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De amor e romances: a censura, a literatura, o ... - Fazendo Gênero

De amor e romances: a censura, a literatura, o ... - Fazendo Gênero

difusor de preceitos e

difusor de preceitos e discursos da Igreja romanizada, como um forte porta-voz da oficialidade católica, normatizador, e preocupado constantemente com a regulação da educação e do espaço ocupado pelas mulheres na sociedade. Todos os discursos nele divulgados estavam organizados na defesa do que Uta Ranke-Heinemann nomeou de os “três bens mais importantes para os cristãos” 4 : os filhos, a fidelidade e a indissolubilidade do casamento. Valores estes que encontravam na figura feminina seu ponto de interseção. Durante as décadas de 1930 e 1940, duas eram as grandes inquietações da Igreja Católica no que se referia a construção de representações femininas em seus discursos: a leitura e o cinema. Tanto a literatura quanto as fitas cinematográficas eram encaradas como grandes ameaças as representações femininas católicas, uma vez que forneciam aos leitores e espectadores modelos que se contrapunham aos tradicionais, desenhando representações que muito pouco, ou nada, lembrariam a complacente esposa fiel ou a jovem casta dos preceitos cristãos. Estava posto o medo da sensualidade e do erotismo. No que se refere à literatura, fazia-se necessário, então, criar representações dessas “más leituras” de forma que fosse possível “conservar intacta a fé e a pureza do coração” 5 , em outras palavras, efetivar os valores normativos da Igreja na sociedade, mais especificamente nas classes médias, que constituíam o principal foco do catolicismo nas décadas de 1930 e 1940. Três espécies de livros devem ser proibidos e banidos: Os livros voluptuosos, porque só servem para manchar a imaginação e atear no coração um fogo impuro; Os livros ímpios, que roubam a fé e abafam o sentimento religioso; Os livros frívolos, porque não deixam nada no espírito; Com outras palavras, deve-se evitar leitura de livros antireligiosos, heréticos, espíritas, maçons, pornográficos, romances sensuais e eróticos. 6 [grifo meu] Toda essa preocupação com a mulher e seu controle articulava-se a partir do argumento de que a ela seria a guardiã por excelência, dos valores da família, e que, portanto, “protegê-la” seria o único meio para manter a moralidade familiar e social intacta, evitando assim um possível caos relacional 7 . Apesar do relacionamento dos seus fiéis com a leitura ter sido elemento de constante preocupação por parte da Igreja Católica ao longo de toda sua história, será no final do século XIX e na primeira metade do século XX que, no Brasil, tal preocupação resultará em ações práticas por parte do clero. Em Petrópolis é fundada a editora Vozes, a primeira editora católica brasileira, que acabou fornecendo, através de um intenso trabalho de censura, obras “apropriadas para moças, senhoras e gente de alma limpa” 8 , ou seja, leituras aprovadas para leitoras “frágeis” e “inocentes”, passíveis de sucumbir diante do fascínio exercido por romances considerados “perigosos” pelos censores católicos. 2

Toda esta preocupação com a literatura que poderia, ou não, ser apreciada pelas mulheres, justificava-se pelos temas abordados nessa “má leitura”, ou seja, paixões, adultério, divórcio, esterilidade feminina, que acabavam, segundo a ótica católica, desprezavam a moral sexual e proporcionavam a “destruição" das famílias, por fornecerem representações de mulher que a desvinculavam de um casto ambiente doméstico. O próprio jornal O Apóstolo estava embebido de orientações contra a leitura de livros que não fossem pré-aprovados pela censura eclesiástica, proibindo as católicas até mesmo manterem de tais obras na intimidade de seus lares. É claro que tais orientações e preocupações traziam consigo um forte recorte de classe, uma vez que tanto a prática da leitura quanto a aquisição de livros, não faziam parte do cotidiano das classes populares. Assim, tal trabalho de censura não poderia ser considerado um empreendimento simples, especialmente diante do momento cultural e artístico pelo qual passava o Brasil nas décadas de 1930 e 1940, quando despontava no cenário literário autores que, mais tarde, acabariam elevados ao status de clássicos da literatura brasileira. Isso porque, a partir de 1930 surge um novo modernismo no Brasil, uma busca pela realidade pautada no regionalidade, não como os românticos, mas redescobrindo o Brasil a partir de sua diversidade regional e de seus diferentes modos de vida. Neste novo contexto, Jorge amado estreava com “O país do Carnaval” em 1931. Esse baiano iria aliar em suas obras realismo e romantismo, retratando especialmente a vida das populações pobres das terras da Bahia. Também José Lins do Rego lançou suas obras nesta mesma década: “Menino de Engenho” em 1932, “Doidinho” em 1933 e “Bangüê” em 1934. Outros autores como Érico Veríssimo e Graciliano Ramos estariam publicando suas obras por toda a década de 30 e 40. Para a censura católica e muitos de seus intelectuais, tais obras apenas seriam capazes de perverter seus leitores: “Passou a hora das coisas bonitas”, diria o crítico católico Tristão de Athayde. Diante de tal contexto intelectual e tomando como parâmetros os posicionamentos adotados pela Igreja Católica de grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo, o jornal O Apóstolo concentrava seus esforços de censura literária nas mulheres. Havia grandes preocupações com o “excessivo” apelo ao amor-romântico presente em muitas obras lidas por elas, que, segundo a ótica católica, estimulava as leitoras a “devaneios intermináveis” que poderiam culminar em adultério ou na dissolução do casamento, uma vez que “As mais das vezes esses livros são romances amorosos, compostos em estilo que excita a imaginação que provoca a curiosidade, faz acordar as paixões, e deste modo conduz o leitor ao pecado”, assim “A Igreja é obrigada a proibir tal leitura afim de defender seus filhos que não percebem o perigo” 9 , ou seja, as “suscetíveis” e “volúveis” mulheres. 3

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