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Gênero na Literatura e na Mídia ST. 4 Maria do Rosário da Silva ...

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A

A década de 1960 é assinalada por grandes mudanças no cenário nacional - políticas, culturais, sociais - associadas aos avanços tecnológicos, e de modo especial dos meios de comunicação de massa. A produção e o público leitor dos folhetos são afetados pela chegada do rádio de pilha e da televisão. As novas tecnologias não diminuem a produção cordeliana, mas transforma-a significativamente. Ela passa a ser conectada com esses novos meios. O resultado do chamado processo de modernização ocasionou mudanças no formato, na capa, na impressão e no temas abordados pelos cordéis. Novas táticas e estratégias passam a ser usadas no intuído de atender as novas demandas: o público leitor deixa de ser predominantemente rural, e entra em cena um público urbano e universitário. Os discursos elaborados pelos cordelistas assinalam os choques, os espantos, e as maneiras como são recebidas e negociadas as novas sociabilidades, os novos modelos de comportamentos que estão surgindo e colocando em questão os modelos já cristalizados. Podemos dizer que os discursos que circulavam nos anos sessenta – em larga medida decorrentes e conectados com as maravilhas tecnológicas da época – testemunhavam um crescente processo de fragmentação das paisagens culturais, particularmente das noções tradicionais de gênero, de sexualidade, de etnia, de classe, etc. (...) Novas posições de sujeito estava se constituindo e esta imbricação entre o velho e o novo tendia a se dar num cenário de conflito. v São inúmeros os folhetos que abordam temas relacionados às identidades de gênero, geralmente apresentadas como fixas e imóveis. As modas (principalmente relacionadas com as roupas femininas), o homossexualismo, os cabeludos, as drogas, o rock, os comunistas são temas freqüentes nos folhetos do período abordado por nossa pesquisa. Os textos apontam como se constituíram as novas sociabilidades, os novos modelos e as novas identidades. As mudanças afetaram, chocaram, mas inspiram toda uma produção de discursos muitas vezes marcados pelo conservadorismo, tradicionalismo, racismo, marchismo, valores religiosos, antropocentrismo. Durval Muniz de Albuquerque Jr. afirma que a produção da "poesia popular" fornece uma estrutura narrativa que difundiu e cristalizou dadas imagens, enunciados e temas que compõem a idéia de "Nordeste" e de "homem nordestino". Fornece também uma visão tradicionalista que influenciará parte da produção artística da região. Essa forte reivindicação de tipos identitários fechados e unificados deve ser problematizada porque são construções, invenções. Essas unidades homem, mulher não são fixas, mas indeterminadas e instáveis. As identidades são construídas mediante um processo que se dá numa dimensão relacional fortemente marcada por diferenças e por diferentes símbolos. Durval Muniz de Albuquerque Jr. problematiza a invenção do tipo regional de nordestino proclamando sua invenção através de toda uma produção discursiva iniciada no começo do século XX.

Esta constitui-se como uma figura masculina, forte, valente, viril, descendente direta dos antigos grandes patriarcas - responsáveis pela conquista e colonização da região. A nordestinidade se relaciona diretamente portanto, com a masculinidade, compondo uma identidade regional que implica uma identidade de gênero. vi O folheto O Resultado dos Cabeludos de Hoje em Dia aponta para a tensão entre o "tipo de homem nordestino" e as novas sensibilidades/sociabilidades/identidades que estão emergindo no período. Recitemos o que o poeta escreve: Começou em Liverpool Cidade da Inglaterra Quando os Beathes resolveram Dar uma nova moda à terra Quatro rapazes unidos Com os seu cabelos compridos Começaram a fazer guerra. Guerra a todos preconceitos Dos costumes de hoje em dia A moda dos cabeludos Chegou até a Bahia E assim o mundo inteiro De um modo verdadeiro Aceitou essa anarquia. vii Homens que usavam cabelos compridos eram associados com a figura da mulher, eram vistos como efeminados. A narrativa deixa traduzir como os folhetos elaboravam um discurso de reivindicação para manter um tipo de figura masculina. O estranhamento esta relacionado com o "outro" com os modelos que vem de fora. Modelos que questionam as imagens cristalizadas. O tipo de homem nordestino não pode ter cabelos compridos porque corre o risco de perder a "virilidade" e "macheza". Aceitar os novos modelos se constituía numa anarquia. O folheto Peleja de José Gustavo com Maria Roxinha da Bahia nos chama à atenção por sua especificidade: 1) por ser a peleja um gênero da cantoria, também nomeada como desafio, debate ou discussão. É uma contenda poética entre dois cantadores. A associação escrita oralidade é marcante. 2) a peleja citada é uma contenda entre um cantador (José Gustavo) e uma cantadora (Maria Roxinha). Geralmente a participação das mulheres na cantoria fica restrita a condição de ouvinte. Esse fato não significa que muitas mulheres não participassem como cantadoras ou poetas escritoras de cordéis. Maria Roxinha é uma dessas mulheres. Inúmeras pelejas foram memorizadas, transcritas e impressas em formato de folheto. Essa foi escrita pelo próprio José Gustavo. Ele inicia a narrativa relatando sua viagem de Recife a Maceió, onde encontra um “doutor”. Ao ser identificado pelo “doutor” como violeiro já que carregava sua viola, recebe um convite para fazer uma cantoria. Fica surpreso ao perceber que sua parceira será uma mulher, responde ao convite dizendo: Disse eu: doutor, a mulher Nos vence com sua imagem E mesmo cantar com moça

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