Views
4 years ago

Práticas corporais e esportivas. ST 21 Silvana ... - Fazendo Gênero

Práticas corporais e esportivas. ST 21 Silvana ... - Fazendo Gênero

as práticas

as práticas esportivas seduziam e desafiavam muitas mulheres que, indiferentes às convenções morais e sociais daquele tempo, aderiram a sua prática independente do discurso hegemônico da proibição. O futebol não escapa à essa constatação. Em 1921, por exemplo, há registro de um jogo realizado na cidade de São Paulo entre senhoritas “tremembenses” contra senhoritas “cantareinenses” (MOREL e SALLES, 2005, p. 262). Mais do que buscar identificar desde quando as mulheres praticam o futebol no Brasil, torna-se necessário dizer que, desde seu início, essa participação representou uma transgressão ao hegemonicamente aceito como constitutivo da identidade feminina que tinha na imagem da mãe grande aceitabilidade. Lembremos que neste tempo o corpo feminino é visto como um bem social a alojar a esperança de uma prole sadia. É no seu corpo que se gestava o bom fruto e o “fructo é o transbordamento da seiva que se desprende para reproduzir-se.” (AZEVEDO, 1920, p. 10). O fruto era, portanto, resultado de um projeto social que percorria o corpo feminino inscrevendo-lhe marcas que, simultaneamente, evidenciavam seu fortalecimento e asseguravam sua fragilidade uma vez que continuavam a demarcar seu local social a partir dos contornos de sua natureza anatômica. Nesse sentido, é possível afirmar que, se por um lado, a inserção feminina no futebol pode ser vista como uma atitude transgressora porque as mulheres fizeram valer suas aspirações, desejos e necessidades, enfrentado um universo caracterizado como próprio do homem, por outro, pode significar uma adaptação aos valores e práticas comuns a esse esporte visto que, em algumas situações, essa inserção esteve atrelada a afirmação de uma representação hegemônica de feminilidade “medida”, como se pode esperar, pela aparência dos corpos das jogadoras. Um exemplo ilustrativo dessa situação foi a reedição, em 2001, do “Paulistana”, campeonato paulista feminino de futebol organizado pela Federação Paulista de Futebol onde as atletas, para participarem do campeonato precisavam cumprir algumas condições estéticas, pois os dirigentes da Federação prometiam realizar um campeonato “bom e bonito”, que unisse o “futebol à feminilidade”. Proibiu-se, então, a participação de atletas de cabelos raspados e a preferência era por moças que tivessem cabelos compridos. (KNIJNIK e VASCONCELLOS, 2003, p. 5). Se para as mulheres esportistas do início do século XX a beleza era vista como sinônimo de saúde e também de uma genitália adequada para cumprir suas funções reprodutivas, a partir dos anos setenta, a esse discurso se incorporará outro: o da erotização de seus corpos. Assim, estádios, ginásios, academias, parques e praças são identificados como locais sociais a espetacularizar os corpos das mulheres ressaltando alguns atributos designados como característicos de seu sexo: a graciosidade, a beleza e, sobretudo, a sensualidade. Objeto do olhar de outrem, o corpo erotizado no e pelo esporte, inventa uma imagem da atleta contemporânea que, mesmo exercitada fisicamente, inscreve no seu corpo marcas que o tornam absolutamente desejável.

