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Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...

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“sempre virgem”) e

“sempre virgem”) e os do neo-paganismo (“a Grande Deusa”. “ negam seu [da Grande Deusa] poder no mundo”. “Senhora de Nazaré – realmente poderosa, a seu modo”. “dizem [que] foi sempre virgem”). As vozes que dialogam em conflito vêm desses discursos, e, mais do que isso, despertam no(a) leitor(a) ainda outros. Encerrando o último parágrafo, temos este enunciado: “Mas o que pode uma virgem saber das mágoas e labutas da humanidade?” Ele, em especial, faz ressoar ainda outras vozes, pois, na medida em que esta pergunta pode ser encarada mais como dirigida ao próprio leitor do que um diálogo interno da personagem, todos os discursos que este interlocuto traz consigo vêm à tona, além daqueles obviamente já mobilizados pela frase – a saber, o da Igreja Católica com seus dogmas, regras e proibições, o do neo-paganismo que muitas vezes o desafia e contesta e o hegemônico que prega a pureza e castidade (pelo menos aparentes) da mulher. A seguir, temos “E agora que o mundo está mudado e Artur – meu irmão, meu amante, rei que foi e rei que será – está morto (o povo diz que ele dorme) na ilha sagrada de Avalon”. Aqui temos, em primeiro lugar, as vozes da tradição literária com as várias escritas da lenda do Rei Artur (de Sir Thomas Malory, Geoffrey de Monmouth, Tennyson, etc) e seus respectivos discursos advindos das diversas épocas em que foram produzidas. Temos também a voz da própria lenda, passada de geração em geração e que, além de conter as vozes de seus inúmeros contadores, sofreu a influência de vários contextos históricos. Por fim, temos a voz da autora que, ao fazer Morgana revelar Artur como seu irmão e amante, desafia não apenas as vozes e discursos que não incluem esta possibilidade na lenda, mas também aqueles que a condenam como tabu. O final do último parágrafo, com “é preciso contar as coisas antes que os sacerdotes do Cristo Branco espalhem por toda parte os seus santos e suas lendas.”, volta a fazer surgir a voz da autora como contrária ao discurso da Igreja Católica (“os sacerdotes do Cristo Branco”; seus santos e lendas”). Além disso, com “é preciso contar essas coisas” um discurso de mobilização também é convocado pela autora por meio da voz de Morgana. Cabe lembrar que a obra, escrita no início dos anos oitenta, surgiu em uma época de grande efervescência – movimentos de mulheres, movimentos políticos, surgimento da new age em termos de religião e espiritualidade –, portanto esses discursos (um, algum ou mesmo todos) podem chegar a ser realmente ouvidos e gerar questionamentos ou – por que não? – mudanças sociais, conforme a atitude responsiva do(a) leitor(a). Ao chegarmos aqui ao fim do trecho que nos propusemos a analisar, passaremos, então, a algumas considerações finais relativas às observações feitas por nós. Considerações finais 6

Em todos os enunciados do trecho em questão pudemos perceber não só a presença da refração, da bivocalidade ou da plurivocidade, mas também de outras idéias de Bakhtin, como a do dialogismo e dos enunciados que respondem a enunciados/discursos anteriores (como As Brumas de Avalon em resposta às outras versões da lenda do Rei Artur) ou ainda antecipam outros (como “Nada tenho contra o Cristo” antecipando possíveis reações Às posições neo-pagãs); a da palavra que está sempre carregada de um conteúdo ou sentido ideológico ou vivencial (como no caso da religião Católica em contraste desfavorável com o paganismo pela vivência da autora ou a valorização da Senhora de Nazaré como “poderosa” simplesmente por ser mulher, devido ao fato de Bradley ter tendências feministas); a importância da atitude responsiva do leitor. Fica clara, com isso, a relevância que tais conceitos, ou melhor, que toda a teoria de Milhail Bakhtin possui dentro dos estudos do discurso, permitindo que se possa desvelar nas diversas camadas de significado de um enunciado o “jogo vivo e inimitável de cores e luzes” descrito por Bakhtin e que esse enunciado pode apresentar. Em especial nos estudos do discurso relacionados à área da literatura, a importância de Bakhtin prova-se indiscutível, na medida em que suas idéias nos fornecem as explicações para muitos fenômenos que só ocorrem dentro deste meio, como os relativos ao autor e a presença de sua voz e/ou influência na obra. Nossa análise de forma alguma esgota as possíveis interpretações e a identificação das vozes presentes no trecho observado, já que nossa intenção foi apenas demonstrar que os conceitos sobre os quais discorremos encontram-se realmente ali presentes, podendo estar também em várias outras obras literárias e textos a serem estudados. Esperamos enfim ter, com nosso trabalho, contribuído para uma melhor compreensão deste conceito fundamental dentro da teoria de Bakhtin e que tão freqüentemente é negligenciado em favor do termo polifonia: a plurivocidade. Referências Bibliográficas BAKHTIN, Mikhail/VOLOCHINOV, Valentin. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec, 1929/2004. BAKHTIN, Mikhail Os gêneros do discurso. In: Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1952-1953/2003. BAKHTIN, Mikhail. O discurso no romance. In: Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo: Hucitec, 1934-1935/1998. BRADLEY, Marion Zimmer. As Brumas de Avalon. São Paulo: Círculo do Livro, 1982. i Polifinia: definição segundo a Wikipedia, disponível em:.Acesso em: 10 jun. 2008. ii Neste trabalho nos referiremos ao autor de Marxismo e Filosofia da Linguagem como sendo Bakhtin, apesar de estarmos cientes da co-participação de Valentin Volochinov na escrita desta obra. iii Por questões de espaço disponível para a publicação deste, utilizaremos a(s) forma(s) do/no masculino, apesar de reconhecermos a necessidade da igual presença das formas do/no feminino. iv No entanto, Bakhtin não deixa de admitir ser possível estabelecer-se uma relação objetiva se considerarmos a língua como um sistema de normas imutáveis e incontestáveis do ponto de vista de um locutor. v Para Bakhtin (1929/2004). signo é a palavra enunciada. 7

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