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A Cidade das Putas José Miguel Nieto Olivar ... - Fazendo Gênero

A Cidade das Putas José Miguel Nieto Olivar ... - Fazendo Gênero

netos. E a praça é

netos. E a praça é dela. Desde mais ou menos 25 anos faz ponto... nela. Prostitui-se, nela. Sim. E faz amigas, namora, apanha, batalha, luta, bebe, resolve a vida... nela 2 . 2. Solia tem 43 anos e faz 4 anos aprendeu a pegar ônibus para se mobilizar em Porto Alegre. Acha muito muito engraçado as pessoas fazerem fila enquanto esperam. Várias vezes já caiu dentro do ônibus. Bruna, que tem 40, começou a ir no cinema, pela primeira vez, aos 35. Não sabia ir no supermercado, nem vadiar pela cidade. Também não pegar ônibus. Solia pulou da cama depois de trepar com um cara que nem era cliente nem era marido. Não sabia o que mais fazer depois do cara gozar. Muito apanharam da polícia. Muito apanharam dos maridos. Cris e Ica, com 46 e 42 anos, não fundiram seu início na prostituição com a sua trajetória sexual nem cidadã. Cedo largaram seus maridos ou aprenderam a fugir deles. Circulavam a Praça da Alfândega, se vestiam “mais discretamente”, namoravam vários homens e moravam juntas. Também apanharam da polícia, também dos maridos. Não gostam de “putaria”. 3. Qualquer dia entre agosto de 2006 e agosto de 2008. Ainda na rua Voluntários. A porta do elevador se abre e, na minha frente, do outro lado do corredor, duas mulheres jovens de pequena lingerie, uma loira a outra morena, esperam sentadas num sofá. Sobre elas uma luz tênue, pintada de amarelo pela cortina; sobre mim, fora do elevador e fora delas, uma luz branca, intensa, limpa. Elas trabalham na sala Gre-Nal, do quarto andar de um prédio da “Volunta”, no centro de POA. Assim que entramos na sala, mais uma aparece, com baby-doll e salto alto. Homens entram e saem, bebem cerveja, olham, paqueram, conversam com elas e, às vezes, fazem programa. Para o consumidor masculino, este quarto andar é, literalmente e como muitos prédios do centro de Porto Alegre, uma galeria de mulheres (e para uma mulher da sala?). Em cada porta uma ou duas aparecem, convidativas, generosas, de roupinhas minúsculas, de tecidos suaves, brilhantes, transparentes. Muita música, sexo, fumaça, prazeres múltiplos, dinheiro, resistências e ilusões se constroem atrás das fachadas cinza dos prédios de oficinas que ocultam o sol de inverno e o rio Guaíba. 4. Rua Garibaldi entre Voluntários e Farrapos. Histórico ponto de prostituição e comércio de drogas. Na noite do 7 de maio de 2007 vários homens do 9º Batalhão da Brigada Militar fecharam esse trecho da rua. Foi uma grande batida. Muitas prostitutas foram agredidas pelos brigadianos, obrigadas a sair (quase)nuas à rua, interrogadas violentamente e revistadas por homens, não 2

mulheres, como a lei ordena. A partir desse momento, e pelos dias seguintes, elas foram proibidas de estar na calçada. Com ameaças como atiro nos teus pés, foram obrigadas a se manter nos umbrais das portas dos hotéis. Um grupo de brigadianos ficava sempre de plantão, entre as 8 horas e as 22. O NEP, então, solicitado pelas mulheres que trabalhavam naquela rua, começou o advocacy de direitos humanos com a Secretaria de Justiça e Segurança e a Promotoria de DH do Ministério Público. Saímos da reunião com a Doutora Temis, Promotora de DH do Ministério Público. O Major Freitas diz, “em off”, com o maior descaro, apenas se fechando a porta do elevador, que se eu fosse vocês, envolvia a imprensa no assunto... Isso é um assunto político, uma capa em Zero Hora terminaria com tudo. Eu vou falar com meu superior, mas tenho 99% de certeza que nada vai mudar. O homem, depois de reconhecer que o que estão fazendo “não tem nenhuma base legal”, bota toda a culpa numa decisão pessoal do novo Secretário de Segurança, que, em companhia de sua esposa e com sua moral de evangélico emocionada pela visita do Papa, “decidiu que não queria ver mais prostitutas em seu Estado.” (Insiste no escândalo nos meios de comunicação, sem que as senhoras digam que o Major Freitas falou, não é? Ri. Todos os brigadianos disseram o mesmo). Em “in” Jussara, “mulher que é delegada e policial”, em representação do Secretário de Segurança declarou que existia “uma ordem para reprimir a criminalidade em todas as imediações da Secretaria”, mas que “todas aqui sabemos bem que o trottoir não é crime.” Então na mesa da Secretaria de Segurança o NEP negocia oferecendo “roupas e comportamentos descentes das meninas na rua”. Jura em “in” que nenhuma das mulheres (que participa do NEP e das últimas reuniões, que das outras não damos conta) está envolvida com tráfico, que o rufianismo não existe mais, que todas as que estão aí trabalham pra manter seus filhos, que são profissionais do sexo autônomas, que não sabem nada de menores naquela rua... E que o policiamento é ótimo para a gente porque inibe a criminalidade. Que crime e prostituição são duas coisas que não vão mais juntas. Em “off” as mulheres fazem com os soldados um pacto de ajuda mútua: elas ficam na rua, eles não vêem nada, se a viatura vem, elas se guardam, eles ficam bravos. Em “off” a viatura aceita. Em “off” os soldados ficam do lado dos que em “off” são traficantes, “cafetões”, “vagabundos”, “mão-grandes”... somando-se na vigilância e controle das meninas descentemente provocativas do outro lado da rua. Em “off” a Bruna e o Policial Civil que toma a ocorrência descobrem que a maioria delas são de Santa Catarina. Quiçá em “in” demais pergunto pro Major como é que ele interpreta que, mesmo sendo uma operação sem base legal, tenha já duas semanas em andamento. A Dra Temis intervém, Cris me justifica nervosa. Ele fica em total silêncio, “é uma pergunta que não posso responder”, diz entre 3

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