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Relações de gênero e geração em um assentamento rural de ...

Relações de gênero e geração em um assentamento rural de ...

afunilamento da

afunilamento da escolarização no segundo segmento do fundamental, há certa “evasão escolar temporária” em Paz na Terra, como também foi identificado por Andrade (1998) ao sugerir que a passagem do 1º para o 2º grau consiste em um momento de redefinição em relação às possibilidades que lhes estão postas, ocasionando a interrupção dos estudos por um tempo indeterminado, mas não o abandono. Esse aparente desinteresse dos jovens em relação à escolarização pode ser entendido, como apontado por Neves (1999), como a expressão da inviabilidade das instituições, dentre elas o sistema escolar, em acenar possibilidades de mobilidade social para essa população. E de uma forma geral, há uma dificuldade de projeção futura por parte de todos os jovens entrevistados em Paz na Terra, sejam rapazes ou moças. Porém há uma diferença no que concerne à relação que os jovens estabelecem com o assentamento, a circulação pelas esferas de sociabilidade e a questão de gênero. Uma das queixas recorrentes da juventude do assentamento era que lá “não há nada para fazer”. Essa falta do que fazer e a queixa da ausência de espaços de sociabilidade possuem pesos diferenciados conforme as relações de gênero nesse espaço social. As esferas de sociabilidade para os rapazes são mais amplas e diversificadas do que para as moças, os rapazes andam em grupos, e pescam, andam a cavalo, jogam bola, jogam flipper à noite, dentre outros jogos. Já as moças a circulação no assentamento é menos intensa, restrita a casa da família, de algumas amigas, ir ao culto na Igreja, dentro ou fora do assentamento, atividade predominantemente feminina, ou assistir ao jogo de futebol aos domingos. As queixas por parte das jovens se estendem a uma rejeição generalizada do assentamento, em que lá não há nada para fazer, apenas assistir televisão e que é um lugar “muito feio com gente feia”. As queixas são reveladoras também das representações das jovens sobre o assentamento, como expressa uma delas ao comparar o assentamento com uma localidade próxima: “Porque isso aqui que não tem nada, não é? Isso aqui pode se considerar que é calmo, porque aqui dentro não tem nada”. Entretanto, outra queixa recorrente, por parte das jovens, era no sentido das pessoas falarem mal umas das outras por trás, e que elas não poderiam conversar com rapazes que as pessoas já faziam comentários, reveladoras do controle exercido pela coletividade no assentamento, tanto pelos pais, mas também pela “fofoca”. (BAILEY, op cit.) Assim, foi possível perceber, como outros autores têm revelado que há a reprodução por parte dos jovens, especialmente das moças no caso aqui estudado, das imagens estereotipadas do roceiro e do sem terra, imagens dominantes acerca do meio rural e do processo de reforma agrária e do meio rural (CASTRO, 2005). Essa reprodução das imagens pejorativas a respeito da reforma agrária e daqueles que dela participam, como “baderneiros”, “ladrões”, “vagabundos”, dentre outras, contribui para uma contraditória identidade. 4

O desejo de sair do assentamento representado na imagem do lugar parado onde não há nada para fazer, ao mesmo tempo em que se revela como um contexto mais restrito às jovens, limitadas ao espaço doméstico e a pouca circulação no assentamento. Em termos de perspectivas futuras em relação ao assentamento as diferenciações podem ser atribuídas, em grande medida, as desigualdades de gênero, que contribuem para o fato das moças serem mais propensas a sair do assentamento Paz na Terra do que os rapazes, sobretudo a não projetar a vida futura no meio rural, como já foi mencionado. Ir embora ou sair dali foi a resposta direta de algumas jovens quando lhes perguntei o que pretendiam fazer no futuro. Nesse sentido, a inviabilidade (e invisibilidade) em muitos casos de formulação de projetos relacionados à agricultura e ao meio rural por parte das jovens de Paz na Terra, esta associada tanto ao seu lugar no assentamento e na família, como a representação negativa construída acerca do mesmo, como sinônimo de atraso e isolamento. Assim, a desvalorização da agricultura e do meio rural, bem como a saída dos jovens do campo, antiga problemática nos trabalhos sobre o campesinato e agricultura familiar, são questões que estão postas no assentamento Paz na Terra, e representam algumas das contradições e desafios que o projeto de reforma agrária irá enfrentar. 3. Referências Bibliográficas ABRAMOVAY, Ricardo et al. Juventude e agricultura familiar: desafios dos novos padrões sucessórios. Unesco: Brasília. 1998. ______ e CAMARANO, Ana Amélia. Êxodo Rural, envelhecimento e masculinização no Brasil: panorama dos últimos 50 anos. IPEA, texto para discussão n. 621. Rio de Janeiro, 1999. ANDRADE, Márcia Regina de O. A formação da consciência política dos jovens no contexto dos assentamentos rurais do movimento dos trabalhadores rurais sem-terra. (Doutorado em Educação). Universidade Estadual de Campinas. 1998 BAILEY, F.G. Gifts and Poison. The politics of reputation. New York, Schocken Books. 1971 BOURDIEU, Pierre. Juventude é apenas uma palavra. In: Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero. 1983. BRUMER, Anita. Gênero e Agricultura: a situação da mulher na agricultura do Rio Grande do Sul. In: Revista de Estudos Feministas. Centro de Comunicação e Expressão, Centro de Filosofia e Ciências Humanas / UFSC, Florianópolis – SC. v. 12, n. 1, jan-abril 2004 CARNEIRO, Maria José. Juventude rural: projetos e valores. In: ABRAMO, H, e BRANCO P. (org). Retratos da juventude brasileira. Análises de uma pesquisa nacional. São Paulo: Fundação Perseu Abramo. 2005 CASTRO, Entre ficar e Sair: uma etnografia da construção social da categoria jovem rural. Tese doutorado. PPGAS. Museu Nacional.UFRJ.2005. 5

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