutor e os outros, permitindo a comunicação. Até mesmo uma inscrição em um monumento “constitui um elemento inalienável da comunicação verbal” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/2004, p. 98), na medida em que ela responde a enunciados anteriores (passados) ou antecipa outros, sendo ainda orientada para uma leitura no contexto da vida científica ou da realidade literária do momento, ou seja, no contexto do processo ideológico do qual ela é parte integrante. Essa noção da influência do contexto e da subjetividade encontra uma de suas expressões máximas nas afirmações de que “cada palavra evoca um contexto ou contextos, nos quais ela viveu sua vida socialmente intensa; todas as palavras e formas são povoadas de intenções” (BAKHTIN, 1934-1935/1998, p.100) e “a palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/2004, p. 95, 114, grifo nosso). Com isso, Bakhtin torna possível dizer que não são palavras que pronunciamos ou escutamos, mas sim verdades ou mentiras, coisas boas ou más, agradáveis ou desagradáveis, etc, ou seja, tudo é uma “expressão ideológica” (de valor) (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/2004, p. 114) onde está sempre em jogo uma orientação de caráter apreciativo. Não podemos esquecer também de um traço essencial (constitutivo) de todo enunciado: seu direcionamento a alguém, seu endereçamento (BAKHTIN, 1952-1953/2003, p.301), a que Bakhtin chama de orientação dialógica do discurso (BAKHTIN, 1934-1935/1998, p.85). Isso quer dizer que do ponto de vista do autor o enunciado sempre tem um destinatário específico, que pode ser desde um participante-interlocutor em um diálogo até uma coletividade (como ocorre no caso de um livro). Já aí percebemos, então, uma espécie de diálogo com a presença de duas diferentes “vozes”: 2

a do autor e a que o autor imagina que será a do destinatário, cada qual carregada de diferentes discursos, que podem ser concebidos também como outras vozes. Baseado, então, na concepção do destinatário que o autor do enunciado tem, ele procura antecipar possíveis respostas e objeções, o que faz com que o enunciado seja imediata e diretamente determinado pelo discurso-resposta futuro (BAKHTIN, 1952-1953/2003, p.302; 1934-1935/1998, p.89). Ainda quanto ao “endereçamento” de um enunciado, vemos que Bakhtin não esquece do importante papel do “receptor” na comunicação, não o vendo como um mero participante passivo da comunicação discursiva, mas sim como dotado de uma atitude responsiva. Nas palavras do próprio Bakhtin (1952-1953/2003, p.271), [...] o ouvinte, ao perceber e compreender o significado (lingüístico) do discurso, ocupa simultaneamente em relação a ele uma posição responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente), completa-o, aplica-o, prepara-se para usá-lo, etc; essa posição responsiva ouvinte se forma ao longo de todo o processo de audição e compreensão desde o seu início, às vezes literalmente a partir da primeira palavra do falante. Se ao invés de um “ouvinte” pensarmos em um “leitor”, podemos imaginar que essa atitude responsiva envolve reconhecer os enunciados (ou discursos) anteriores presentes no ou convocados pelo texto e reagir a eles, aderindo ao que está ali proposto, questionando-o ou refutando-o. Dito de outra forma, trata-se de ouvir as vozes (discursos) que ali se encontram e responder a elas de alguma forma. É interessante, neste ponto, voltarmos nossa atenção par ao conceito de diálogo de Bakhtin. Para ele, o diálogo é uma discussão ideológica, ou seja, quando uma enunciação responde a alguma coisa, refuta, confirma ou antecipa respostas e objeções potenciais, procura apoio, etc, ou seja, ela “dialoga” com enunciados antecedentes e/ou futuros (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/2004, p. 123). Como muito acertadamente salienta Bakhtin, “nosso discurso, isto é, nossos enunciados (inclusive as obras criadas), é pleno de palavras dos outros, (...) essas palavras dos outros trazem consigo a sua expressão, o seu tom valorativo que assimilamos, reelaboramos, e reacentuamos” (BAKHTIN, 1952-1953/2003, p.294-295). Com esse diálogo, ou melhor, esse dialogismo sempre presente na enunciação mais uma vez vemos surgir diante de nós as diversas “vozes” presentes em um enunciado e, portanto, em um texto. Neste ponto, cabe mencionar uma noção que Bakhtin aproveitou da Física: a da existência de forças centrípetas e forças centrífugas (BAKHTIN, 1934-1935/1998, p.82). As forças centrípetas são aquelas que, dentro do discurso, tentam fazer com que ele se torne homogêneo, unificado e monológico. Mais do que isso: elas buscam fazer com que os diversos discursos naturalmente existentes na sociedade se tornem um só. Muitas vezes relacionadas a processos de centralização sócio-políticos e culturais, as forças centrípetas não só perpetuam idéias como a de 3

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