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Corpo, gênero e sexualidade em travestis de ... - Fazendo Gênero

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participam do mesmo

participam do mesmo sistema social e simbólico, e é por meio dessas categorias que dão sentido a suas vidas. Segundo Miskolci & Pelúcio (2006), nas práticas travestis há um processo de desnaturalização, mas que não pode ser tomado como um enfrentamento politicamente engajado, a experiência de conflito com as normas pode ser até mesmo provocativa e desestabilizadora, mas não é capaz por si só de modificar a norma. No encontro de gerações, como visto no campo em Londrina, as travestis mais velhas apontam que há um distanciamento das mais novas, sendo consideradas por estas como “estigmatizadas”. Estas questões apontadas pelas mais velhas parecem reforçar o paradigma ocidental dominante acerca do envelhecimento. Deste modo, mesmo as travestis sendo abjetos em relação às normas de gênero e sexualidade e, portanto, questionadoras em relação à matriz heterossexual reprodutiva, na relação entre as gerações parece haver uma reiteração da visão ocidental dominante acerca do envelhecimento, com a produção de seres mais abjetos, no caso, as travestis mais velhas. Esta leitura da produção de sujeitos procura entender como o sujeito é construído por e como uma matriz excludente de relações não somente de gênero e sexualidade, mas também, de idade, raça/cor, classe e regionalidade. Desta forma, podemos relativizar o peso dado a matriz heterossexual reprodutiva na leitura de Butler, visto que o sujeito é atravessado por múltiplos eixos de desigualdades. Como Haraway (2004) aponta, as categorias de gênero, raça, sexualidade, classe e idade, como marcadores sociais, são construídas sócio-historicamente e marcam neste processo a produção do “humano” como já apontado. Estas categorias não podem fornecer base para a crença em uma unidade “essencial”; tornando-se necessário, assim, compreender o entrelaçamento das redes de poder destes marcadores sociais na produção das diferenças. Perlongher (1987) em sua análise do negócio do michê já aponta estas múltiplas interfaces no processo de produção dos sujeitos. Fazendo uma leitura dos conceitos de desterritorialização e reterritorialização de Deleuze e Guatarri (1997), o autor propõe que no negócio do michê ocorre uma desterritorialização em relação aos códigos de família, e uma reterritorialização por meio da proliferação de categorias classificatórias, que ressoam de certa forma grandes classificações binárias como feminino/masculino (miche-bicha/miche-macho), rico/pobre, branco/negro, velho/novo. Perlongher (1987) demonstra como o sujeito é reterritorializado por meio destas categorias, e estas territorializações se dão no nível molecular, dos desejos, entendidos como uma montagem elaborada, um agenciamento anterior ao sujeito, assim como afirma Perlongher (1987): no negócio do michê estas distinções sociais são desejadas. O nômade de Deleuze e Guatarri (1997), e apropriado por Perlongher(1987) opera uma desterritorialização, como na parodia de gênero de Butler (2003), sua relação é de deslocamento, porém 4

esta desterritorialização é acompanhada de reterritorializações, que são territorializações perversas. Como afirmam Deleuze e Guatarri (1997): Se o nômade pode ser chamado de o Desterritorializado por excelência é porque justamente a reterritorialização não se faz depois, como no migrante, nem em outra coisa, como no sedentário (...) Para o nômade, ao contrário, é a desterritorialização que constitui sua relação com a terra, por isso ele se reterrritorializa na própria desterritorialização (p.53). Partindo destes questionamentos, podemos apontar que as travestis são desterritorializadoras em relação a uma série de normas convencionadas acerca de gênero e sexualidade, e como os nômades, parecem ocorrer reterritorializações de códigos relacionados às concepções hegemônicas acerca do envelhecimento, ressoando uma distinção entre juventude/velhice. Podemos pensar também, que estas reterritorializações não se dão somente na relação intergeracional, como apontado, mas também nas próprias relações de gênero e sexualidade - como já pensando na apropriação do conceito de citacionalidade por Butler - além das outras relações que estão em jogo na produção destes sujeitos, como raça/cor, classe, regionalidade, dentre outros. Referências BENEDETTI, Marcos. Toda Feita: corpo e o gênero das travestis. Rio de Janeiro: Garamond, 2005. BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”. In: LOURO, G.L. O corpo educado – pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: a Autêntica, 1999. DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. Micropolítica e Segmentaridade. In: Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia Vol. 3. São Paulo: Editora 43, 1997. DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. Tratado de Nomadologia: A Máquina de Guerra. In: Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia Vol. 5. São Paulo: Editora 43, 1997. DERRIDA, Jacques. A Escritura e a Diferença. São Paulo: Perspectiva, 1971. FEATHERSTONE, Mike & HEPWORTH, Mike. Envelhecimento, Tecnologia e o curso de vida incorporado. In: DEBERT, G.G. & GOLDSTEIN, D.M. (Orgs.). Políticas do corpo e o curso de vida. São Paulo: Editora Sumaré, 2000. FERNANDÉZ, Josefina. Cuerpos desobedientes: Travestismo y identidad de género. Buenos Aires: Edhasa, 2004. 5

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