Aqui é possível identificar um processo educativo a produzir a espetacularização tanto de quem vê, quanto de quem é ou sente-se o próprio espetáculo, seja pela exibição de performances cada vez mais aprimoradas e pela construção de corpos comumente identificados como perfeitos, seja pela associação da sua prática com a aquisição de saúde e de beleza e a relação desta com a erotização dos corpos. A reportagem “Flores do Campo” publicada na revista Veja, em 1996, cuja temática era a participação feminina na Olimpíada de Atlanta, não deixa dúvidas que de erotizar o corpo feminino faz parte do espetáculo esportivo. “No futebol masculino, a competência dos jogadores é fundamental para transformar o esporte em um empreendimento comercial. Mas no jogo das mulheres, ao contrário do dos homens, isso não é suficiente. Os clubes estão exigindo que além de saber bater sua bolinha as jogadoras sejam bonitas” (CARDOSO, apud SILVA et, all, 1998, p. 108). O apelo à beleza das jogadoras e a erotização de seus corpos tem como um dos pilares de sustentação o argumento de que, se as moças forem atraente, atrairão mais público aos estádios e, portanto, ampliarão os recursos captados com os jogos, propagandas, produtos e serviços a girar em torno da modalidade. Atrairão, sobretudo, patrocinadores, cuja ausência é comumente apontada pela mídia esportiva como um dos grandes problemas do futebol feminino no Brasil. Agrega-se a esse discurso do mercado, ou ainda, da fala de condições de manter-se nele, um outro que há muito ronda os espaços onde acontece a prática de atividades físicas: o da masculinização das mulheres. Discurso este direcionado não apenas para a identificação de que esporte violentos podem alterar o seu caráter, mas, sobretudo, podem modificar a sua aparência. Afinal, julga-se o quão feminina é uma mulher pela exterioridade do seu corpo. Os argumentos que sustentam esses discursos estão ancorados em uma representação essencialista dos gêneros, segundo a qual, a cada sexo correspondem algumas características que lhe são inerentes e, estas os define. Pressupõe, portanto, a existência de uma certa essência masculina e/ou feminina considerada natural e imutável. A esta concepção opõe-se uma outra, que afirma ser o gênero uma construção social e, por assim ser, admite, para cada pólo da unidade binária (masculino/feminino), diferenças significativas. Partindo das teorizações pós-estruturalistas, esse olhar sobre os gêneros, inaugurado pela historiadora americana Joan Scott, rompe significativamente com a noção de que exista um único jeito masculino ou feminino de ser. Do mesmo modo, permite compreender a impossibilidade da existência de categoria “a mulher” pois estas são plurais e diversas entre si. Admitir essa pluralidade, mais do que uma questão gramatical, representa uma atitude política e epistemológica que fissura a representação em que “mulher”, dotada de uma essência única e “verdadeira”, desdobra-se em mulheres, seres localizados em suas especificidades e experiências múltiplas (Swain, 2004).

1 Práticas Corporais e Esportivas – ST 21 Marcos ... - Fazendo Gênero
1 Práticas corporais e esportivas – ST 21 Arlei Sander Damo ...
1 Práticas corporais e esportivas – ST 21 Sissi A. Martins Pereira ...
Gênero e sexualidade nas práticas escolares. ST ... - Fazendo Gênero
Violência de Gênero no Contexto Esportivo - Fazendo Gênero
Gênero e sexualidade nas práticas escolares ST ... - Fazendo Gênero
Gênero na Literatura e na Mídia. ST. 4 ... - Fazendo Gênero
Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero
1 Gênero e Religião ST. 24 Joice Meire ... - Fazendo Gênero
Gênero Ciência e Tecnologia. ST 22 Claudia ... - Fazendo Gênero
Gênero e Religião – ST 24 Nadia Maria Guariza ... - Fazendo Gênero
Gênero, memória e narrativas - ST 41 Lucia M. A. ... - Fazendo Gênero
1 Gênero , Ciências e Tecnologia. ST. 22 Auri ... - Fazendo Gênero
gênero, idade média e interdisciplinaridade. ST ... - Fazendo Gênero
gênero, idade média e interdisciplinaridade ST ... - Fazendo Gênero
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
ST 38 Márcia Maria Severo Ferraz Vera Lúcia ... - Fazendo Gênero
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
- 1 - ST 49 – A Construção dos Corpos: Violência ... - Fazendo Gênero
Gênero, violência e segurança pública ST. 39 ... - Fazendo Gênero
Gênero e Religião ST. 23 Erica Piovam de Ulhôa ... - Fazendo Gênero
Gênero nas 'ciências naturais e exatas'. ST 25 ... - Fazendo Gênero
Genêro e Religião – ST 24 Maria Cristina Leite ... - Fazendo Gênero
Gênero, Ciência e Tecnologia. ST 22 Maria de ... - Fazendo Gênero
Violência de Gênero ST.5 Ana Luiza dos Santos ... - Fazendo Gênero
1 Gênero e sexualidade nas práticas escolares - Fazendo Gênero ...
Gênero e Religião – ST 24 Sônia Cristina Hamid ... - Fazendo Gênero
1 Gênero, raça/etnia e escolarização. ST 23 Ana ... - Fazendo Gênero
Gênero e Sexualidade nas práticas escolares ... - Fazendo Gênero