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Corpo, gênero e sexualidade em travestis de ... - Fazendo Gênero

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Como levantado por

Como levantado por algumas travestis, estas mudanças nas tradições provocariam um afastamento entre as gerações e uma estigmatização das mais velhas, que, além das questões já apontadas, são consideradas pelas mais novas como a “geração Aids”. A partir destas primeiras observações e entrevistas que deram origem a minha pesquisa de mestrado, levantei a hipótese que na relação intergeracional de travestis parece ser reiterada uma visão ocidental dominante acerca do envelhecimento, em que a velhice é encarada como um período de degeneração física, social e psicológica (FEATHERSTONE & HEPWORTH, 2000). Deste modo, se por um lado as travestis questionam normas consideradas “naturais” em nossa sociedade, como a heterossexualidade reprodutiva, parece haver uma reiteração da visão ocidental dominante acerca do envelhecimento. Deste modo, proponho uma breve reflexão acerca das intersecções entre gênero, sexualidade e idade na produção desta posição de sujeito. Gênero, Sexualidade e Idade: nomadismo e práticas travestis Não é suficiente afirmar que os sujeitos humanos são construídos, pois a construção do humano é uma operação diferencial que produz o mais ou menos ‘humano’, o inumano, o humanamente impensável. Esses locais vêm a limitar o ‘humano’ com seu exterior constitutivo, e a assombrar aquelas fronteiras com a persistente possibilidade de sua perturbação e rearticulação (BUTLER, 1999, p. 159). Em seu livro “Problemas de Gênero” Judith Butler (2003) utiliza o exemplo das travestis para relacioná-las com seu conceito de “abjeto”, apontando assim que estas práticas seriam desafiadoras em relação às normas de gênero e sexualidade. Para a autora estes abjetos são constituídos no processo de produção do sujeito, visto que não atendem a coerência implicada na matriz heterossexual reprodutiva, são sujeitos incoerentes, que produzem diferenças. Na leitura butleriana, deste modo, estes seres abjetos colocam em xeque a heteronormatividade reprodutiva e a diferenciação sexual, no sentido que deslocam esta lógica. As práticas travestis denunciam que não há uma simetria dada entre sexo, gênero e sexualidade, mostrando que esta coerência é fabricada para o propósito da heterossexualização compulsória dos corpos. Deste modo, ao fazer o gênero na prática, por meio de performances repetidas das normas de gênero, as travestis se “fazem mulher”, colocando em evidência, em forma de “parodia do gênero”, o caráter performativo e artificial das identidades de gênero. Miskloci e Pelucio (2006) afirmam que o uso do conceito de performatividade de Butler foi confundido em muitas análises como performance, provocando uma série de equívocos de leituras voluntaristas do sujeito. Como apontado por estes autores, o uso do exemplo das travestis seria assim uma metáfora utilizada por Butler de forma a exemplificar sua “parodia de gênero”. Desta forma, é 2

importante destacar que para a autora não existe uma relação necessária entre práticas travestis e subversão. O gênero para Butler (1999) é performativo e estes atos performativos devem ser entendidos a partir do conceito de citacionalidade de Derrida. Desta forma, a performatividade não deve ser entendida como um “ato deliberativo” do sujeito, nem “teatralizada”, mas como destaca Butler (1999) uma “prática reiterativa e citacional pela qual o discurso produz efeitos que nomeia”(p. 152). Nesta leitura discorrida por Butler o sujeito é desde sempre coibido e os atos são sempre citações de convenções, assim o fato do sujeito aparecer como autor é um ato performativo da linguagem, uma presentificação, que oculta as convenções das quais ele é repetição, a sua historicidade. O aspecto teatral da performatividade é possível pois estes atos ocultam a história da qual fazem parte, e tornam impossível uma plena revelação de sua historicidade pois são ditos como “naturais”. Assim, na proposta de Butler (1999), a performatividade é um ato sempre derivativo, uma citação das convenções que produzem quais “bodies that matter” 3 . Na medida em que as normas do sexo são citadas, esta citação ou “identificação/sujeição” precede e possibilita a formação do sujeito, tornando-o capaz de viver no reino da inteligibilidade cultural. Assim, sexo é: “uma das normas pelas quais o ‘alguém’ simplesmente se torna viável, é aquilo que qualifica um corpo para a vida no interior do domínio da inteligibilidade” (BUTLER, 1999, p.153) Porém, no processo citacional e de produção de sujeitos inteligíveis há sempre instabilidades com a produção de seres “incoerentes”, os abjetos, seres não-humanos. Como destaca Derrida em seu conceito diferrance 4 , a escritura nunca copia exatamente a fala, há sempre um suplemento, algo que escapa, e deste modo o signo nunca se fixa a um determinado significado. Visto a partir destes questionamentos a materialização do “sexo” nunca é totalmente completa e a reiteração das normas de gênero e sexualidade é constantemente necessária, de forma que a diferença em relação aos abjetos seja constantemente demarcada. Esta reiteração forçosa das normas de gênero e sexualidade aponta que os corpos nunca se conformam completamente às normas, sempre há possibilidades de deslocamentos abertos pelo processo citacional, rupturas. A partir desta reflexão da performatividade enquanto citacionalidade podemos pensar que nas práticas performativas pode ocorrer tanto uma desnaturalização das práticas regulatórias, como também uma reiteração das normas heterossexuais polarizadas de gênero. Como já apontado, a teoria da performatividade não se propõe a ser uma teoria deliberativa e voluntarista do sujeito, deste modo, se a relação entre travesti e subversão fosse certa estaríamos entendendo que o sujeito - constituído de uma vontade individual -pudesse mudar a realidade sua social e histórica por um projeto individual e voluntário. Bento (2007) e Fernandéz(2000) afirmam esta questão em suas pesquisa, ao afirmar que não seria possível imputarmos a estes sujeitos o caráter de subversivos, pois estes sujeitos abjetos 3

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