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Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...

Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...

uma língua única e

uma língua única e seguidora fiel dos preceitos gramaticais em ternos de forma como também buscam cristalizar discursos que atendam as necessidades do grupo detentor do poder hegemônico. Literalmente na direção oposta encontram-se as forças centrífugas, que buscam afastar o(s) discurso(s) desse centro comum unificado. Elas fazem com que o discurso hegemônico que busca consolidar-se possa ser contestado por outros discursos, e mesmo a existência de diversos discursos diferentes já é resultado da existência delas. A existência das forças centrífugas é também diretamente responsável pelo plurilingüismo e pela plurivocidade, na medida em que, ao fazer com que os discursos se afastem do efeito monologizador das forças centrípetas, permitem o surgimento das diversas línguas e o aparecimento de diferentes vozes em um enunciado. É interessante percebermos, entretanto, que as forças centrípetas e centrífugas centrífugas de forma alguma se excluem mutuamente. Elas coexistem em concorrência, encontram sua concretização no enunciado e ali se interceptam. É o sujeito (locutor) que coloca essas forças em ação, fazendo do enunciado o palco onde se realiza o embate entre elas. Ainda da Física vem a idéia da refração (BAKHTIN, 1934-1935/1998, p. 87). Imagem didática que Bakhtin constrói dizendo que a intenção, a orientação de um discurso a respeito de um objeto é como um raio que, refratado pelo meio de discursos alheios, de apreciações e de entoações através do qual ele passa ao dirigir-se para o objeto, cria um jogo vivo e inimitável de cores e luzes nas facetas da imagem. Em outras palavras, a refração é um fenômeno que ocorre quando um discurso sobre um objeto, apesar de já orientado de uma determinada maneira, ao encontrar outros discursos, apreciações e entoações passa a permitir, por exemplo, que outras interpretações dele possam ser possíveis, fazendo surgir nele nova “cores”. Após a apresentação desses diversos conceitos desenvolvidos por Bakhtin, passaremos à observação de como a plurivocidade se manifesta em um texto, fazendo uma breve análise de sua presença em um trecho de uma obra literária. As vozes em um texto – exemplo O texto com o qual trabalharemos (reproduzido a seguir) é a parte inicial do primeiro capítulo de As Brumas de Avalon, da escritora inglesa Marion Zimmer Bradley. “Morgana fala... Em vida, chamaram-me de muitas coisas: irmã, amante, sacerdotisa, maga, rainha. Na verdade, cheguei a ser maga, e poderá vir um tempo em que tais coisas devam ser conhecidas. Verdadeiramente, porém, creio que os cristãos dirão a última palavra. O mundo das fadas afasta-se cada vez mais daquele em que Cristo predomina. Nada tenho contra o Cristo, apenas contra os seus sacerdotes, que chamam a Grande Deusa de Demônio e negam o seu poder no mundo. Alegam que, no máximo, esse seu poder foi o de Satã. Ou vestem-na com o manto azul da Senhora de Nazaré – realmente poderosa, a seu modo –, que, dizem, foi sempre virgem. Mas o que pode uma virgem saber das mágoas e labutas da humanidade? 4

E agora que o mundo está mudado e Artur – meu irmão, meu amante, rei que foi e rei que será – está morto (o povo diz que ele dorme) na ilha sagrada de Avalon, é preciso contar as coisas antes que os sacerdotes do Cristo Branco espalhem por toda parte os seus santos e suas lendas.” (BRADLEY, 1982, p.11) O fato de estas serem as primeiras linhas deste romance e logo de início Bradley dar a palavra a Morgana – uma mulher – por si só já é um exemplo de plurivocidade, pois com esta “manobra literária”, Bradley responde às vozes da tradição da literatura medieval, principalmente à relativa ao Rei Artur, que sempre centrou seu interesse nos homens (reis, cavaleiros e magos como Merlin) e relegou a mulher a papéis não-ativos, chegando mesmo a desconsiderar sua existência. Ao fazer com que Morgana fale, na verdade Bradley também fala, desafiando essa tradição. Aqui, como podemos ver, manifesta-se ao mesmo tempo a bivocalidade inerente aos romances, com a voz da personagem e a voz da autora presentes ao mesmo tempo, e uma espécie de dialogismo entre textos, já que ao ser contada do ponto de vista das mulheres a lenda do Rei Artur em As Brumas de Avalon responde a suas outras versões centradas nos homens, não deixando de, ao mesmo tempo, tê-las presentes na forma da manutenção de personagens e eventos. Morgana diz logo de início que “Em vida, chamaram-me de muitas coisas: irmã, amante, sacerdotisa, maga, rainha”. Ao dizer “chamaram-me’, ela convoca todas as vozes que anteriormente assim a chamaram: vozes de outras personagens em outros romances, vozes de outras obras e outros autores que assim a descrevem, vozes de outros discursos que, por causa de suas ações, assim a rotularam. Esta é a real manifestação da plurivocidade de Bakhtin. Cabe salientar aqui, porém, que no que se refere a gênero as vozes de muitos outros discursos encontram-se presentes, discursos que ditam como deve ser desempenhado cada um desses papéis femininos de um ponto de vista hegemônico ou revolucionário, os quais se farão presentes ao longo do romance de Bradley. A seguir, em “poderá vir um tempo em que tais coisas devam ser conhecidas” e em particular “Verdadeiramente, porém, creio que os cristãos dirão a última palavra”, se manifesta claramente a voz da autora, a qual se refrata – e ao mesmo tempo praticamente se imbrica – na voz da personagem. Marion Zimmer Bradley, na época da redação de As Brumas de Avalon, se professava uma “neo-pagã”, explicando sua fé como uma que “rejeitava a crença cristã na dominação dos homens sobre a Terra” vi Aqui percebe-se claramente a influência do contexto de que fala Bakhtin, com a vida da autora passando a fazer parte de um enunciado. Assim, por meio de Morgana (que por ser uma sacerdotisa pagã tinha problemas com a religião cristã da época) Bradley fala de seu próprio ponto de vista, trazendo à tona também a disputa entre uma religião baseada no feminino e uma de base claramente patriarcal. Vemos então, na seqüência, todo o resto desse primeiro parágrafo transformar-se em um claro embate entre os discursos da Igreja Católica (“seus sacerdotes chamam a Grande Deusa de Demônio”; “seu [da Grande Deusa] poder foi o de Satã”; “manto azul da Senhora de Nazaré”; 5

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Fazendo Gênero 8 – Corpo, Violência E Poder
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Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero - UFSC