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De amor e romances: a censura, a literatura, o ... - Fazendo Gênero

De amor e romances: a censura, a literatura, o ... - Fazendo Gênero

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Todo amor romântico apresentado nos folhetins e na literatura não-católica em geral assustava o clero, pois não havia espaço em seus preceitos para discussões sobre questões ligadas a sexualidade e ao corpo, especialmente o feminino, uma vez que estas sempre foram tratadas dentro do âmbito do conceito do pecado, “O cristianismo retomou a idéia difamadora do amor como pecado. De Eros como doença” 10 , refletindo, além idéias difundidas nos primeiros séculos do cristianismo, um verdadeiro medo secreto do adultério, justificado pela tentativa de manutenção da instituição familiar. Assim, nas palavras do preocupados censores: “precisaria duma verdadeira enchente de bons livros, para reparar o mal que fizeram e fazem as enchentes lamacentas de livros maus” 11 . E para que esse “bons livros” chegassem aos católicos da capital catarinense, O Apóstolo indicava várias obras da editora Vozes, através de entusiasmadas resenhas, sempre informando que estes poderiam ser adquiridos na Livraria Central, no centro de Florianópolis. Quanto a preocupação com o cinema, os censores da Igreja Católica não poupavam críticas. Desde sua invenção até sua ascensão como prática de lazer, nos de 1930 e 1940, quando essa indústria ganhou força especialmente nos EUA, transformando Hollywood em um referencial mundial para as produções cinematográficas, quando passou a fazer parte da vida, também, das capitais brasileiras, o clero e seus censores encontraram um forte contraponto as suas representações discursivas que era capaz de envolver e sensibilizar mais do as palavras, uma vez que era muito mais fascinante o mágico espetáculo das imagens em movimento. Esta preocupação com o cinema, por parte dos porta-vozes da Igreja Católica, estava mais direcionada aos novos hábitos inspirados no modo de vida “moderno” dos norte-americanos e europeus, que provocavam mudanças nas concepções de vida das classes médias. As novas representações de homens e mulheres fascinavam, todos incomparavelmente belos, vestidos por figurinistas sofisticadíssimos, embalados por histórias desenroladas em vidas fascinantes, no glamouroso ambiente onde brilhavam as divas. A influência de Hollywood e também de Seleções do Reader’s Digest traziam para a sociedade brasileira uma grande leva de sonhos americanizados, além de ditarem os últimos conceitos da moda: bigodes à la Gable, penteados à la Garbo, maiôs à la Grable. E nas conversas, as últimas fofocas sobre a vida dos astros. Eram modelos para homens e mulheres inspirarem-se. Os católicos de O Apóstolo criticavam veementemente tais modelos, lançando mão de argumentos sensacionalistas de veracidade duvidosa: Um professor da universidade de Praga na Techeco-Slovaquia, tomou sobre si o imenso trabalho de pedir em todas as grandes fábricas de filmes notícias sobre mais do que mil atores cinematográficos, ‘estrelas’ ou ‘não-estrelas’, masculinos e femininos. E o resultado? 310 foram assassinos, 74 falsários, 43 incendiários,. 165 ladrões, 181 perjúrios, 405 adúlteros, etc. 4

Esta é a corja de criminosos que entusiasma milhões de visitantes dos cinemas. Isto são os modernos educadores do povo. Não admira que eles exalem um ar fétido de imoralidade. 12 Toda essa euforia demonstrada pelas classes médias acaba por gerar uma intensa preocupação por parte da Igreja Católica, que empreende uma pesada censura ao cinema, sugerindo aos seus fiéis, em um primeiro momento, evitarem totalmente as salas escuras dos famigerados cinemas, pois a sedução que este exercia era ainda mais forte do que a dos romances, despertando sensações que mexiam com todos os sentidos, e que eram acessíveis a todos, atingindo até mesmo aos não-letrados. Com o passar dos anos, percebendo que era incapaz de afastar totalmente os fiéis das salas de exibição, a Igreja adota uma nova postura: a censura dos filmes. Desta maneira estes eram classificados em três categorias: familiares, aconselháveis apenas para homens, e desaconselháveis. Nas páginas de O Apóstolo era possível perceber que havia uma consonância entre os discursos católicos catarinenses e a preocupação do próprio Vaticano para com o cinema: “O santo padre em recentíssima assembléia na cidade do Vaticano falou sobre o problema do cinema”, onde deliberou que todos os fiéis deveriam ter uma promessa “renovada anualmente” de que “jamais assistir a maus filmes”, seguindo sempre as recomendações da censura eclesiástica. 13 A preocupação com as mulheres consideradas sempre tão “inocentes” e suscetíveis à sedução pelos modelos e os modos de vida apresentados nas fitas de cinema, mantinha-se constante, especialmente quando se tratava de moças “casadeiras”, pois como publicou O Apóstolo: “O cinema é um inimigo encarniçado ao matrimônio cristão”, “um eficaz propagador da moda e dos costumes imorais”, e que “despreza a família”, assim um risco para as frágeis mulheres, uma vez que “o cinema, por fim, é a antesala do inferno” 14 . Enfim, durante a primeira metade do século XX, estava claro e esforço empreendido pela Igreja Católica na manutenção de suas representações, especialmente aquelas referentes às mulheres, e sua “cruzada” contra aqueles modelos que se contrapunham aos seus. Sobretudo, é interessante perceber que essa reafirmação constante de representações dentro dos discursos católicos sinalizavam a perda de sua eficácia, e a tentativa por parte do clero, de reavivar e prolongar o papel da Igreja enquanto fornecedora de referenciais para a organização social. Entretanto, seria inocência afirmar que a força das representações, os valores e o poder organizacional da Igreja Católica acabou por perder-se na história, mesmo diante da sociedade do século XXI, entre a efemeridade e o ritmo frenético das mudanças, a Igreja tem surpreendido ao mostrar-se presente, forte e influente. Referências BERGER, Peter. O Dossel Sagrado – Elementos para uma teoria sociológica da Religião. São Paulo: Paulus, 1985. 5

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