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Escrevendo a história no feminino - Fazendo Gênero - UFSC

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Anais do VII Seminário

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 Algo que ficou evidente ao analisar todos os textos é que em nenhum deles apareceu um estranhamento quanto a essa norma, atribuo isso ao fato de que dificilmente alguém estranharia uma convenção tão parecida com a nossa, ou seja, entre nós há muitas coisas que são marcadamente separadas por gênero. Concebo que a Educação Física tem contribuído na promoção dessas distinções ou separações, como lembra Louro (1997, p. 73), ao acionar “justificativas de ordem biológica (da ordem da ‘natureza’) para a separação das turmas femininas e masculinas”, e Costa (2002, p. 44), numa crítica sobre como a educação tradicional, através de seus processos, promove a inculcação de valores sexistas e acrescenta: “refletindo sobre a importância da Educação Física neste contexto, podemos observar na sua história, uma relação determinante com a formação de normas e condutas”. Entretanto, se na cultura Paresí as mulheres também jogassem o Zikunahiti, talvez teríamos relatos mais ensimesmados, pois em nossa visualização durante os jogos ficou explícito que é um esporte que demanda muita destreza, força e coragem, qualidades estas que não fazem parte do rol das que estão ligadas à feminilidade que concebemos. xiii Nas palavras de Costa (2002, p. 44), costumamos identificar como características da mulher que a mesma seja meiga, sensível, medrosa, entre outras, enquanto o homem deve ser firme, agressivo, valente etc. O fato de não aparecer nos textos observações que destacassem que apenas dois esportes não foram disputados por homens e mulheres é bastante revelador de que pode ter ocorrido um processo de naturalização por muito ter se aproximado do nosso próprio modelo de práticas corporais. Neste contexto, entendo da mesma forma que Louro (2000, p. 68), que a “norma não precisa dizer de si, ela é identidade suposta, presumida; e isso a torna, de algum modo, praticamente invisível”. Sem dúvida, seria muito difícil algo que está tão próximo do nosso modelo provocar qualquer reação n@s acadêmic@s, pode ser que a noção de invisibilidade mencionada por Louro faça sentido e por isso mesmo não encontrei nos textos qualquer tratamento crítico para essa questão. As informações são expostas de forma técnica, sem uma reflexão mais aprofundada, mas, e se tivéssemos presenciado algo diferente? Como, por exemplo, os homens jogando Tidimore e as mulheres o Zikunahiti? É bem possível que vári@s acadêmic@s tivessem a iniciativa de fazer comentários jocosos, mesmo levando em consideração de que essas práticas se dão em contexto cultural diferente do nosso. Sem muito receio, afirmo que o esporte que mais se afina com o gênero masculino, a partir de nossas concepções é o Zikunahiti, porque exige vigor físico, coragem e outras qualidades que atribuímos aos homens e para as mulheres, o Tidimore, jamais colocaria em 4

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 risco a integridade física, a sensibilidade e a feminilidade inerentes ao que se espera ou é próprio das mulheres. Sem nos aprofundarmos na questão da sexualidade, entendemos que os papéis masculinos e femininos estavam bem demarcados. Em alguns textos de acadêmicos, acredito que não por acaso, surgiram afirmações de que o momento mais esperado, o ponto alto dos jogos era a realização do Zikunahiti. Isso jamais provocaria qualquer esboço de admiração, pois estamos tão habituad@s a vermos na mídia em geral todo o destaque que é dado às competições de esportes masculinos, sobretudo o futebol, que é bastante explorado pela mídia e que tem competições com muita regularidade, que nos perguntamos: porque os referidos acadêmicos não considerariam o momento mais marcante dos jogos? Justamente aquele em que os índios mostram toda sua virilidade, coragem, astúcia. Costa (2002, p. 46) destaca que podemos apontar como uma concepção ainda muito preponderante em nossa área: “no caso da educação física, mais especificamente nas atividades esportivas, observamos a tradição dos valores e normas masculinos dominantes que reafirmam o mito do ‘sexo forte’ e limitam o espaço feminino”. Nessa mesma direção, não pude deixar de notar dois relatos que destacam essa pretensa superioridade masculina nos esportes: “A prova de arco e flecha era bem esperada por nós acadêmicos e notamos que a maior perícia com o instrumento de caça era dos mais experientes, tanto que o campeão foi um senhor”. Nesse texto a figura feminina foi simplesmente suprimida, mesmo tendo sido um esporte disputado pelos dois gêneros. Todavia, em outro texto, ela aparece, mas com um tratamento bem diverso ao que foi dado ao gênero masculino: Outro fator interessante observado foi durante a prova de arco e flecha (Jaktiye), as mulheres dificilmente conseguiam acertar o alvo, mesmo tendo entre as competidoras uma campeã brasileira que, antes do seu lançamento o locutor a elogiou e disse que estava ali a ganhadora da competição, porém ela assim como as outras não teve êxito. Os discursos, mesmo os aparentemente ingênuos, são determinantes na constituição de identidades de gênero e quando são construídas algumas formulações como estas destacadas, pode-se dizer que há uma atuação de forma inconsciente ou não para a manutenção daquilo que é a norma vigente, por meio de processos de classificação ou ordenação que geralmente operam a partir de uma lógica binária em que um lado é inferiorizado para a ascensão do outro. A partir desses apontamentos, sem perder de vista que ao nos propormos à realização dessa atividade tínhamos como objetivo principal o contato com praticas corporais em 5

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