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Entre o público e o privado: Interpretações sobre ... - Fazendo Gênero

Entre o público e o privado: Interpretações sobre ... - Fazendo Gênero

quase 70% se

quase 70% se relacionavam a crimes cometidos no ambiente familiar. Indício desta resistência em reconhecer que há riscos no espaço tido como de sagrada proteção à criança é a não utilização do termo incesto nas narrativas que abordam este tipo de violência. A palavra não é citada nas seis reportagens que tratam destes casos (GP e ZH). Para Cromberg (2002, p. 29) enfrentar o incesto representa uma dificuldade universal, trata-se do impronunciável: “O incesto mesmo, ou o simples fato de dever falar dele provocam tal desgosto a alguns, que, por vezes, como na China e Indonésia, não se pode pronunciar a palavra”. Na Zero Hora, em quase metade dos casos individualizados noticiados, ou 46,15%, o abuso é seguido de assassinato da criança ou adolescente. Na Gazeta do Povo, os casos de violência que culminam em assassinato representaram 30,31% da cobertura sobre abuso sexual. Em dois dos casos – um de cada jornal - o homicídio foi praticado por homens que eram também pai e padrasto das crianças, Os números de violação sexual envolvendo homicídio, especialmente no jornal gaúcho também não tem batem com a realidade. O serviço de denúncias do Disque 100 enquadra o item “casos com morte” dentro do item “violências”. Não há por parte do governo federal produção de dados estatísticos que remeta à categoria, abuso sexual seguido de morte. Nos últimos cinco anos foram registradas 104.871 denúncias 5 relacionadas à criança. Foram contabilizados por este serviço de denúncia 219 mortes, o que representa 0,2% do total das violências. O número de notícias sobre casos de abuso sexual que ocorreram fora do país no período pesquisado representou 30% (8) sobre o total das 26 notícias classificadas como casos individualizados. Já na Gazeta do Povo este percentual foi de 21% (7) das 33 notícias analisadas. A valorização dos casos internacionais pode ser explicada em certa medida pela idéia de que o estranho, principalmente o estrangeiro, oferece mais riscos (SORENSON et al apud PEELO et al, 2004). Estas notícias, que se relacionam a abusos cometidos no exterior trazem ainda menos elementos para identificar como esta violência se desenvolveu. O fato das matérias serem quase sempre fruto da compilação dos textos das agências de notícias, ou seja, não há um trabalho de apuração por parte do redator local junto às fontes primárias, ajuda a explicar porque os detalhes relacionados ao sujeito vítima e à cena de abuso não aparecem quando o caso se relaciona à internet. No lugar de se entender que o crime de abuso não encontra fronteiras no espaço virtual, o que há é uma ênfase no aspecto punitivo do crime: o risco é apresentado como difuso às crianças e adolescentes, já que não há, no texto, informações que permitam compreender como o crime do abuso pode fazer vítimas na rede. Os dois jornais trouxeram também pouco sobre as vítimas no período pesquisado. As informações se reduzem à idade e o sexo das crianças. Diferentemente do que ocorre com as notícias sobre abuso sexual que se referem a casos individualizados – situados principalmente na editoria de mundo e de polícia – as notícias em que o 4

tema aparece de forma transversal ou conceitual não estão numa editoria fixa. Das 25 notícias da ZH que tratam o tema transversalmente, em apenas seis (24%), o abuso sexual aparece inserido numa abordagem que prioriza a discussão da violência contra a infância e apresenta caminhos para a proteção de crianças e adolescentes. Já na GP, esta proporção muda. Das 29 reportagens em que o tema aparece transversalmente ou conceitualmente, 16, estão relacionadas à temática dos direitos da infância e adolescência. Em muitas das notícias restantes da GP e da ZH o abuso sexual não é fato principal da matéria. São casos em que o referido crime, que representa uma das piores violências contra crianças e adolescentes, figura de maneira dispersa no texto. Ora aparecendo como um risco difuso, que provoca preocupação, justifica medos e ações, ora como doença que pode estar por trás dos mais terríveis atos de violência, apenas de natureza sexual. Um dos efeitos é que a gravidade do fato aparece de maneira fragmentada, sem elementos que possam produzir um debate sobre o tema ou um posicionamento por parte do público leitor. As análises permitiram produzir pistas sobre as abordagens mais praticadas pelos jornais pesquisados e as diferenças entre os dois. Uma das interpretações é que no jornal paranaense o abuso sexual foi enquadrado mais frequentemente como um problema relacionado à violência doméstica, ou seja, mais próximo ao que as estatísticas oficiais revelam sobre o fenômeno. E acredita-se que não por acaso, a maioria das reportagens que recebeu este enquadramento foi construída por profissionais distinguidos pela Andi como Jornalistas Amigo da Criança. O fato se constitui num indício de maior sensibilidade do jornal paranaense ao discurso da organização. Apelo não tão visivelmente identificado no jornal gaúcho. As razões para a maior ou menor inclinação do jornal aos pressupostos da Andi não fizeram parte da investigação levada a cabo no presente trabalho. Mas é importante ressalvar que o Paraná tem uma Agência ligada à Rede Andi – diferentemente do Rio Grande do Sul – que monitora diariamente o conteúdo das notícias associadas à infância nos jornais do Paraná, além de oferecer pautas e ainda articular a relação dos meios jornalísticos com a rede institucional, ou seja, a Agência parece atuar como um regulador local do discurso produzido pela Andi. E há ainda outra questão que pode ou não estar vinculada à primeira. A rede institucional de proteção aparece citada mais freqüentemente nas reportagens do jornal paranaense do que no jornal gaúcho. Na Zero Hora, os profissionais admitiram que atores sociais como Conselheiros Tutelares e organizações da sociedade civil ligadas aos direitos da infância não fazem parte do repertório de fontes consultadas para a produção das narrativas. O fato pode também ser entendido como pista de que o tema do abuso sexual está ainda menos constituído como um problema social no Rio Grande do Sul, pois um dos indicadores para esta problematização é justamente a presença de interlocutores, porta-vozes, mediadores que joguem esta violência para o espaço público e exijam medidas para combatê-la. Mas importa referir que também na Gazeta do Povo o enfoque da violência doméstica – apesar de mais freqüente – não é 5

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