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Gênero na Literatura e na Mídia ST. 4 Maria do Rosário da Silva ...

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Precisa muita coragem

Precisa muita coragem Que se apanhar faz vergonha E ser der não fez vantagem. viii O poeta assinala o desconforto masculino de ter que disputar, em público com uma mulher. Treme diante do risco de perder ou ganhar. Seu relato é carregado de ambigüidades, para ele seria vergonhoso não aceitar o desafio, e igualmente vergonhoso seria perder ou ganhar a disputa. O homem precisa de muita coragem para não ser vencido pela imagem da mulher. De que imagem o poeta fala? Da imagem da beleza e o cantador parece retornar ao mito de Adão e Eva no qual a mulher consegue arrastar o homem para o pecado através de sua bela imagem. A imagem da mulher desconcerta o homem deixando-o sem defesa. Durante o evento os contendores são convidados a versar sobre os homens e mulheres. Entram num jogo de acusar e defender: cabe a Maria Roxinha acusar os homens e defender as mulheres e a José Gustavo defender os homens e acusar as mulheres. Entre os homens, o feminino se torna o pólo antagônico, o inimigo interior e exterior que deve ser combatido, e entre as mulheres, o masculino se torna o culpado pelos defeitos que elas carregam. A peleja retoma a discussão do mito cristão de Adão e Eva. Se os animais falassem Diziam: a mulher é bela Se nela há falta, é porque Foi feita duma costela E a ruindade do homem Veio recair sobre ela. (Roxinha) Tendo Deus formado o homem Por um motivo qualquer notou Que entre seus ossos Havia um sem mister Quando ia jogar fora Lembrou-se e fez a mulher. ix (José Gustavo) O folheto A Mulher que Casou Dezoito Vezes é apresentado uma outra imagem de mulher. Uma mulher com características “masculinas” se levarmos em consideração os tipos construídos pela formação discursiva. Dorotéia está condenada a uma maldição que não fica explicada na narrativa: casou dezoito vezes, mas todos os noivos morrem antes que seja consumado o ato sexual. O manter-se virgem é percebido como uma virtude, mesmo que não seja por opção e sim devido à situação. Suas características parecem contribuir para que continue solteira. É uma mulher que não serve para casar porque leva uma vida independente da figura masculina, ou seja, não se apresenta sob tutela de um pai, irmão ou marido. Vejamos como Dorotéia é descrita: Laça boi, mata cavalo, Derruba touro “Pereira” Mulher –macho, sim senhor! Usa punhal e pexeira Luta box e joga bola Numa briga mata, esfola

Sabe jogara capoeira! (...) Anda de noite sozinha Montada no seu cavalo Quando vem de vaquejadas Ou então brigas de galo Na Paraíba de então Nunca encontrou valentão Que pisasse no seu calo! x Notamos a vinculação entre identidade de gênero e identidade regional nordestina de forma que a personagem feminina é pensada no masculino. Denuncia o pensamento de que apenas uma mulher – macho seria capaz de vivenciar o ambiente árido e de difícil sobrevivência do Nordeste. As estrofes acima também evidenciam que nem só para as atividades do lar viviam as mulheres, mas que elas desenvolviam e assumiam atividades diversas. A multiplicidade é uma marca da história das mulheres. Percebemos que as mulheres e os homens apresentados no cordel são múltiplos e embora estejam sendo vistos em associação com as imagens e discursos cristalizados. No cotidiano eles fogem aos constrangimentos e imposições desenvolvendo táticas e estratégias diversas. O poeta Olegário Fernandes observa as conseqüências do banho de mar. Ele preocupa-se com os costumes. Sua atenção nesse folheto estava voltada para o uso do maiô, dos trajes de banho. Registra e comenta os eventos e costumes que expressam mudança de comportamento. No Quadrão a Beira-Mar, poetiza. Quem gosta de banho de praia Sem Ter casaco nem saia Venha este aqui escutar Eu não vou anarquizar Apenas vou escrever Pra todo mundo saber O banho da beira mar. Na praia do rio doce Uma moça abestalhou-se Dizendo que acabou-se Muito triste a lamentar Se não tenho vindo cá Aqui nesta infelicidade Parei na maternidade Por causa do banho de mar. xi Aqui estão sendo questionados novos hábitos, novas práticas, novos comportamentos. O banho de mar possibilita quase o desnudamento dos corpos, e causa estranhamento numa sociedade tradicional é um comportamento reprovável. Esse não é um costume das “mulheres nordestinas” do interior, mas é um costume litorâneo, a praia era vista como um lugar de pecado. E adotar tais costumes seria um meio de “anarquizar”, de fragmentar os costumes “interioranos”. O poeta aqui adota um discurso que tem como função aconselhar, prescrever modelos de comportamento.

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